Um homem com uma câmera (e com os líderes soviéticos)

Serguêi Grigorian, o cameraman dos chefes de Estado soviéticos.

Serguêi Grigorian, o cameraman dos chefes de Estado soviéticos.

arquivo pessoal
Nossa editora Maria Grigorian relembra as peripécias do pai, Serguêi Grigorian (1945-2017), cujas lentes capturaram de chefes de Estado soviéticos a curandeiros mexicanos.

Morto neste ano, o operador de vídeo Serguêi Grigorian (1945-2017) era cheio de histórias para contar. Suas lentes capturaram momentos históricos da União Soviética e da Rússia moderna, além de muitos outros rincões do mundo, que sua filha, a editora Maria Grigorian relata:

“Meu pai, Serguêi Grigorian foi um dos cameramen mais conhecidos e experientes da Rússia. Ele filmou chefes de Estado como Leonid Brejnev, Borís Iéltsin, Vladímir Pútin e Dmítri Medvedev.

 Serguêi Grigorian e Konstantin Tchernenko, o quinto secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética / Foto: arquivo pessoal Serguêi Grigorian e Konstantin Tchernenko, o quinto secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética / Foto: arquivo pessoal

Ele escalou as montanhas mais altas do mundo, viveu na Hungria e no México, sofreu uma ulceração pelo frio e lutou contra bandidos – tudo por amor à profissão.”

Diamantes do Bangladesh

Serguêi Grigorian / Foto: arquivo pessoalSerguêi Grigorian / Foto: arquivo pessoal

“Durante os anos 1970, meu pai foi operador de câmera na Televisão Central Soviética em Bangladesh.

A situação era tão instável então, que ele decidiu investir em diamantes. Ele dizia: ‘Você nunca sabe o que pode acontecer’.

Então, foi a uma joalheria com um de seus repórteres, mas enquanto escolhia dois anéis de diamante, o golpe militar tomava as ruas, que ficaram cheias de tanques, e ele correu para filmar.

Quando voltou, o vendedor tinha embrulhado duas caixas com os aneis.

Um dia, minha mãe resolveu, por acaso, avaliá-los. Eram dois aneis de zircônio que valiam 50 dólares no total. Meu pai se recusava a acreditar que tinha sido enganado!”

Um jardim de infância húngaro cheio de... crianças?!

Filmando Brejnev em um jardim de infância: "Que crianças?" / Foto: arquivo pessoalFilmando Brejnev em um jardim de infância: "Que crianças?" / Foto: arquivo pessoal

“Serguêi Grigorian foi enviado à Hungria socialista para filmar uma visita oficial do chefe de Estado soviético, Leonid Brejnev.

O programa incluía uma passagem por um jardim de infância, e enquanto as crianças cantavam e dançavam, Brejnev fazia cara de tacho. 

Quando tudo terminou, entregaram-lhe um enorme urso de pelúcia. ‘O que eu faço com isso?’, perguntou Brejnev.

‘Entregue às crianças!’, respondeu um assistente, a quem Brejnev, já sofrendo de demência, rebateu: ‘Que crianças?’

A situação foi vergonhosa, porque russo era parte do programa de ensino nas escolas então e as crianças entenderam tudo. O vídeo foi confiscado e destruído.”

Filmagens enfeitiçadas no México

Serguêi Grigorian / Foto: arquivo pessoalSerguêi Grigorian / Foto: arquivo pessoal

“Meu pai passou oito anos no México, seu trabalho mais longo no exterior. Ele adorava o país, e os mexicanos se parecem muito com os russos, abertos e hospitaleiros.

Nos anos 1990, o mundo estava doido com Carlos Castaneda e o curandeiro Don Juan, e a chefia em Moscou mandou meu pai atrás do útlimo.

Meu pai se enfiou na floresta e o curandeiro topou ser entrevistado, mas exigiu uma grande quantia para ser filmado, que eles não pagaram. Meu pai filmou seus rituais escondido, mas quando foi assistir ao vídeo descobriu que eles estava coberto de quadrados negros formando um esqueleto e que o som havia desaparecido.”

Um armênio no Azerbaijão

Para ser admitido no Azerbaijão, assessoria presidencial precisou providenciar crachá de "cameraman pessoal de Pútin" / Foto: arquivo pessoalPara ser admitido no Azerbaijão, assessoria presidencial precisou providenciar crachá de "cameraman pessoal de Pútin" / Foto: arquivo pessoal

“Devido ao conflito de Nagorno-Karabakh, que continua sem resolução, até hoje pessoas com sobrenomes armênios, como é o nosso caso, não podem entrar no país.

Um correspondente me contou de uma viagem que fez com meu pai a Baku para filmar a visita oficial de Vladímir Pútin lá, quando algum produtor deu a cabeçada de enviar meu pai para lá.

Os problemas começaram já na aeroporto, mas a assessoria de imprensa de Pútin conseguiu um crachá para meu pai em que se lia: ‘Cameraman pessoal de Vladímir Pútin’.”

Trabalhando para o Kremlin

Filmar figurões do Kremlin para TV estatal exige manter a ordem e captar imagens perfeitas / Foto: arquivo pessoalFilmar figurões do Kremlin para TV estatal exige manter a ordem e captar imagens perfeitas / Foto: arquivo pessoal

Filmar chefes de Estado para o Primeiro Canal é super difícil, pois eles têm que sempre parecer perfeitos.

Uma repórter do canal me contou que meu pai estava filmando um discurso da mulher de Medvedev, Svetlana Medvedeva, e bem perto dela estava a mulher do produtor geral do canal, Larissa Sinelschikova, que todos temiam. Então meu pai mandou a mulher ficar quieta e todos ficaram surpresos.

Em outra ocasião, ele estava filmando o reitor da Universidade Estatal de Moscou, um homem idoso e muito respeitado, e havia um eletricista atrás dele. Eles sempre se tratavam de forma informal, então meu pai disse: ‘Ei, velhinho, vá um pouco para a direita’.

O coitado do reitor obedeceu e deu um passo à direita. Meu pai ficou sem saber onde enfiar a cara, e se apressou em se desculpar e explicar que estava falando com outro colega.”

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