Corte de luz na Crimeia muda estilo de vida local

Escolas tiveram horário alterado para aproveitar claridade do dia.

Escolas tiveram horário alterado para aproveitar claridade do dia.

AP
Após corte de luz por radicais ucranianos, moradores da península se veem obrigados a recriar rotina. Rede conectada desde os tempos soviéticos não têm previsão de reparo, e locais apostam em futuros fornecimentos provenientes da Rússia.

Apesar de as autoridades russas terem estabelecido medidas para atenuar um possível desligamento da rede elétrica ucraniana que ainda supria as necessidades da Crimeia, a península não estava preparada para uma interrupção súbita e completa do circuito.

Antes de ser reintegrada à Rússia em 2014, a Crimeia recebia 80% da energia consumida a partir de usinas nucleares ucranianas. Apenas 20% do consumo total era gerado internamente, por meio de estações de energia térmica, solar e eólica.

As fontes autônomas de energia alimentavam sobretudo maternidades, hospitais, postos de transfusão de sangue, orfanatos e abrigos para idosos.

A man looks at electricity supply meters at a house in Simferopol on November 22, 2015. Crimea declared a state of emergency on Sunday after its main electricity lines from Ukraine were blown up, leaving the Russian-annexed peninsula in darkness after the second such attack in as many days. More than 1.6 million people are without power, water supplies to high-rise buildings have stopped and cable and mobile Internet is down. The electricity feed from Ukraine was cut at 00:25 am (2225 GMT), the Crimean branch of Russia's emergency situations ministry said in a statement. Foto: AFP/East NewsMais de 1,6 milhão de pessoas estão sem luz nem comunicação em Simferopol Foto: AFP/East News

Desde que treze usinas móveis de turbinas a gás e mais de mil geradores a diesel foram levadas da Rússia à região, a geração elétrica própria aumentou até 40%.

Transporte e iluminação

Com o corte de energia, os trólebus (ou ônibus elétricos) deixaram de circular. Na região, porém, esse tipo de transporte serve não só aos moradores das cidades, mas também conecta a capital Simferopol aos resorts de Ialta e Alushta, na costa do mar Negro. Os trólebus foram temporariamente substituídos por ônibus.

Para economizar energia, a iluminação pública das ruas foi desligada, assim como as caldeiras térmicas, já que a temperatura média não tem sido inferior a 15 ºC.

Employees of the Russian Emergencies Ministry in the town life support Emergency Situations Ministry, unfolded in the city Shelkino in northeastern Crimea. City Shelkino completely de-energized after a power outage from Ukraine. Foto: Ria Novosti/Sergei Malgavko
Chelkino, no nordeste da Crimeia, após corte de energia Foto: Ria Nôvosti/Serguêi Malgavko

O fornecimento elétrico na casa dos crimeanos está sendo racionado. Por exemplo, em Sevastopol, onde vivem mais de 400 mil pessoas, os moradores recebem energia elétrica durante duas ou três horas e, em seguida, fica cortada por outras seis horas.

Além disso, a Crimeia começou a ter problemas com telefones celulares e internet. É difícil completar uma chamada telefônica e, mesmo assim, caem com frequência.

A inconveniência do bloqueio energético uniu, porém, os crimeanos, e as noites ficaram mais movimentadas. “Antes, todo mundo passava o fim do dia fechado em casa, navegando na internet ou assistindo à televisão. Agora a gente se reúne em volta das mesas para jogar ou conversar”, diz Evguêni Jurkov, morador de Sevastopol.

People crossing the road, Simferopol.Early on Sunday November 22, two electricity transmission lines from Ukraine were cut, causing a blackout on the entire peninsula. Foto: Ria Novosti/Artem Kreminsky
Movimento nas ruas cresceu durante a noite após corte de energia Foto: Ria Nôvosti/Artiom Kreminski

Empresas, lojas e escolas

Muitas fábricas, que se viram obrigadas a parar a produção, estão tendo prejuízos pesados. Algumas empresas decidiram investir na compra de geradores a diesel.

Alimentos e combustível não faltam, pois são levados para a península através da passagem de Kerch. As lojas menores alteraram o horário de funcionamento para trabalharem apenas durante o dia. Em locais onde abre-se à noite, a luz é de velas. A moda até pegou entre os cafés, com novas placas “Entre, nós temos luz”.

“Dos cinco mercadinhos do nosso bairro, apenas um está funcionando. No final do dia tem sempre fila e nem sempre conseguimos comprar pão. Deixamos também de comprar produtos lácteos, pois não sabemos se eles são sempre mantidos na temperatura certa”, conta Nadejda Riabko, moradora de Simferopol.

A customer visits a grocery lit with candles due to a power cut, in Simferopol, Crimea, November 22, 2015. Foto: Reuters
Mercadinho aderiu às velas para manter clientela à noite Foto: Reuters

A maioria das cidades declarou férias alunos de escolas e jardins de infância. Em Sevastopol, as escolas estão funcionando, mas as crianças começam as aulas mais tarde do que habitualmente.

Volta da luz

As autoridades da Crimeia classificaram o corte da rede promovido por radicais ucranianos como “um ato de terrorismo dirigido contra civis”, e a procuradora-geral da região, Natália Poklónskaia, iniciou um processo criminal por “sabotagem”.

A companhia energética ucraniana Ukrenergo adiou diversas vezes os prazos de reparação das linhas de alta tensão. Paralelamente, aposta-se na ponte energética através do estreito de Kerch, que deixará a península ligada à rede de energia da Rússia.

A resident of the village of Klimovka, Simferopol District starts his portable electric generator. Early on Sunday November 22, two electricity transmission lines from Ukraine were cut, causing a blackout on the entire peninsula. Foto: Ria Novosti/Sergei Malgavko Morador de Klimovka, na região de Simferopol, usa gerador portátil para funções básicas em casa Foto: Ria Nôvosti/Serguêi Malgavko

Segundo o ministro da Energia russo, Aleksandr Novak, os prazos de conclusão e entrega da obra serão abreviados. A primeira fase, com fluxo de potência de 350 MW, é esperada para o próximo 22 de dezembro. A segunda fase será entregue no verão de 2016, após o qual a ponte energética garantirá uma potência total de 850 megawatts.

Em 2017 e 2018 serão construídas também duas novas centrais termoelétricas, o que deve tornar a Crimeia totalmente independente do ponto de vista energético.

 

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