O cinegrafista que filmou a rendição alemã

"O medo existia, mas o esquecíamos durante o trabalho" Foto: RGAFKD/Vostock-Photo

"O medo existia, mas o esquecíamos durante o trabalho" Foto: RGAFKD/Vostock-Photo

Durante a Grande Guerra Pátria, 258 cinegrafistas soviéticos trabalharam no fronte. Desses, porém, resta apenas um sobrevivente na Rússia: Boris Aleksándrovitch Sokolov, de 95 anos.

Em entrevista à Gazeta Russa, o cameraman condecorado com 31 medalhas e duas Ordens da Estrela Vermelha pelas filmagens da libertação de Varsóvia conta como era filmar a linha de frente.

Cobrindo a guerra, você foi direto para o fronte?

Eu tinha 21 anos em 1941. Foi quando começaram a organizar grupos de cinegrafistas para a linha de frente no Instituto de Cinematografia Guerássimov. 
Sempre pedia para entrar, mas me diziam “não”. Eu sabia que inicialmente enviariam os mais experientes. Na verdade, ninguém ensinava a filmar em condições de guerra. No Exército alemão, pelo contrário, havia cursos para cinegrafistas militares.

E para onde você foi enviado? Foi convocado para o Exército?

No início, fui para defender os arredores de Moscou. Depois voltei para o estúdio, que acabou evacuado para Alma-Ata, então na República Soviética do Cazaquistão. Estava com meu amigo, Misha Possélski, que conseguiu, em alguns meses, integrar-se ao grupo cinematográfico do fronte, enquanto eu continuava na evacuação. Sempre pedi para ser aceito na linha de frente.

Por que isso era tão importante para você?

O país vivia uma guerra! “Tudo para o fronte, tudo para a vitória” era o slogan daquela época. Infelizmente, consegui ser aceito no fronte apenas em 1944. Era a última chamada. Filmei a vida do Exército russo durante os três meses em que ele esteve nas redondezas de Varsóvia.

Você teve medo?

O medo existia, mas o esquecíamos durante o trabalho, mesmo sofrendo grandes perdas. Durante a guerra, só 258 cinegrafistas trabalharam no fronte. Eles filmaram mais de 3,5 milhões de metros de filme de 35 mm. Um em cada cinco morreu. Outros se feriram ou entraram em estado de choque.

A câmera era pesada?

A câmera equipada com todas as lentes pesava muito. Não havia zoom, para cada escala era preciso ter uma objetiva diferente. O corpo da câmera pesava quase 3,5 kg. Além disso, a gente levava bobinas com fitas de 30 metros, mas o corpo da câmera tinha um mecanismo de mola que só permitia rodar 15 metros de fita, ou seja, 30 segundos de filmagem contínua.

Quanto tempo levava para recarregar o filme?

Era preciso fazê-lo em um lugar escuro, dentro de um saco ou em um quarto, para não estragar o filme. No saco, era preciso fazer tudo tateando. Levava de 5 a 10 minutos, às vezes mais. Para filmar, usávamos o filme americano “Aimo” ou seu análogo soviético, o “KS”. Os alemães usavam seu “Arriflex”, que podia ser carregado mesmo exposto a luz, e as fitas, em vez de 30 metros, tinham 60 ou 120.

Tinha alguma proibição nas filmagens? 

Podíamos filmar tudo. Mas a censura limitava a exibição ao público. Eu ainda não estava no fronte quando sofremos derrotas, mas essas foram muito pouco filmadas. Sei de casos em que cinegrafistas tentaram filmar momentos de derrota, mas os soldados pediam para não filmar, muitas vezes com ameaças.

Qual filmagem tem destaque nas suas lembranças?

É claro que a da assinatura do ato de rendição da Alemanha. Pediram para eu e o Possélski filmarmos a delegação alemã. Fiquei especialmente impressionado com o comportamento do [chefe do Comando Supremo da Wehrmacht] Marechal-General Keitel.

Como ele se comportava?

Como se fosse o vencedor, e não o derrotado. Mesmo recebido apenas pela guarda na saída do avião, ele cumprimentava as pessoas com a vara de marechal. Nenhum dos oficiais foi ao aeroporto. Na sala da assinatura, ele também cumprimentava todos com a vara, mas ninguém respondeu. 

Você não filmou a bandeira da vitória sendo hasteada no Reichstag. Você se arrepende?

Quando filmaram, não pensavam sobre o significado da bandeira. O Reichstag se tornou símbolo de vitória apenas mais tarde. E nem me lembro onde eu estava filmando naquele momento.

Mas sabe-se que a filmagem da bandeira da vitória no Reichstag foi encenada...

Durante as batalhas, mais de dez bandeiras apareceram em diferentes andares do Reichstag. Na noite de 30 de abril para 1° de maio, uma bandeira apareceu na cúpula do Reichstag. Mas, durante a noite, não tinha luz suficiente para filmarmos, apesar dos incêndios ao redor. Muitas pessoas consideram que a filmagem foi encenada, mas o que ocorreu, na verdade, foi uma reconstituição dos fatos.

Vocês não podiam rever o próprio material na linha de frente. Mas, depois da guerra, você conseguiu ver seu trabalho?

Consegui, quase por acaso, quando o material foi usado em longas-metragens. No filme “A Grande Guerra Patriótica”, por exemplo, intitulado no exterior de “A Guerra Desconhecida”, era possível ver partes de nossos trabalhos. Mas eu mesmo não consegui ver nada.

Suas filmagens também aparecem no filme “A Infância de Ivan”, de Andrêi Tarkóvski, com a famosa guilhotina ..

Sim, foi na prisão da cidade de Poznan, na Polônia. Filmamos aquela guilhotina em um dos cômodos daquela prisão. E então nem sabíamos que aquele material tinha sido usado por Tarkóvski. Fiquei sabendo só depois, e aí lembrei que fomos nós que filmamos.

 

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