Exposição classificada como "propaganda à pedofilia" é fechada em Moscou

Homem visita exposição de Jock Sturges antes do fechamento em Moscou.

Homem visita exposição de Jock Sturges antes do fechamento em Moscou.

Andrei Makhonin / TASS
Trabalho do norte-americano Jock Sturges não gerou críticas até blogger denunciar fotos que encontrou na internet - mas não estavam expostas na Rússia.

Nesse domingo (25), uma exposição do fotógrafo norte-americano Jock Sturges foi fechada pela galeria privada "Centro Fotográfico Irmãos Lumière", em Moscou, onde estava abrigada, apenas duas semanas após a inauguração.

Famoso por seus nus artísticos, o trabalho do fotógrafo em Moscou gerou uma grande revolta nas redes sociais russas, ameaças, denúncias na procuradoria e até uma "parede humana" que se postou em frente à galeria para impedir os espectadores de visitarem a exposição.

A polêmica conduziu a uma discussão generalizada na sociedade russa sobre os limites da arte e deu continuidade às acusações contra a pudicícia do governo, iniciadas em meados de setembro com o bloqueio de sites pornográficos no país.

Fotógrafopolêmico

A exposição foi a primeira na Rússia realizada por Sturges, que registra, desde os anos 1970, apenas nudistas em comunidades na Califórnia, na França e na Irlanda.

Intitulada "Sem ambaraço", a exibição foi classificada pela censura como apropriada apenas para maiores de 18 anos, e foi inaugurada em 8 de setembro.

Não foi registrada grande insatisfação do público contra a exposição até o último sábado (24), quando a blogger Lena Miro postou críticas contra Sturges em sua página no Live Jounal.

"Estou estupefata! Trouxeram a Moscou o trabalho do inspirador de ideias de todos os pedófilos, Jock Sturges. [...] Onde estão os órgãos de cumprimento da lei? Por que expõem em Moscou os trabalhos de quem fotografa pequenas meninas nuas em poses sensuais e provocantes?", escreveu Miro.

A blogger, porém, se referia a imagens feitas por Sturges que encontrou na internet e que não faziam parte do trabalho exposto em Moscou.

A senadora Elena Mizúlina, conhecida como autora da lei anti-gay, tomou para si a responsabilidade pela denúncia, assim como a ombudsman para os direitos das crianças, Anna Kuznetsova.

Assim, as duas pediram que a procuradoria verificasse a exposição como potencial arma de propaganda da pedofilia.

"Acredito que os trabalhos com imagens de menininhas nuas apresentados na exposição não possam ser tratados como obras de arte", declarou Mizúlina.

Efeito dominó

Parte da sociedade civil também reagiu contra a exposição. Um grupo auto-intitulado "Oficiais da Rússia", que, de acordo com seu site, ocupa-se da reeducação popular para o patriotismo, postou-se diante da galeria no domingo (25), formando um cordão humano para impedir a entrada dos espectadores.

Apenas jornalistas e o chefe da comissão de segurança da Câmara Pública, Anton Tsvetkov, que resolveu "inspecionar" a exibição, tiveram sua passagem permitida pelos "Oficiais da Rússia".

Um ativista do movimento ortodoxo "Serb" conseguiu, porém, entrar disfarçado de jornalista e jogou uma garrafa com urina em uma obra de Sturges.

Ao sair da galeria, Tsvetkov ainda conseguiu declarar seu veredito: 15% dos trabalhos "são provocações ou alguma pedofilia".

Ele ainda disse que os "Oficiais da Rússia" que bloqueiam a exposição são uma "profilaxia contra infrações". "Serão 30 dias enquanto a polícia analisa o caso e elabora uma resposta formal. Enquanto isso, continua a ser realizada a infração da lei", diz Tsvetkov.

Com a continuidade do cordão humano, a galeria fechou a exposição, emitindo um comunicado em que declara que essa tem caráter legal. "Mas vivemos na Rússia, onde, além da lei, há a opinião popular", lê-se no documento.  

"Entusiasmo uniformizado"

No Facebook, a diretora da galeria e curadora da exposição, Natália Litvinskaia, foi mais franca.

"Aconteceu hoje no Centro Fotográfico Irmãos Lumière um momento de fama. Nosso projeto de Jock Sturges caiu sob o ataque da insensatez. Trouxemos esse artista a uma sociedade aberta e democrática, provando e mostrando à sociedade artística internacional que nosso país está pronto à adequação. Então, vai, não nos enterremos mais uma vez!", escreveu Litvinskaia, acrescentando que todas as modelos apresentadas na exibição russa são mulheres adultas e maiores de idade.

Jock Sturges, por sua vez, incentivou o debate sobre as medidas da arte e a assexualidade das modelos fotografadas.

Mas os que ficaram a favor do artista estão preocupados com o possível fechamento da exibição pelos órgãos de cumprimento da lei, e não apenas como medida de autodefesa da galeria.

"Na história atual com a exposição, todos viram o que aconteceu: ela foi fechada não pela procuradoria ou pelo regulador russo Roskomnadzor, mas por entusiastas uniformizados", escreveu o político oposicionista e ex-deputado da Duma de Estado (câmara dos deputados na Rússia) Dmítri Gudkov.

Já Sturges disse ao canal russo Ren-TV estar "entristecido" com a situação.

"Essas fotos foram publicadas no mundo inteiro. E galerias e museus de todo o mundo não viram pornografia nelas. Simplesmente porque não há", disse.

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