Morte de líder de milícia em Donbass eleva ameaça no sudeste ucraniano

Pavlov (esq.), também conhecido como Motorola, foi vítima de atentado no domingo

Pavlov (esq.), também conhecido como Motorola, foi vítima de atentado no domingo

Ígor Maslov/RIA Nôvosti
Visto como ‘provocação’ na Rússia, atentado colocaria em xeque acordos de Minsk. No entanto, especialistas do país negam possibilidade de escalada do conflito.

Arsêni Pavlov (ou Motorola), cidadão russo que atuava como comandante de campo da autoproclamada República Popular de Donetsk (RPD), foi morto no domingo (16) em uma explosão no elevador de seu prédio.

Embora não gozasse de um título formal expressivo (tenente-coronel das milícias independentistas de Donbass), Pavlov conquistara grande popularidade na imprensa, além de prestígio entre os rebeldes, tornando-se símbolo da ‘Primavera russa’.

O reconhecimento veio após se juntar às fileiras da milícia da RPD, quando fornecia a jornalistas cenas dos combates filmadas com câmeras GoPro.

Na época, os dispositivos eram anexados aos capacetes dos rebeldes que participavam da batalha pelo aeroporto de Donetsk em 2014, e Motorola (chamado assim por servir nas comunicações) repassava as coordenadas.

Desde então, Pavlov sobreviveu a várias tentativas de assassinato; a última delas havia sido uma explosão em junho passado.

Tanque próximo ao edifício onde ocorreu atentado Foto: Mikhail Sokolov/TASSTanque próximo ao edifício onde ocorreu atentado Foto: Mikhail Sokolov/TASS

Motorola como primeiro alvo

As autoridades da RPD imediatamente acusaram um grupo subversivo ucraniano pelo assassinato do comandante. Este é um “desafio” para a república, disse o chefe de Estado e primeiro-ministro da região, Aleksandr Zakhartchenko, ao anunciar a escalada do conflito militar, que já sofre com a fragilidade dos acordos de Minsk.

“Pelo que entendi, [o presidente da Ucrânia, Petrô] Porochenko violou a trégua?”, continuou. “Agora aguarde. Já basta, estamos cansados ​​de tolerar e de promessas.”

As autoridades ucranianas, porém, negam qualquer envolvimento na morte de Pavlov. Paralelamente, a organização nacionalista Divisão Misantrópica, que é proibida na Rússia, já assumiu a responsabilidade pelo atentado, em um vídeo no qual quatro homens mascarados e com fuzis de assalto confessam o assassinato.

“Zakhartchenko, Plotnitski [porta-voz do Parlamento da RPD], vocês são os próximos”, dizem os homens na gravação, embora não haja provas.

Segundo fontes militares, Pavlov teria sido escolhido como a primeira vítima entre os líderes da RPD devido a sua importância no contexto dos conflitos. Desde o primeiro semestre, Zakhartchenko começou a perder influência sobre o Exército da república, e o destacamento ‘Esparta’, de Motorola, era sua única reserva.

“Ele incomodava a liderança ucraniana, não era apenas um comandante experiente”, disse à Gazeta Russa Andrêi Suzdaltsev, vice-decano da Faculdade de Economia e Política Mundial na Escola Superior de Economia.

“Em sua operação com as forças, que tinham equipamento pior [do que o Exército ucraniano], tinha boa orientação no campo de batalha e gozava de grande autoridade.”

O Serviço de Segurança da Ucrânia havia identificado Pavlov em fotografias tiradas nas manifestações na Carcóvia, em 2014, e, por isso, fora inserido na lista de sanções dos Estados Unidos.

Reflexos no processo de Minsk

Apesar de Pavlov ser uma peça-chave para a RPD, é pouco provável que sua morte afete os rumos do atual conflito militar, sugerem especialistas.

“Eu não acho que isso seja possível”, dispara o analista político Valéri Khomiakov, que é diretor do Conselho de Estratégia Nacional. “Motorola não é uma figura tão significativa a ponto de desacelerar o processo de Minsk. A RPD não desempenha um papel independente neste cenário.”

Segundo Suzdaltsev, por parecer um “ato de provocação”, isso não significa que a RPD irá sucumbir a ela. “As palavras de Zakhartchenko são provavelmente apenas um discurso populista”, sugeriu o especialista.

“Bombas continuam caindo nos telhados, é muito difícil restaurar o cotidiano da população em meio ao terceiro ano de conflito” disse Suzdaltsev, destacando que Moscou está satisfeita com o acordo de Minsk e interessada no fim dos confrontos.

A Rússia, segundo o especialista, não comentou a morte de Pavlov porque “ainda não é hora” e porque que qualquer ação em defesa do Donbass é imediatamente interpretada pelo Ocidente como uma interferência nos assuntos da Ucrânia.

“Mas não acho que ficaremos alheios a esses acontecimentos”, arrematou.

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