Reaproximação impõe novos desafios a relações Cuba-EUA

Bandeiras em Havana para celebrar a reaproximação entre países Foto: AP

Bandeiras em Havana para celebrar a reaproximação entre países Foto: AP

Elogiada por observadores russos, retomada de laços entre países pode enfrentar percalços que nada têm a ver com o Kremlin.

O restabelecimento de laços diplomáticos entre EUA e Cuba culminou na recém-inauguração de embaixadas dos países em Havana e Washington, respectivamente.

Vista por alguns especialistas russos como uma campanha não declarada dos Estados Unidos para conquistar os “amigos da Rússia”, a medida amplia a esfera de influência norte-americana em áreas que, por razões de ideologia política, eram consideradas “zonas interditadas”.  

Para a administração Obama, trata-se do ápice das negociações que, ao longo de dois anos de altos e baixos, resultaram na aproximação entre os países e fim do embargo contra a ilha comunista.

Raul Castro e sua equipe de revolucionários não aceitaram com facilidade a mudança repentina na atitude dos norte-americanos, que supostamente idealizaram tentativas para derrubar o governo de Havana e derrubar o pai fundador da nação, Fidel Castro.

Mas ambos os lados concordam que esse é apenas o primeiro passo na direção certa. Enormes desafios ainda estão por vir. Em particular, há a controversa questão da restituição ou retorno da propriedade dos exilados cubanos.

Não menos imprevisível é o resultado das deliberações no Congresso dos EUA, onde os membros eleitos que representam os norte-americanos de origem cubana afirmam que Obama não tirou o máximo proveito do acordo.

O campo minado que Cuba e EUA têm pela frente não deve ser subestimado. É pouco provável que o rápido abandono do regime de sanções, que durou mais de meio século, supere as animosidades em ambos os lados. É preciso tempo.

Além disso, os norte-americanos de ascendência cubana formam um grupo lobista com poder financeiro e seguidores influentes, dos quais muitos se encontram entre os ultraconservadores.

Seja como for, não se prevê desenvolvimentos negativos na interação lenta entre Cuba e  Rússia, que sofreu um grande revés após a administração do ex-presidente russo Boris Iéltsin ter se distanciado do seu outrora aliado no continente americano.

Atualmente, Moscou e Havana estão empenhados em estabelecer uma cooperação baseada em áreas lucrativas, livres de dogmas ideológicos e que ofereça certa flexibilidade a ambos os lados.

Duas cabeças, uma sentença

O veterano e analista em política externa Anatóli Gromiko, membro da Academia de Ciências da Rússia e filho do famoso ministro das Relações Exteriores soviético Andrêi Gromiko, chegou a conhecer o presidente dos EUA John F. Kennedy, que foi assassinado em 1963. Aos 83 anos, Gromiko elogia o restabelecimento de laços diplomáticos entre EUA e Cuba, mas alerta para os riscos:

“Vejo esse desenvolvimento como extremamente positivo. Basicamente, mostra que os Estados Unidos estão finalmente abandonando a postura de Guerra Fria. Não é segredo que o objetivo dos EUA era sufocar Cuba com sanções econômicas e pressão militar. Agora, Obama está abandonando essa política. É um passo positivo. Cuba dá testemunho de que mesmo um país pequeno que permaneça firmemente de pé pode enfrentar qualquer subversão. As sanções são, em sua essência, um ato de subversão. Desistir da política das sanções e [buscar] um retorno às relações diplomáticas normais é um bom sinal, embora muito vá depender da política seguida por Washington daqui para a frente. Se houver suspeita de que os EUA estão usando a normalização como um escudo para encenar uma ‘revolução laranja’, ou seja, uma mudança de regime, isso terá uma reação negativa entre os cubanos.”

Aleksandr Domrin, professor da Escola Superior de Economia, em Moscou, não é menos otimista em relação à recente guinada na política externa norte-americana:

“Todas as guerras terminam. Todos os embargos terminam. O que temos agora é realmente um momento histórico (...) Do meu ponto de vista, pode ter até mesmo um contexto global mais amplo. Existem diferentes cubanos vivendo nos EUA. Alguns deles perderam propriedades em resultado da revolução cubana. Outros, que pertencem à nova geração, querem restabelecer relações com a pátria. Obama é mais sensível do que seus antecessores às vozes de americanos de origem cubana.”

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