Terror na vida real: os calmucos que sobreviveram às purgas de Stálin

Elena Khovanskaya
Rostos e relatos dos eventos hoje considerados ‘crime contra a humanidade’.

Em dezembro de 1943, os calmucos, um grupo étnico que vivia na União Soviética, foram deportados à força como castigo coletivo por supostamente colaborarem com o regime de ocupação nazista e lutarem contra o Exército vermelho soviético.

Apenas dois dias após a ordem emitida por Ióssif Stálin, cerca de 100 mil pessoas tiveram que deixar suas casas. Mulheres, crianças e idosos foram amontoados em vagões de carga e levados à Sibéria. No entanto, muitos acabaram morrendo de fome, hipotermia e epidemias antes de chegarem ao destino.

No fim das contas, mais de 40 mil calmucos vieram a óbito durante esse período. Anos depois, o grupo étnico foi reabilitado e pode retornar a sua terra natal.

Boris Otchirov, 81 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

Otchirov comanda a União dos Povos Calmucos Reprimidos e fundou um museu de vagões de carga em Elista. “Eu tinha apenas quatro anos, mas lembro como ficava lotado por aqui, e como, com o tempo, havia mais espaço disponível à medida que as pessoas morriam de exaustão e frio. Os mortos era carregados em vagões especiais.”

“Quando os calmucos retornaram, uma música tradicional tocou na rádio central, e eles choraram. Enquanto a língua calmuca estiver viva, eles também estarão”, diz.

Nina Bochomdjieva (Badimkhalovna), 77 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

As purgas ocorreram quando Nina ainda era muito pequena, e a maior tragédia para ela é o fato de não se lembrar da história da própria família. Ela não sabia seu verdadeiro sobrenome, data nem local de nascimento. Seus pais morreram no caminho. Já na região de Tiumen, na Sibéria, Nina, então com 13 anos, começou a trabalhar em uma fazenda coletiva. Seu tio lutou na Batalha de Stalingrado e, por acaso, viu uma foto de Nina em 1958. Ela voltou para Kalmíkia após a reabilitação, onde reencontrou alguns parentes. Nina jamais voltou à Sibéria desde então.

Aliona Lidjieva, 91 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

As pessoas não entediam o que estava acontecendo. Os vagões não foram abertos por quatro dias. As condições eram tão precárias que metade dos deportados morreu na estrada. As pessoas bebiam água dos baldes, usando as mãos. Quando chegaram ao quartel, nem mais sapatos tinhas. Os siberianos, no entanto, os ajudaram prontamente.

“Nos deram trapos para enrolar os pés. Era uma vida difícil. Comíamos tudo o que podíamos, até mesmo cães. E trabalhávamos muito”, conta Aliona.

Nina Bovaeva, 89 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

“Nós vivíamos bem, em ‘prosperidade’, como as pessoas diziam naquela época. Eu sabia a guerra estava em curso. Um dia, alguns jovens soldados chegaram aqui. Ninguém entendia a língua deles. Eram alemães que precisavam de comida e um lugar para dormir. Eu cozinhei. Eles não eram assustadores, apenas pessoas, soldados, e riam muito. Na parte da manhã, quando saíram, me deram um pouco de chocolate. Eu queria experimentá-lo, mas eles estavam contra nós naquela guerra...Por isso, dei todo o chocolate aos porcos”, relembra Bovaeva.

Em dezembro de 1943, foi a vez de dois soldados russos visitaram Nina. “Eu cozinhei para eles também. Eles nos disseram para empacotar todas as coisas mais valiosas porque tínhamos que ir muito longe. Mas não disseram onde. Eles também disseram para não pegar as bonecas, mas nos ajudaram com sacolas cheias de xales de lã”, diz.

“Eu sempre vivi em paz com as pessoas e não tenho medo de nada na minha vida”, acrescenta Nina, que hoje tem 7 filhos, 11 netos e 11 bisnetos.

Aleksandra Galeeva, 85 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

Aleksandra sobreviveu graças seu pai, embora ele tivesse apenas uma perna. Na Sibéria, ambos se alimentavam de batatas congeladas e mastigavam plantas locais. Galeeva, que ficou cega há 15 anos, trabalhou com adultos desde a adolescência.

Bulgun Sakilova, 87 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

Na manhã que dois soldados chegaram armados, o pai de Bulgun estava doente e deitado na cama. “Matem rapidamente um carneiro ou uma vaca”, ordenaram então os soldados. Dali em diante foi uma jornada de 13 dias. Em Altai, começaram a trabalhar na construção de rodovias em uma região onde se encontrava um dos maiores sites de testes de armas nucleares da União Soviética, e Bulgun sofreu intensa  radiação. Quando seu pai faleceu, ele foi envolto em um cobertor e colocado na neve. O enterro aconteceu apenas meses depois, em maio, quando a neve havia derretido.

Sumian Lidjanov, 66 anos

(Foto: Elena Khovanskaia)(Foto: Elena Khovanskaia)

Nasceu na Sibéria e lembra parcialmente de sua infância.

“Lembro-me de como os adultos estavam carregando couve-nabo-da-Suécia (ou rutabaga), e eu pedi: ‘Me dê isso!’. Você sabe o que é rutabaga? Eu nem sabia o que era um sorvete...Realmente queria provar. Um deles derrubou rutabaga na lama. Na época, você podia pegar 10 anos em um campo de trabalho por fazer isso. Minha família voltou a Kalmíkia em 1957”, conta Lidjanov.

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