São Petersburgo, a capital das ‘kommunalkas’

Cozinha e banheiros compartilhados são inconvenientes de  ‘kommunalkas’

Cozinha e banheiros compartilhados são inconvenientes de ‘kommunalkas’

PhotoXPress
Com mais de 8.000 quartos alugados em apartamentos comunais, São Petersburgo é a capital das ‘kommunalkas’. Nelas, até vinte pessoas vivem em famílias dividindo banheiro e cozinha. Uma das formas mais econômicas de se viver na cidade não é a mais confortável.

Na escuridão de um corredor longo e estreito, eu procuro por uma porta, mas, em vez dela, me deparo com um armário enorme. Meu objetivo é encontrar um dos dez quartos de um apartamento compartilhado onde vive Vassia Paskatchev, 27, com sua mulher, Alina Belíkina, 26. Ao meu lado está a entrada para a grande cozinha comunitária onde várias famílias preparam a comida e lavam pratos de cada vez.

“Nosso vizinho, Petia, já está aqui há 30 anos e diz que está acostumado e que gosta de viver assim”, diz Vassia, que trabalha como arquiteto e vive em um edifício antigo no na Rijski Prospekt, em São Petersburgo. “Há muita gente para conversar. Embora Petia raramente esteja sóbrio”, conta, sorrindo.

“Para os recém-casados, um apartamento compartilhado é um ponto de trânsito entre uma residência estudantil e o apartamento próprio”, descreve. O casal chegou da Carélia, no nororeste da Rússia, para estudar, mas resolveu permanecer em São Petersburgo. “Um quarto custa muito menos do que um apartamento inteiro e podemos nos dar ao luxo de viver no centro da cidade, mesmo com aluguel baixo.”

A restrição de privacidade em apartamento compartilhados é, segundo o casal, uma das principais desvantagens do apartamento compartilhado, além de incidentes curiosos envolvendo com os inquilinos. “Um rapaz alugava um quarto no final do corredor. Há alguns dias, foi embora e deixou uma ponta de cigarro que quase incendiou o apartamento inteiro. Tivemos que arrombar a porta e apagar o fogo.”

Foto: Anastasia SemenovichCasal economiza vivendo em apartamento comunal para comprar casa própria Foto: Anastasia Semenovitch

Também é preciso aprender a fazer concessões. “Por exemplo, não temos despensa, porque, embora pertencessem ao nosso espaço, deixamos para os idosos que moram no apartamento”, conta Alina. O casal diz preferir, no entanto, economizar dinheiro para comprar o próprio apartamento.

Questões de escolha

Atualmente vivem quase 260 mil famílias vivendo em apartamentos comunais em São Petersburgo, segundo dados do departamento de habitação da cidade.

Um programa de reassentamento entrou em vigor em 2008, quando a cidade tinha cerca de 116.650 apartamentos comunais. Qualquer proprietário de uma parte do apartamento compartilhado pode aplicar para o programa, mesmo que o resto dos moradores não tenham interesse em participar do processo.

Os inquilinos, por sua vez, não têm o direito de se envolver na tomada de decisões, mas recebem uma ajuda do governo. Cerca de 4.645 famílias foram beneficiadas nos primeiros cinco meses de 2016.

“Muitos proprietários alugam vários quartos e, assim, têm rendimentos estáveis – não vejo por que vale a pena receber alguma compensação única do governo”, diz Vassia.

A mesma opinião é compartilhada pela moradora de outro apartamento, localizado na Lígovki Prospekt, perto da estação de trem Moskovski, uma região que, apesar de pouco segura, é repleta de pequenos bares e cafés.

O apartamento fica no último andar de um antigo edifício; quando a porta se abre, surge Nástia Sókolova, 31, que vive em um apartamento com 14 quartos. O seu, alugado por 15 mil rublos (o equivalente R$790), possui 20 metros quadrados e duas janelas. 

Foto: Anastasia SemenovichFalta de luz e condições precárias são compensadas por localização, segundo Sókolova Foto: Anastassia Semenovitch

“Não há água quente. Temos que lavar a louça com água fria e a proprietária colocou caldeiras no banheiro. Também não há luz suficiente, sou pintora e preciso de mais luz para o meu trabalho”, conta.

Sókolova decidiu se mudar para esse quarto porque queria permanecer no centro da cidade, embora tenha percebido que em áreas mais distantes poderia alugar até um pequeno estúdio. E muitos de seus vizinhos são como ela, jovens profissionais oriundos de outras regiões do país. “Todos tentam se ajudar, sem causar conflitos. Muitas vezes, nem mesmo fechamos as portas à noite.”

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