Pilotas vencem barreira do gênero

Quando Kátia está na cabine, foco e determinação transparecem em seu rosto.

Quando Kátia está na cabine, foco e determinação transparecem em seu rosto.

RBTH
Apesar de serem apenas 3% do total de pilotos no mundo e comporem porcentagem ainda menor na Rússia, cada vez mais mulheres estão atrás do manche.

Sentada atrás de um manche na cabine do piloto está uma garota tímida. Seu sorriso adolescente reluz com um aparelho ortodôntico. Pergunto se estamos pousando em uma floresta, e ela me responde que ali é Sheremetievo, um dos principais aeroportos de Moscou.

Nada do que se vê adiante, porém, é real, já que ela se encontra em um simulador que recria uma cabine e condições de voo com 99% de precisão. Nele, os pilotos podem escolher as condições de voo e uma paisagem na janela. Tudo parece tão real que, quando aterrissamos, a cabine nos joga para frente e a pista de pouso se aproxima tão rapidamente que as pessoas atrás do piloto se mostram nervosas.

Quem guia o manche, aos 25 anos de idade, é Ekaterina Telepun, uma das mais jovens pilotas da Aeroflot. Copilota de um Airbus A320, ela move rápida e habilmente os dedos entre os muitos botões e alavancas do painel de controle que regulam a trajetória, a velocidade de cruzeiro e a altitude.

Kátia, como a chamam os mais próximos, parece tão jovem e meiga que relembra uma caloura da academia militar em seu uniforme de pilota - ou a copilota Aleksandra, do filme “Voo de emergência” (em russo, “Ekipaj”). No blockbuster russo de 2016, a heroína enfrenta o preconceito masculino na profissão.

“Só é assim nos filmes, na vida real é completamente diferente”, garante Kátia.

Ela diz que evita filmes em que aviões estão à beira da destruição e algum ex-agente secreto salva todo mundo.

“Mas quando eu estudava na academia sempre assistia a ‘Air crash investigations’. Foi muito útil para os meus estudos. É interessante observar os erros dos outros”, diz.

Nunca duas

Kátia vem fazendo uma média de 20 voos por mês há dois anos. Todos os pilotos, independentemente de seu nível de experiência, usam o simulador a cada seis meses para atualizar suas habilidades. Isso ajuda a lapidar sua destreza em caso de emergência, quando a aeronave se encontra em situações extremas.

“Eu vivia em Kiev quando ingressei na academia, logo depois da escola. Eu era a única garota na minha sala. Aliás, nunca ouvi falar de uma sala com cinco ou seis garotas estudando pilotagem ao mesmo tempo na Ucrânia ou na Rússia. Por quê? Porque elas não querem, acho. Ou então, elas pensam que é impossível. Sempre me perguntam: ‘Por que isso acontece na Rússia?’. Mas não há impedimentos, nunca sofri preconceito. A única coisa de que se precisa é ter boa saúde”, afirma.  

E ela tem razão. Apenas o teste psicológico para ingressar tem 360 questões, e uma comissão médica testa os candidatos e candidatas até para epilepsia.

“Tive que sentar no braço de uma poltrona em uma sala escura. Aí acenderam as luzes e elas começaram a piscar intensamente. Você tem que olhar fixamente e não pode fechar os olhos”, conta.

Quando Kátia está no simulador de voo, sua aparência tímida some e ela demonstra foco e determinação intensa.

Ela conta que pouco mais de vinte mulheres pilotam na companhia, que tem um total de 2.353 pilotos. Cinco dessas são capitãs, mas Kátia não as conhece pessoalmente. Às vezes seus caminhos cruzam durante instruções de voo.

“A companhia nunca coloca duas mulheres pilotas em uma só tripulação. Isso é feito, ao que parece, por motivos de compatibilidade... Não sei explicar bem, só sei que é assim. Na União Soviética, porém, podiam-se encontrar duas mulheres na mesma tripulação. Vi uma fotografia certa vez em que só havia mulheres”, diz.

As aeromoças contam a Kátia que alguns passageiros fazem um silêncio mortal quando a ouvem falar no rádio para anunciar que é a pilota. Mas ninguém nunca deixou o avião por isso.

Sempre à prova

A pilota Tatiana Bitiuguina, 22, teve uma experiência mais dura como pilota. Proveniente de Iekaterimburgo, na Rússia central, ela é pilota de helicóptero, campo que tende a ser mais impetuoso que a aviação civil.

Com apenas 22 anos de idade, Tatiana Bitiuguina comanda os voos de patrulha de um Mi-8 sobre campos de petróleo / Arquivo pessoalCom apenas 22 anos de idade, Tatiana Bitiuguina comanda os voos de patrulha de um Mi-8 sobre campos de petróleo / Arquivo pessoal

“Em geral, a atitude em relação a mulheres na aviação é mais negativa que positiva. A sociedade pensa de forma estereotipada e você não pode imaginar com quantos comentários desaprovadores, sexistas, preconceituosos e desagradáveis eu tive que lidar”, diz Tatiana.

“Eles não querem te contratar porque você é do sexo oposto. Alguns mostram sua insatisfação basicamente dizendo que não querem voar com uma ‘mina’. Sou feminista. Não dá para não ser trabalhando nesse campo”, completa.

Como Kátia, Tatiana também vem de uma família de pilotos, não queria se afundar em pilhas de papel e burocracia em algum escritório, e era a única garota na sala da academia. Ela treinou por seis meses em uma versão civil do helicóptero Mi-8, em uma aeronave confortável com sala de couro para passageiros VIP.

O trabalho não foi fácil, porém. Ela estava constantemente em serviço, vivia em apartamentos pequenos com a tripulação e não tinha tempo para se divertir.

Hoje ela patrulha um campo de petróleo a uma altura de 50 a 100 metros de altura para verificar se não há acidentes, derramamentos de petróleo ou outros problemas. Isso tudo ainda a bordo de um Mi-8 modificado.

“É mais difícil trabalhar em helicópteros que em aviões bonitões, porque os helicópteros são barulhentos e tremem mais. Sempre cheira a gasolina, o trabalho é mais difícil e sujo, e os salários são mais baixos. Às vezes parece que o cheiro fica impregnado em você”, conta.

Para Tatiana, a profissão é ainda mais complicada para uma mulher. Em uma escala de 100 vezes mais que para um homem, diz. Isso porque a mulher tem que provar sempre que é tão boa quanto o homem e, enquanto os erros desse são perdoados, a mulher tem que ouvir piadas grosseiras caso se cometam qualquer engano.

“Mas cada vez mais mulheres entram na aviação. Elas veem mulheres pilotas e querem fazer igual. Uma vez, no aeroporto do Tiumen, uma aeromoça quis tirar uma foto comigo para mostrar para todo mundo que garotas também podem pilotar”, conta.

As mulheres compõem apenas 5% dos 55.000 pilotos nos EUA e Canadá, de acordo com a Air Line Pilots Association, a maior união do mundo de pilotos de linhas comerciais.

Ao redor do mundo, apenas 3% dos 130.000 pilotos são mulheres na atualidade, segundo a International Society of Women Airline Pilots.

Na Rússia, as porcentagens são ainda menores. A maior linha aérea do país, a Aeroflot, que detém quatro companhias aéreas, tem um total de pilotas de apenas 1% (de seus 2.353 pilotos). Outras linhas aéreas russas têm uma porcentagem ainda menor de mulheres nas cabines.

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