Tabu na União Soviética, HIV persiste como questão de saúde pública

Enfermeiras em centro soviético de testagem para HIV e Aids, em 1987

Enfermeiras em centro soviético de testagem para HIV e Aids, em 1987

Vladímir Velengurin/TASS
O vírus causador da Aids apareceu muito mais tarde na URSS e, por um tempo, era considerado uma infeção “ocidental”. Entenda como vírus ultrapassou Cortina de Ferro e por que hoje só cresce em incidência.

Atualmente, um a cada 50 moradores de Iekaterinburgo, uma das maiores cidades da Rússia, está infectado com o vírus HIV, segundo anunciou a primeira vice-diretora da secretaria local de saúde, Tatiana Savinova, em novembro de 2016.

A situação, porém, não é muito melhor em muitas outras partes do país.

Segundo o Centro Científico-metodológico para Profilaxia e Luta contra Aids, das mais de 900 mil pessoas com HIV em 2014 no país, 60% eram do sexo masculino.

O fator de risco predominante é o uso de drogas com instrumentos não esterilizados, seguido por relações sexuais entre heterossexuais. Menos de 2% das infecções por HIV no país estão relacionadas com relações sexuais entre homossexuais – indicador este que caiu drasticamente, de 55% para 7%, no período de 1995 e 1996.

A maioria dos soropositivos russos vivem na região de Irkutsk, onde a incidência é de quase 1.500 para cada 100 mil pessoas; os números mais baixos – apenas um caso a cada 500 – são registrados em Sevastopol e na região metropolitana de Moscou.

Estação móvel oferece testes rápidos de HIV em Iekaterinburgo Foto: Pável Lisitsin/RIA NôvostiEstação móvel oferece testes rápidos de HIV em Iekaterinburgo Foto: Pável Lisitsin/RIA Nôvosti

Paciente número um

Até meados da década de 1980, para as pessoas que viviam na URSS, o HIV era uma “doença que se espalhava no Ocidente entre prostitutas, sem-teto e homossexuais”.

Em 1986, o ministro da Saúde da República Russa disse, em um programa de TV, que “nos EUA, a Aids existe desde 1981, é uma doença ocidental. Não temos base para que esta infecção se espalhe, uma vez que na Rússia não há drogados e prostituição”. Dois anos depois, o professor Andrêi Kozlov registrou a primeira morte por Aids na URSS. Teria sido impossível, porém, fazer o diagnóstico mais cedo – a primeira triagem de soropositivos no regime soviético foi conduzida no verão de 1987.

O primeiro cidadão da URSS a contrair HIV era um jovem que havia trabalhado como tradutor de inglês em uma embaixada russa na África. Até o final daquele ano, entre as pessoas com quem tinha tido contato, 25 também portavam o vírus.

O blogueiro Anton Nôssik tem sua própria teoria sobre os acontecimentos. Ele afirma ter conhecido pessoalmente o primeiro portador soviético de HIV – um engenheiro homossexual com sobrenome Krassitchkov.

O governo soviético o enviara para a Tanzânia como parte de um projeto de construção industrial, e lá adquiriu o HIV por meio de relações sexuais. Em 1984 voltou a Moscou, mas só veio a sentir sintomas da infecção em 1985. Passou os anos seguintes no único hospital estatal especializado em Moscou e acabou morrendo.

Outro caso de infecção por HIV ocorreu em Odessa, no território da atual Ucrânia. Em 1988, um bebê foi diagnosticado postumamente com Aids, e descobriu-se que a mãe havia contraído a doença por meio de relações sexuais. Essa morte levou os médicos a examinar mais crianças pequenas para descartar a presença de HIV.

Surto em Kalmíkia

O episódio de Odessa foi seguido por um surto em Elista (a 1.100 km a sudeste de Moscou), capital da República Socialista Soviética Autônoma da Kalmíkia. Os primeiros portadores identificados na cidade foram uma doadora de sangue e seu filho pequeno, e a investigação provou que a criança fora infectada no hospital.

Após investigar o hospital infantil na república onde a criança morreu, verificou-se que, por negligência da equipe médica, que usava instrumentos não esterilizados, incluindo seringas e cateteres 75 crianças e 4 mulheres haviam sido infectadas.

Uma criança nasceu de uma mãe soropositiva, cujo marido tinha Aids. Ele tinha contraído o vírus quando trabalhou no Congo e matinha relações com mulheres locais.

O serviço de combate a epidemia de Kalmíkia realizou uma nova inspeção. Segundo testemunhas, os funcionários do hospital usavam seringas sem esterilizá-las, apenas trocando as agulhas. Seringas descartáveis não eram usadas em larga escala na época.

Algumas crianças foram levadas para Volgogrado, Stavropol e Rostov-no-Don, o que resultou em uma nova onda de infecções.

O ministro da Saúde soviético, Evguêni Tchazov, repreendeu os responsáveis ​​pelas infecções, mas nenhum dos médicos foi seriamente punido. Mesmo assim, as vítimas não desistiram. Em 2011, enfim, conseguiram reabrir o caso, porém, mais de metade das crianças infectadas em Elista já havia morrido.

O então ministro da Saúde e do Desenvolvimento Social russo, Vladímir Chovunov, que tinha sido ministro na Kalmíkia durante o surto, declarou que “44 pessoas das infectadas em 1988 recebem 22.844 rublos de assistência financeira, indexada anualmente conforme a inflação. Outras 16 recebem 600 rublos do governo da república para cuidar de seus filhos doentes. No ano passado o governo pagou 42 mil rublos para doze famílias que entraram crianças infectadas pelo HIV. Mas é preciso entender que o Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social só pode prestar assistência a crianças até 18 anos de idade, e não a seus pais”.

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