O “pequeno homem” na literatura russa

Ilustração de Akáki Akákievitch, protagonista de “O capote” Fonte: Libre de droit

Ilustração de Akáki Akákievitch, protagonista de “O capote” Fonte: Libre de droit

Evolução do tema do burocrata, o málenki tchelovek surge no século XVIII e é retomado por Púchkin, Gógol e Dostoiévski.

Há temas que mudam a história e o destino de uma literatura. No caso da literatura russa, o tema do chamado “pequeno homem” (málenki tchelovek) exerceu esse papel. Este tema é a evolução, num sentido mais humanista, do tema do tchinovnik, ou funcionário público. Este já surge em alguns autores do século XVIII, como A. Sumorokov e D. Fonvízin, ganhando concretude mais palpável com V. Kapnist na comédia Iábeda (A delação), mas todos esses autores, além de criarem personagens um tanto vagos, apenas reproduzem o estereótipo do funcionário oportunista, corrupto e concussionário, que era a imagem então predominante no imaginário russo. Púchkin, Gógol e Dostoiévski mudarão definitivamente o enfoque do pequeno homem, propiciando o grande salto que poria a literatura russa no nível das melhores literaturas européias do século XIX.

Coube ao gênio de Púchkin, com O chefe da estação, usar o tema do pequeno homem para inaugurar uma nova página na história do humanismo na literatura russa. Fiel ao seu credo estético de que “a prosa deve ser breve e precisa”, Púchkin nos apresenta em poucas páginas um personagem às voltas com a prepotência e as injustiças do meio social a que ele serve, dando ao conto um acabamento entre lírico e trágico e criando no leitor tamanha empatia com o chefe da estação que ele, leitor, conclui sua leitura do conto presa de profunda compaixão pelo velho. Assim, Púchkin parte de um tema já recorrente na literatura russa, mas lhe dá um tratamento estético tão moderno e peculiar que acaba inaugurando a famosa galeria dos humilhados e ofendidos, que seria ampliada por Gógol e profundamente reformulada por Dostoiévski. Os três introduziram mudanças de cunho social, filosófico e psicológico que colocaram a literatura russa em nível de igualdade com as literaturas mais avançadas da Europa ocidental.

Em O capote de Gógol, o tema do pequeno homem ganha a concretude da vida de uma repartição pública, na qual o personagem exerce a função de amanuense e recebe o título de conselheiro titular, integrando a nona classe na hierarquia do serviço público russo, aquela na qual o funcionário passa a vida inteira trabalhando sem jamais experimentar nenhuma mobilidade social. Consciente de seu enfoque novo de um tema já recorrente, Gógol se posiciona na contramão do seu enfoque tradicional ao dizer que o conselheiro titular “é alvo das chacotas e galhofas de que se farta tudo quanto é escritor que tem o elogioso costume de cair em cima daqueles que não podem arreganhar os dentes”, isto é, o costume de ofender e humilhar quem não tem condições sociais de reagir às iniquidades de que são vítimas. O capote representa um grande avanço no enfoque humanista do pequeno homem iniciado por Púchkin e acentua no personagem Akáki Akákievitch a condição de humilhado e ofendido.

Dostoiévski retoma o tema já em suas duas primeiras obras, Gente pobre e O duplo. Embora declare “todos nós saímos de O capote, de Gógol”, seu enfoque do tema é o oposto total de Púchkin e Gógol. Nestes só quem fala é o narrador (aliás, Akáki parece não ter conhecido a linguagem articulada), os personagens não têm nenhuma consciência de sua condição de humilhados e ofendidos e acabam sendo objeto de compaixão. Dostoiévski não quer um escravo feliz, mas um homem livre. Seus personagens têm consciência de sua condição de humilhados e ofendidos e reagem a ela de forma até violenta (veja-se o Sr. Prokhartchin). Não aceitam a compaixão, que humilha e rebaixa o homem e ignora sua condição de homem livre (veja-se a reação de Makar Dievuchin de Gente pobre ao receber de presente O capote: sente-se equiparado a Akáki, objeto mudo de compaixão; Goliádin de O duplo acaba louco tentando afirmar sua individualidade).

Portanto, o tema do pequeno homem ganha dimensão social, filosófica e psicológica nesses três gênios, mudando radicalmente o destino da literatura russa.

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