Hashtag de abuso sexual viraliza entre mulheres russas e ucranianas

Descrédito e vergonha são reações comuns após casos de violência

Descrédito e vergonha são reações comuns após casos de violência

Vostock-Photo
Com confissões e denúncias, #EuNãoTenhoMedoDeDizer tomou as redes sociais e tem sido vista como uma das mais importantes campanhas on-line sobre o tema.

A jornalista ucraniana Anastassia Melnitchenko publicou, nesta semana, em sua página do Facebook um convite a mulheres para falar sobre violência sexual. “Eu quero que nós, mulheres, conversemos hoje. Que a gente fale sobre a violência que a maioria de nós já sofreu [...] Nós não somos culpadas; a culpa sempre recai sobre o estuprador. Eu não tenho medo de dizer isso”, escreveu.

Em seguida, Melnitchenko compartilhou sua história de abuso sexual, ocorrida quando tinha seis anos, incitando as demais a fazer o mesmo com o uso da hashtag ‪#‎яНеБоюсьСказати (#EuNãoTenhoMedoDeDizer). A confissão foi acompanhada de um enxurrada de mensagens. Centenas de mulheres ucranianas, muitos delas pela primeira vez, confessaram publicamente que havia acontecido com elas, e, desse modo, deram início ao movimento semelhante no segmento russo do Facebook, sob a hashtag #яНеБоюсьСказать.

Desde então, a campanha com a hashtag foi descrita por ativistas e meios de comunicação como uma das mais importantes iniciativas on-line na Rússia contra o abuso sexual. Alguns usuários das redes sociais também se mostraram abalados por uma série de confissões de pessoas próximas com quem jamais haviam imaginado essa situação.

“Uma hora você está conversando com uma amiga, tomando café, tudo está okay”, escreveu um homem não identificado no Facebook. “Aí você chega em casa – e lá está sua amiga com a hashtag #EuNãoTenhoMedoDeDizer e, ao que parece, isso está muito mais perto do que se pensava anteriormente.”

Segundo Maria Mokhova, diretora da Sisters, um centro de apoio às vítimas de violência sexual, a questão ainda não encontrou ampla discussão na sociedade russa, porque ele é vista como “inadequada”.

“As pessoas têm medo de falar sobre isso, porque está conectado com a esfera íntima da vida. Também ainda há muitos países onde as sobreviventes são consideradas ‘perdidas’”, disse Mokhova à Gazeta Russa. “Havia também muito preconceito na URSS. As pessoas costumavam esconder e, se fosse possível esconder, viviam com essa dor interna.”

A especialista acredita que, caso a ampla discussão se desenvolva, isso poderia afetar a situação, inclusive em termos de garantias sociais. “Mas tenho sérias dúvidas, porque o Parlamento está de férias, todo mundo está aproveitando o verão”, disse. “Na hora que voltarem, haverá eleições, e essa questão será novamente colocado em segundo plano.”

“Guardei isso por tanto tempo”

“Quando eu tinha 19 anos, fui estuprada por um amigo da família do meu amigo”, escreveu em, seu perfil do Facebook, uma mulher identificada como Iúlia Lapitskii. “Não consigo falar sobre os detalhes, mas nunca vou esquecer seu rosto em cima de mim. [...]Estou muito orgulhosa de todas que estão falando sobre isso agora. Tenho orgulho de mim mesma. Guardei isso por tanto tempo.”

Entre os relatos havia também o de Aliona Vladimirskaya, fundadora da agência de recrutamento Pruffi. “Era verão, no meio de um dia brilhante. Eu estava grávida e caminhando da loja para casa. Estava me sentindo mal. Eu estava doente. E aparentava. Um homem entrou no edifício depois de mim. Sabe, eu nunca pensei que deveria tomar cuidado com homens jovens enquanto estava nesse estado”, disse, antes de completar: “Na escada, ele me empurrou contra a parede, tirou uma grande faca de cozinha, apontou-a para o meu estômago e me disse para me despir. Eu estava com muito medo de perder o meu filho.”

As histórias de agressores retratam professores, amigos dos pais, treinadores, amigos e colegas. Mas nem todos relatos terminam em violência física – alguns deixaram apenas sustos, ou também marcas, na história de vida dessas mulheres. São também comuns os casos de mulheres que tentaram contar a pessoas próximas, mas foram desacreditadas.

“Fui acusada de mentiras”, lê-se em uma das publicações, enquanto outra vítima de agressão recorda que seus “pais empurraram minha história para um lugar bem distante, o mais obscuro da memória, e nunca, nunca relembram o episódio.”

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