Muçulmanos já somam 15% da população de Moscou

Anton Belitskiy
Ao longo da última década, a população islâmica da capital russa subiu para quase 2 milhões, ou cerca de 15% do total. E esse crescimento contínuo tem levado também ao aumento de tensões com locais.

(Foto: Anton Belitski)(Foto: Anton Belitski)

Enquanto diversas cidades europeias foram alvo de terroristas recentemente, sobretudo ligados ao Estado Islâmico, Moscou permanece relativamente calma já há cinco anos – mesmo considerando que a Rússia lidera a luta contra grupos terroristas na Síria.

A capital russa é hoje lar de cerca de 2 milhões de muçulmanos, dos quais metade migrou há pouco tempo. Apesar de o último grande ataque da cidade ter sido em janeiro de 2011, o receio de atentados é crescente entre os moscovitas.

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Dubrovka, o mercado islâmico

Dubrovka é um dos cerca de 1.500 centros comerciais de Moscou, e tem como principal característica sua localização conveniente, a apenas 100 metros da estação de metrô mais próxima e a cinco quilômetros do Kremlin.

“Somos uma das lojas preferidas dos moscovitas”, lê-se em uma faixa pendurada sobre a entrada do prédio. Para grande parte dos moradores da capital, porém, o  shopping é mais conhecido como “mercado muçulmano”.

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Por dentro, Dubrovka se parece mais com um bairro da periferia de Paris do que com o centro de Moscou: mulheres cobertas com véu, homens portando contas de oração e lojas que oferecem comida halal e trajes islâmicos. Uma delas promete “cobrir sua modéstia na última moda”. Tudo isso se espalha por uma área de 80 mil metros quadrados.

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Alguns moradores dos entornos demonstram descontentamento. “Andar ao redor do bairro pode ser assustador”, diz Anna, uma mulher de meia-idade que vive em frente ao shopping. “Estou preocupada com minha filha, porque ela tem que voltar para casa da universidade tarde da noite. Ela foi abordada por grupos de migrantes em várias ocasiões e, certa vez, ela quase foi estuprada. Muitos deles têm registros falsos; tem um lugar ao lado do mercado onde eles podem comprar documentos por US$ 200.”

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À esquerda da entrada do Dubrovka, há uma porta de aço enorme, e as pessoas que ali formam fila não parecem ser russas. Ao perguntar o que estão esperando, eles se afastam sem dizer uma palavra. Enfim, um gari que passa na rua confirma as palavras de Anna.

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Terra de riqueza, beleza e desconforto

O jovem barbudo Murad, de 26 anos, ganha a vida vendendo celulares usados ​​no Dubrovka. Em muitos aspectos, ele personifica os migrantes muçulmanos que chegam à capital da Rússia. Seis anos atrás, deixou seu vilarejo nativo de Chinar (1.000 km a sudeste de Moscou), seguindo os passos de seu irmão e tio.

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Juntos, os três alugaram um quarto em um apartamento comunal no norte de Moscou. Por que se mudou para a capital russa? Não há nenhum trabalho em sua cidade de origem; já em Moscou, se passar 12 horas por dia no mercado, ganha cerca de 40 mil rublos por mês (US$ 700). Isso é o suficiente para pagar o aluguel e enviar dinheiro para os pais idosos.

Murad é um lutador amador, abstém-se de álcool e socializa exclusivamente com seguidores da religião (com exceção das “jovens mulheres de etnia russa [eslava]” que, segundo ele, são “as segundas mais belas após as daguestanesas”).

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Viver em Moscou nem sempre lhe agrada, mas Murad não hesita em expressar suas queixas. “Meus parentes e eu ficamos somos parados pela polícia no metrô três vezes ao dia para verificarem nossos documentos, simplesmente por causa de nossa aparência. Os policiais nos tratam com grosseria, como se fossemos criminosos”, conta.

Mas o que Murad considera especialmente decepcionante sobre a capital russa é a ausência de mesquitas. “Não sou apenas eu, todos os muçulmanos estão ofendidos por isso. Igrejas ortodoxas são construídas em todos os bairros, mas nós estamos confinados a uma mesquita para todos no norte de Moscou. Em feriados religiosos praticamente não há espaço para se mover, é abafado. Por que somos humilhados assim?”

Resistência à construção de novas mesquitas

Na verdade, existem poucas mesquitas em Moscou – mais precisamente, apenas oito. Por insistência do clero muçulmano, foram anunciados planos de construir novas mesquitas com certa regularidade. No entanto, os projetos apresentados enfrentam tanta oposição local que as autoridades são obrigadas a recuar e cancelar seus decretos.

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O imã Shamil Alyautdinov, que vem pregando durante 19 anos na mesquita Memorial, em Poklonnaia Gorá, a oito quilômetros do Kremlin, não esconde seu desagrado.

“Se as autoridades tivessem cumprido todas as promessas feitas nos últimos 15 anos, haveria agora 50 novas mesquitas em Moscou. E iria não apenas nos ajudar. Afinal, é muito melhor para os migrantes visitarem as mesquitas oficiais em vez de rezarem em casa, socializando-se com a ‘ralé’”, diz o imã, referindo-se aos recrutadores terroristas.

Uma fonte do Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em russo) que preferiu não ser identificada nega o discurso do imã. “A Mesquita Yardam, no nordeste de Moscou, é oficial, mas isso não impediu o imã local de defender a organização terrorista Hizb ut-Tahrir”, diz. (O imã em questão, Mahmud Velitov, foi detido no ano passado, juntamente com quatro sócios, por recrutar membros da congregação como combatentes terroristas.) O homem por trás do ataque de Volgogrado, em dezembro de 2013, havia estado nessa mesma mesquita.

“Cinco minutos para explodir Moscou”

A Grande Mesquita de Moscou, a maior da cidade, fica a pouco mais de 3 km do Kremlin. Tem seis andares, ocupa uma área de 19 mil metros quadrados e pode receber até 10 mil fieis. O local é conhecido até mesmo por não religiosos devido à celebração anual de Eid al-Adha, uma das duas festas mais importantes do calendário muçulmano.

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Durante o feriado, pelo menos 150 mil fiéis visitam essa mesquita; como os interiores ficam superlotados, os fiéis enchem as ruas vizinhas e oram do lado de fora. Isso causa engarrafamento nos entornos e aborrecimento nos moradores locais.

Em um dia comum, porém, há apenas alguns poucos fiéis dentro da mesquita. Perguntas relacionadas a terrorismo e Estado Islâmico não são bem-vindas.

“Os russos não têm idéia do que o Alcorão realmente é, e é daí que vêm todos os seus medos! Imaginem o que aconteceria se a nossa religião não tivesse sido de paz. Levaria cinco minutos para explodir tudo em Moscou”, diz um homem de cabelos grisalhos que se apresenta como Shamil, ao lado de fora da mesquita.

Na década de 1990 os atentados eram mais recorrentes. Desde que as operações antiterroristas russas começaram em 1993, apenas Moscou presenciou 32 ataques terroristas, que resultaram na morte de 542 pessoas. A maioria dos que cometeram e planejaram esses ataques foram seguidores de grupos terroristas islâmicos.

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Depois que Ramzan Kadirov assumiu o poder na Tchetchênia, os movimentos separatistas foram suprimidos, e o número de ataques diminuiu – até chegar finalmente a zero em 2012. A última bomba foi detonada em Moscou em 24 de janeiro de 2011, no aeroporto de Domodêdovo, matando 37 pessoas. Segundo os investigadores, membros do Emirado do Cáucaso, um grupo jihadista tchetcheno, seriam responsáveis pelo ataque. Depois disso, um período de calma se instalou, e assim permanece até hoje.

Agentes do FSB como imãs

O oficial aposentado do FSB Aleksandr Gusak conduziu uma unidade secreta antiterrorista no final dos anos 1990. Mantém contato com seus colegas de trabalho até hoje e acredita que a calmaria atual se deva sobretudo a dois fatores. “Ao trabalho duro do serviço de segurança, e ao fato de que a comunidade muçulmana da Rússia, ao contrário da Síria, Iraque ou Afeganistão, ser muito mais versada ​​em sua fé”, diz.

“Nossos muçulmanos são diferentes. Todos nós crescemos em um único país, a União Soviética. Os tártaros ou daguestaneses não podem sequer ser comparados a pessoas como os salafistas na Síria”, continua Gusak.

Ainda assim, a rede de inteligência do FSB cresceu consideravelmente nos últimos anos. “É por isso que as agências de inteligência soviéticas ficaram famosas por oficiais à paisana”, explica o ex-agente de inteligência.

Dois anos atrás, alguns muçulmanos se reuniram ao lado de uma mesquita na capital irritados com a prisão de um amigo suspeito de um crime. Eles então começaram a atacar um micro-ônibus da polícia gritando “Allahu Akbar!”. 

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“Nem mesmo o imã conseguia acalmá-los, e uma unidade da polícia de choque, a divisão chamada Omon, teve que entrar em ação. Os muçulmanos começaram então a chamar amigos e parentes e, como acontece com demasiada frequência, uma grande multidão se juntou em menos de uma hora”, lembra Gusak.

“A situação era muito tensa, e, se a Omon tivesse usado força, um tumulto maior poderia ter iniciado. Foi então que agentes infiltrados entraram em cena. Eles acalmaram a todos, a multidão se dispersou, e os oficiais da Omon conseguiram prender os instigadores. Alguns agentes do FSB até se converteram ao Islã para acompanhar potenciais ameaças de dentro da comunidade. E, claro, eles estão profundamente envolvidos com o clero.”

Apesar da tranquilidade atual, o ex-oficial acredita que a probabilidade de ataques terroristas continua alta. “Há várias informações sobre ameaças que não vêm à público justamente para evitar pânico. O fato, entretanto, é que se um grupo terrorista estiver determinado a cometer um ataque, ele sucederá, mais cedo ou mais tarde. E isso continuará sendo uma possibilidade até que consigamos superar os nossos principais problemas internos – suborno e corrupção.”

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No início de 2016, colegas de Gusak conseguiram impedir um ataque em Moscou quando se depararam com pó e peças de alumínio para produzir bombas caseiras em um prédio na periferia da cidade. “Eu estive dentro do prédio e vi que a maioria dos apartamentos eram alugados sem qualquer papelada. Havia até 15 migrantes em cada um deles. Ao tocar a campainha, as pessoas nem sequer respondiam; simplesmente passavam dinheiro por debaixo da porta. A polícia deu uma batida no local e ainda bem que conseguimos brecá-los a tempo. Mas poderia ter sido tarde demais.”

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