Jovem encontra algozes de bisavô durante repressões de Stálin

Coletivização, "Grande Expurgo", genocídios, limpezas étnicas e gulags levaram às mortes de milhões durante a era Stálin.

Coletivização, "Grande Expurgo", genocídios, limpezas étnicas e gulags levaram às mortes de milhões durante a era Stálin.

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Aos 34 anos, Denís Karagôdin buscou informações em arquivos soviéticos que os levaram à compilação de uma lista com dezenas de nomes dos algozes de seu bisavô - de Stálin ao motorista do NKVD. Caso ganhou grande repercussão no país, e agora Denís quer processar responsáveis.

"Pegamos eles todos! Todos!", escreveu há alguns meses na página dedicada a seu bisavô o morador de Tomsk Denís Karagôdin, de 34 anos. No post, o jovem informava ter conseguido receber do arquivo do FSB (órgão que substituiu a KGB), uma ata sobre o fuzilameno de 36 pessoas, entre as quais seu bisavô.

Mas o que chamou mais a atenção de Karagôdin foi que o documento continha "os nomes dos carrascos imediatos" de seu bisavô.

O camponês Stepan Karagôdin foi preso em Tomsk por funcionários do NKVD (o Ministério dos Negócios Internos da URSS), em 1937, durante o período do grande terror stalinista.

Stepan Karagôdin Foto: blog.stepanivanovichkaragodin.orgStepan Karagôdin Foto: blog.stepanivanovichkaragodin.org

Ele foi condenado ao fuzilamento pela então chamada "dobradinha" (a chefia do NKVD e o procurador da URSS) como agente e organizador do grupo de sabotagem espião do Japão.

Sua pena foi programada para execução em janeiro do ano seguinte. No final dos anos 1950, no período do degelo de Khruschov e da desestalinização, a figura de Stepan Karagôdin foi reabilitada.

Lista de carrascos

Denís Karagôdin começou a buscar os assassinos de seu bisavô ainda em 2012. Para tanto, pediu informações a diversos arquivos. No final das contas, compilou uma lista com dezenas de nomes.

Como "organizadores do assassinato" há funcionários de altos cargos hierárquicos do governo da URSS: Stálin, Môlotov, Vorochílov etc.

Mas a lista também tem pessoas de um nível bem diferente: o motorista da garagem do NKVD, por exemplo.

Karagôdin acredita que tenham responsabilidade pela morte de seu bisavô inclusive os datilógrafos que produziam documentos do NKVD.´

Alguns nomes, porém, trazem inscrições especiais, como resultado de suas investigações, e vêm em letras maiúsculas vermelhas: "CONFIRMADO! ALGOZ!"

Principal documento da pesquisa de Karagôdin é uma ata sobre a apresentação da sentença de fuzilamento pelo departamento municipal do NKVD em Tomsk. O jovem recebeu o documento neste mês de novembro apenas após requerê-lo, pela segunda vez, à administração do FSB na unidade federativa de Novossibirsk.

A ata foi assinada por três pessoas, todas indicadas por Karagôdin como algozes e executores indireto da sentença de fuzilamento.

A primeiro das três assinaturas é do auxiliar da chefia da prisão de Tomsk, Nikolai Ziriánov.

'Estendo a mão em reconciliação'

O anúncio sobre a pesquisa de Karagôdin foi amplamente difundido nas redes sociais. Tanto, que a neta de Ziriánov escreveu ao jovem.

"Já não durmo há alguns dias. Simpresmente não consigo. (...) Estou muito envergonhada por tudo, sinto-me fisicamente doente, simplesmente. E é amargo que eu não possa consertar nada, apenas me confessar parente de N.I. Ziriánov e relembrar seu bizavô na igreja", escreve a mulher em trecho que Karagôdin divulgou.

Ela também escreve que seu bisavô materno também morreu como resultado da repressão. "Em uma só família, há vítimas e algozes", lê-se em trecho da carta.

Em carta de resposta endereçada a "neta do algoz e assassino de Stepán Karagôdin", seu bisneto escreve: "Estendo a mão em reconciliação".

O jovem Karagôdin agora quer abrir queixas-crimes contra os assassinos de seu bisavô: 20 pessoas, que vão de Stálin ao motorista do NKVD, que figuraria como cúmplice.

"Esse grupo de pessoas em entendimento preliminar realizou assassinatos em massa", escreve Karagôdin.

Tarde demais?

A história de Karagôdin foi amplamente divulgada na Rússia, e muitos classificam sua pesquisa como um acontecimento simbólico.

"Ninguém, até agora, tinha tido a ideia de ir atrás do governo Stálin, com o código penal nas mãos, por meio de uma pesquisa particular sobre a morte de membros de sua família. O que esse jovem inteligente dos anos 2000 oferece como resposta à pergunta sobre 'o bom e o mal Stálin' é simbólico, e aumenta, em mim, a crença na humanidade", disse sobre o caso o comentarista da rádio "Kommersant FM", Stanisláv Kútcher.

Apesar disso, há quem acredite que a busca pelo destino do bisavô de Karagôdin tenha sido válida, mas não a compilação de uma lista de seus algozes.

Para publicitário Dmítri Olchánski, cujo bisavô também foi fuzilado nos anos de repressão "não é possível trazer ninguém de volta" e "não se pode mudar nada no passado".

"Não há nenhuma responsabilidade e penitência através das gerações. A penitência só pode ser feita por si próprio, e acho que está tarde para punir os assassinos do meu bisavô", diz. 

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