Por que o poder soviético se calou diante de Chernobyl?

Decontamination of the Chernobyl nuclear power plant buildings.

Decontamination of the Chernobyl nuclear power plant buildings.

Igor Kostin/RIA Novosti
Em 26 de abril de 1986, há exatos 31 anos, ocorria a explosão do reator 4 de Chernobyl, afetando para sempre a vida de milhares de pessoas. Em entrevista à Gazeta Russa, o dirigente soviético responsável pelas operações de limpeza após o acidente, Nikolai Rijkov, descreveu o trabalho nos dias que seguiram a tragédia.

Lembro-me perfeitamente daquele dia. Era sábado, e eu estava me preparando para ir ao trabalho. Recebi uma ligação do ministro da energia Elétrica, Anatóli Maiorets, que me contou sobre o acidente na usina de Chernobyl, embora ainda não soubesse de mais detalhes. Ele me pediu que averiguasse o que havia ocorrido antes mesmo de ir ao trabalho. Eu não podia sequer imaginar que um reator havia explodido. Já havia tido todo tipo de falha: falhas nos geradores e nas turbinas... Mas, quando soube que se tratava da central nuclear, percebi a dimensão. Era realmente preocupante e fora do comum. Comecei a agir imediatamente.

Atualmente, Rijkov é membro do Senado russo (Foto: Maksim Blinov/RIA Nôvosti)Atualmente, Rijkov é membro do Senado russo (Foto: Maksim Blinov/RIA Nôvosti)

Duas a três horas depois, por volta das 11 da manhã, já havia sido assinado um documento para a criação de uma comissão governamental encabeçada pelo vice-diretor, Boris Scherbina, hoje falecido. Às três da tarde, a comissão – bem grande, por sinal – estava toda reunida; era composta por cientistas e encarregados dos ministérios. Naquele mesmo dia, os membros do grupo tomaram um avião para Chernobyl, e, no sábado à tarde, fui informado de detalhes do ocorrido.

Como a cidade de Pripyat, lar de 50 mil pessoas, ficava ao lado da usina nuclear, era necessário evacuar os moradores com o máximo de urgência. Autorizei o processo, que foi conduzido noite adentro. Entre 2 e 3 da madrugada do domingo, fui informado de que a evacuação estava concluída e não havia mais pessoas na região.

No dia anterior, 26 de abril, quando ocorreu o incidente, diversos casamentos estavam sendo celebrados em Pripyat. Por mais de 24 horas, a população não teve conhecimento do que havia acontecido. Nos meios de comunicação soviéticos, a primeira declaração oficial sobre a tragédia surgiu apenas no dia 28. Até então, os países ocidentais já haviam relatado a ocorrência, mas as autoridades soviéticas não queriam falar sobre isso. Na rádio de Moscou, o relato sobre o acidente ocupou o quarto lugar no noticiário; na de Kiev, o décimo primeiro. Passaram-se 18 dias até que o secretário-geral, Mikhail Gorbatchov, emitisse, enfim, uma declaração.

“Será que somos tão idiotas a ponto de causar pânico?”

O primeiro a realmente identificar a questão foram os suecos. Na noite de 26 de abril, seus sensores detectaram um aumento de radiação e logo concluíram que havia um vazamento em algum lugar. Nós só descobrimos o que tinha acontecido na manhã seguinte. O resto é mentira. Ninguém estava ocultando o perigo à população por três dias. Sim, precisávamos transmitir informações consistentes e apuradas. Mas o que deveríamos fazer? Gritar “salve-se quem puder”? Será que somos tão idiotas a ponto de causar pânico, para que centenas de milhares de pessoas saíssem por aí sem saber para onde correr, inclusive até o local do acidente? Era necessário organizar a evacuação.

Trabalho de liquidadores era perigoso, mas não faltavam voluntários (Foto: Ígor Kostin/RIA Nôvosti)Trabalho de liquidadores era perigoso, mas não faltavam voluntários (Foto: Ígor Kostin/RIA Nôvosti)

Nem todo mundo sabia o que era radiação. Havia vários problemas e questões desse tipo. Em Pripyat viviam, sobretudo, operários das usinas nucleares, e eles entendiam do assunto. Cheguei de avião a Kiev em 2 de maio e dali segui de carro para a região.

Paramos em algumas cidades perto da área. Uma senhora idosa veio até mim e perguntou o que estava acontecendo. “Há sujeira e radiação. É preciso ter cuidado”, eu disse. Mas ela rebateu: “De que sujeira você fala? Olhe para essa batata tão limpinha”. Esse é o conceito que as pessoas tinham na época – elas não conseguiam compreender que a morte poderia estar no ar.

Até 2 de maio, várias fontes já haviam anunciado a área do desastre. Durante a reunião em Chernobyl, decidi que era preciso evacuar todas as pessoas que vivessem em um raio de 30 km do local da explosão. Desenhamos um círculo no mapa e demarcamos os limites da operação. No caminho de volta para Kiev, deparei-me com centenas de ônibus que se dirigiam para evacuar a população.

Solução química era usada para minimizar radiação da usina de Chernobyl (Foto: Vitáli Ankov/RIA Nôvosti)Solução química era usada para minimizar radiação da usina de Chernobyl (Foto: Vitáli Ankov/RIA Nôvosti)

Entre a primavera e o verão de 1986, 400 mil pessoas viviam em áreas isoladas e consideradas como de “rigoroso controle radioativo”. A radiação afetou os territórios da Rússia (em menor grau, quatro aldeias com população de 186 pessoas), e da Bielorrússia. Porém, na Ucrânia, o território afetado superou o tamanho de Moscou.

Cerca de 116 mil pessoas foram evacuadas de imediato, e outras 270 mi, levadas nos anos posteriores.

“Helicópteros com placas de chumbo para evitar radiação”

Não dispúnhamos de nenhum helicóptero com proteção antirradiação. Éramos obrigados a sobrevoar o reator. Contávamos com helicópteros comuns que tinham recebido um revestimento com folhas de chumbo para evitar infiltração de radiação. Usávamos macacões e gorros brancos, e, no bolso, tínhamos um contador Geiger. Isso era tudo. Ao sobrevoar o reator de longe,  o ruído [do contador] emitido era de baixo volume. À medida que a gente se aproximava, ficava cada vez mais alto. Quando estávamos quase ao lado do orifício, disparava feito louco.

Mas o que poderíamos fazer? Não ir? Estávamos cientes de que qualquer dose poderia nos afetar, mas, do mesmo modo, não passou pela cabeça de ninguém escapar. Fiquei lá por duas horas e depois fui embora; outras pessoas trabalharam na área por vários meses, em turnos. Trocavam a cada duas semanas. Quando começamos a removê-los [da área], eles gritavam: “Para quê? Estamos mortos ou o quê?”. Mas não demos o braço a torcer: seguimos as recomendações dos médicos.

Nos diziam que mandávamos as pessoas à força. Não, pelo contrário. Tratava-se de uma desgraça. Havia inúmeros pedidos de voluntários com a inscrição “Eu peço para me enviar”. As pessoas estavam cientes do acidente e de que tinham que ajudar. No primeiro ano após o acidente, 350 mil pessoas participaram dos trabalhos para lidar com o desastre. O conselho de cientistas decidiu que o orifício do reator deveria ser preenchido com areia e chumbo – transportados de todo o país com urgência.

Helicópteros adaptados ajudaram a cobrir orifício da planta (Foto: Ígor Kostin/RIA Nôvosti)Helicópteros adaptados ajudaram a cobrir orifício da planta (Foto: Ígor Kostin/RIA Nôvosti)

“Ninguém compartilhou informações com a gente”

Era um caminho desconhecido. Os norte-americanos tinham tido um acidente semelhante em Three Mile Island em 1979, mas todas as informações eram mantidas em segredo. Ninguém compartilhava informações com a gente, e nós não sabíamos nada. Éramos apenas criticado. Era a Guerra Fria, e ninguém prestou ajuda.

Em uma reunião do comitê no dia 1 de maio, já se sabia que não havia iodo suficiente para as crianças, para proteger suas tireoides, e que havia guindastes suficientemente grandes para montar uma tampa de proteção sobre o reator. Mais tarde, compartilhamos toda a experiência que tínhamos acumulado.

Durante o julgamento do PCUS [Partido Comunista da União Soviética], já tinha me acostumado que nos culpavam pela tragédia. Um dos promotores me apresentou uma pilha de papéis, cheios de anotações, com 42 protocolos eu havia assinado. Durante muito tempo, ficou fazendo perguntas do tipo: “Camarada Rijkov, aqui temos um protocolo assinado por você dizendo que nessa aldeia o nível de radiação registrado era de não sei quantas rems. No entanto, temos outros dados...”. Fui paciente até que deixei escapar: “Como posso, como primeiro-ministro de um país com milhões de cidadãos, saber qual é a radiação em uma pequena vila remota? Eu não preciso de saber disso. Tomei outras decisões. Onde você estava quando ocorreu a tragédia? Como comunista, por que não veio onde estávamos, como outros oficiais e soldados? Então, que direito tem de me fazer essas perguntas? Ele ficou em silêncio e não me questionou mais. Eu ainda acredito que tudo o que fizemos foi o certo no momento.”

Nikolai Ivanovitch Rijkov (nascido em 28 de setembro de 1929, em Donetsk) ocupou o cargo de presidente do Conselho de Ministros da URSS entre 1985 e 1991, durante a época da glasnost e da perestroika lideradas por Mikhail Gorbatchov. Resistiu a várias tentativas do então presidente soviético de introduzir mecanismos de mercado na economia soviética. Visitou Chernobyl nos dias 2 e 3 de Maio e foi responsável pela evacuação de toda a população localizada a um raio de 30 km da usina nuclear. Hoje é membro do Conselho da Federação (Senado) e seu nome figura na lista de sancionados pela União Europeia.

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