Do subterrâneo para o Hermitage

Iliá Kabakov, o artista plástico russo mais valorizado do mundo, fala dos tempos difíceis da URSS e de como é produzir hoje Foto: AFP/East News

Iliá Kabakov, o artista plástico russo mais valorizado do mundo, fala dos tempos difíceis da URSS e de como é produzir hoje Foto: AFP/East News

“Por volta de 1957, um mundo subterrâneo de arte informal absolutamente incrível surgiu em Moscou. Dele faziam parte artistas plásticos, poetas, escritores, teólogos autointitulados e compositores”, conta Iliá Kabakov, o artista plástico russo mais valorizado do mundo.

Em entrevista, Iliá Kabakov, o artista plástico russo mais valorizado do mundo, fala da arte do subterrâneo (conjunto de tendências em arte contemporânea que contrastam com a arte oficial, tradicional) soviética, de sua emigração e da arte contemporânea.

Afisha  – Como se deu o seu encontro com a arte informal?

Iliá Kabakov – Na época de Stálin, havia um controle sobre tudo o que um artista fazia. As comissões de inspeção entravam nas oficinas e viravam as telas (para verificar o verso). No tempo de Khrushchev e Brejnev, ninguém mais estava interessado naquilo que você falava na sua cozinha ou fazia em seu estúdio. Tempos maravilhosos. Por volta de 1957, um mundo subterrâneo de arte informal absolutamente incrível surgiu em Moscou. Dele faziam parte artistas plásticos, poetas, escritores, teólogos autointitulados, compositores. Não havia exposições, nem críticas, nem galerias, nem vendas. Era uma vida em um abrigo antibombas, onde todos eram amigos, cada um compartilha o que tem pois todos foram encurralados na mesma situação. Por isso respeitam e compreendem uns aos outros. Mas quando a porta do abrigo se abriu, por volta de 1987, revelou-se que cada um tinha o seu próprio destino.

Iliá Kabakov vive nos EUA, mas nasceu na URSS. Tornou-se conhecido como um dos fundadores da escola conceitual de Moscou. Começou como ilustrador de livros. Foi um participante ativo das exposições de dissidentes. Os trabalhos “Besouro” (US$ 5,8 milhões, 2008) e “Quarto de Luxo” (US$ 4,1 milhões, 2006) são as duas obras de arte contemporânea russas mais caras já vendidas. Os trabalhos do artista estão expostos na Galeria Tretiakov, no Hermitage, no Museu de Arte Moderna de Nova York e em outras coleções prestigiadas do mundo.

O senhor sentiu alívio quando foi para o exterior e parou de usar a máscara soviética?

Quando eu fui embora, encontrei aqueles com quem sempre sonhei. Isso lembra o conto de fadas do Andersen, sobre o patinho feio. Os cisnes realmente existiam. Eu me deparei com o período mais maravilhoso na vida do mundo da arte ocidental, do final dos anos 1980 até o ano 2000. Foi o florescer dos empreendimentos ligados aos museus e às exposições na Europa e na América. Eu estava em meio aos meus correligionários. Sentia-me imensamente feliz, como um músico que vai de uma sala de concertos à outra e em todos os lugares faz as suas apresentações. Além disso, existia grande interesse e curiosidade por aquilo que tinha saído daquela “Coreia do Norte”. Aproveitando essa curiosidade, eu realizei muitas exposições.

Eu era o marujo Simbad que deveria contar para o Ocidente sobre esse terrível buraco do qual eu fui capaz de trazer alguns sinais e histórias. Eu pensei que essa raiva, desespero e angústia iriam durar a minha vida inteira, mas aconteceu que o balde que eu trouxe da minha terra natal esvaziou-se e agora não tenho mais nada para contar.

Não se sentia chateado pelo fato de que a postura em relação ao senhor enquanto alguém que vinha da União Soviética se sobrepunha à postura em relação ao senhor enquanto artista?

Não, o mundo da arte é totalmente apolítico. O século que eu encontrei era focado absolutamente na arte. Eu mesmo não assimilava o poder soviético de uma forma politica, mas climática, ou seja, nesse lugar está sempre chovendo e será assim para sempre. O governo soviético era assimilado como uma eterna zona climática de trevas e chuva. Eu não tinha nenhum desejo de protestar, afinal, você não vai por a cabeça para fora da janela e começar a gritar para que a chuva pare.

Como o senhor teve a ideia de uma instalação artística total pela primeira vez?

Ela veio à minha cabeça ainda em Moscou, entre 1984 e 1985, quando eu já estava projetando diferentes instalações artísticas que não poderiam ser feitas em Moscou. Assim que fui para o exterior, isso se tornou possível. Os soviéticos cometeram um erro permitindo que a União Soviética recebesse enormes quantidades de materiais da cultura ocidental. Eles deveriam ter se isolado, como fizeram os nazistas, mas a arte ocidental era exposta nos museus da URSS, e a música ocidental era executada nos conservatórios. As bibliotecas estavam lotadas com as melhores traduções da literatura ocidental.

Sendo assim, o contexto externo, que existia além do muro, sempre esteve presente. Os professores nos diziam: "Você já tem 18 anos e ainda não fez nada, e Rafael, nessa idade, já havia pintado a ‘Madonna Solly’”. Portanto, o lugar do meu nascimento está instintivamente conectado com o Ocidente e ao dizer "lá" e "aqui" é como se você estivesse sempre sentado sobre duas cadeiras. Hoje em dia, acho que muitos compreendem isso.

A realidade circundante era um retorno porco e aborrecido ao estágio de selvageria. O contraste entre os oásis como o Museu Pushkin, a Galeria Tretiakov, o Conservatório e algumas bibliotecas e aquela selvageria cotidiana na qual consistia a vida soviética fornecia um solo fértil para o trabalho artístico.

Ao ler os livros, você passava a olhar para o ambiente ao seu redor sob a perspectiva daquilo que tinha lido. Existiam posicionamentos diferentes que poderiam ser assumidos em relação a isso. Um deles era etnográfico, quando você se sentia como um enviado de um clube geográfico inglês que observa a vida dos canibais na África. Outro seria uma atitude de raiva: "Por que tenho que levar essa vida de cão?" Isso já é desespero. E ainda havia uma terceira variante, a sensação de que você é o “pequeno homem” de Gógol. Apesar de estar sendo oprimido, você tem os seus ideais, o seu capote, a sua autoconsciência que chia. Por um lado, você é o observador, por outro lado, o paciente. O que a geração atual não conhece é o medo louco de que virão arrancá-lo do seu lugar, te bater, te prender. Hoje é difícil descrever esse temor.

 

Publicado originalmente pela Afisha

 

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