Com aprovação de 54%, Stálin vira tema de campanha

Cerimônia em homenagem a Stálin, na Praça Vermelha

Cerimônia em homenagem a Stálin, na Praça Vermelha

EPA
Levantamento recente revelou que mais de metade dos russos apoiam atuação de ex-líder soviético, mas não viveriam na época. Imagem de Stálin será usada para atrair votos ao Partido Comunista na próxima campanha eleitoral de deputados.

Quando Iossif Stálin, um dos líderes mais controversos na história da URSS e da Rússia em geral, morreu em 1953, o povo soviético o via como um deus. Graças à propaganda soviética, todos adoravam Stálin: monumentos foram erguidos ainda em vida, havia canções sobre ele e várias cidades foram nomeadas em sua homenagem.

Após sua morte, o culto da personalidade se esvaiu rapidamente. O então novo líder, Nikita Khruschov, condenou as repressões stalinistas, que causaram a morte de milhões de pessoas inocentes, e iniciou um processo de ‘desestalinização’: começaram a ser retirados os monumentos a ele e os políticos evitavam seu nome.

Já durante a perestroika e após a queda da URSS, o silêncio foi substituído pela crítica. “A culpa de Stálin frente ao partido e ao povo por permitir a repressão massiva e a ausência de leis é enorme e imperdoável”, declarou o último presidente do regime soviético, Mikhail Gorbatchov, em um relatório datado de 1987.

A partir de então, os líderes pós-soviéticos condenaram repetidamente os crimes cometidos durante o período stalinista.

Desestalinização às avessas

Paralelamente à tendência registrada na política também percebe-se que novos monumentos a Stálin, ainda que pequenos, continuam a ser construídos na Rússia.

Em algumas cidades, desde 2012, retratos de Stálin são colocados em ônibus, os chamados ‘stalinobuses’, para celebrar do Dia da Vitória sobre os nazistas.

Um centro dedicado ao ex-líder soviético, análogo ao Centro-Iéltsin em Iekaterinburgo, foi recentemente aberto em Penza, a 640 quilômetros a sudeste de Moscou, com a proclamação de 2016 como o Ano de Stálin.

As iniciativas têm encontrado espaço na sociedade, segundo uma pesquisa realizada pelo instituto independente Centro Levada, em março de 2016: atualmente 54% dos russos acreditam que Stálin tenha desempenhado um papel positivo na história russa.

Trata-se do índice de aprovação mais alto desde que a pesquisa foi realizada pela primeira vez, em 2003. O número de russos que avaliavam de maneira positiva o governo de Stálin era menor até 2008 (39%), mas começou a crescer desde então.

A proporção dos russos que acreditam que as repressões stalinistas foram uma “necessidade política” também é maior do que antes: 26% dos entrevistados.

Segundo Aleksêi Makárkin, vice-presidente do Centro para Tecnologias Políticas, a ‘desestalinização’ não funcionou porque o regime capitalismo instaurado na década de 1990 está associado a inúmeras falhas e infortúnios.

“Durante a perestroika Stálin foi duramente criticado e seus crimes viram à tona, isso causou grande comoção. Agora, a perestroika é percebida como uma época de erros e falhas, e as pessoas aplicam a lógica ao contrário: ‘como a perestroika critica Stálin, devemos supor que ele era bom’”, disse o especialista à Gazeta Russa.

Segundo Makárkin, a principal razão para a popularidade de Stálin é também a vitória na Segunda Guerra Mundial. “Stálin era o comandante supremo. Na sociedade russa o culto da vitória é muito forte, e no imaginário coletivo não se pode ignorar o papel desempenhado pelo homem que comandava o Exército”, explica.

Outros sucessos da era de Stálin também podem ser adicionados a essa lista, acredita Makárkin. “Na consciência dos stalinistas foi ele quem promoveu a industrialização do país, construiu fábricas e anexou novos territórios”, afirma.

“Atualmente, na Rússia, prevalece a abordagem pragmática para a história, e não moral. Se é capaz de aumentar o país, você é um líder bem-sucedido”, arremata.

Protesto simbólico

De acordo com o analista político e professor do Instituto de Relações Internacionais de Moscou, Valéri Solovei, ao afirmar que sentem simpatia por Stálin, as pessoas não querem dizer que gostariam de ter vivido em seu tempo. “Todo mundo quer Stálin para o outro, mas não para si mesmo”, diz o observador.

As estatísticas confirmam as palavras de Solovei. O recente levantamento do Centro Levada, por exemplo, mostra que, apesar do grande número de simpatizantes por Stálin, apenas 23% dos russos gostariam de viver e trabalhar sob o seu regime.

“A imagem de Stálin é de um líder modesto que se veste com um casaco simples. Em um momento em que as elites parecem se corromper, muitos veem o líder soviético como um modelo de honestidade”, aponta Makárkin.

A mesma opinião é exposta por Solovei. “A expressão de amor por Stálin é um protesto simbólico, um desejo de recuperar uma mão firme para restaurar a ordem.”

Promessa nas eleições

As próximas eleições para a Duma de Estado (câmara baixa do Parlamento russo) serão realizadas em setembro de 2016, e os representantes do Partido Comunista, o segundo maior no Parlamento atualmente, já declararam que pretendem usar a imagem de Stálin em sua campanha para “atrair um maior número de votos”.

Os planos, definidos por especialistas como uma “boa estratégia”, pretendem angariar apoio de pessoas nostálgicas em relação à URSS. “O eleitorado do Partido Comunista tem uma opinião favorável sobre Stálin”, diz Makárkin, antes de acrescentar que “isso poderá ter algum efeito sobre eles e mobilizá-los”.

A intenção dos comunistas causou grande indignação nos setores mais liberais da sociedade russa, para quem Stálin é o arquiteto das repressões que mataram, segundo a ONG de defesa dos direitos humanos Memorial, entre 11 e 39 milhões de pessoas.

A diferença entre as estimativas é, segundo os historiadores, grande porque não está determinado quem deve ser considerado como reprimido. A ampla interpretação inclui não apenas mortos e presos, mas também deportados, condenados ao trabalho obrigatório e vítimas da fome de 1932 e 1933. 

O historiador Víktor Zemskov, por exemplo, aponta que, segundo os dados da polícia secreta soviética, durante o governo de Stálin, cerca de 800 mil pessoas teriam sido condenadas à morte.

“Mesmo assim, o escândalo irá só beneficiar os comunistas”, dispara Solovei. “Stálin irá angariar votos, simpatia e visibilidade. E aqueles contrários a ele não votariam para o Partido Comunista, assim, a sigla não está perdendo nenhum voto.”

O maior obstáculo para os comunistas pode ser, entretanto, um projeto de lei proposto por deputados do Partido Democrata-Liberal que proíbe, durante a campanha eleitoral, a utilização da imagem de pessoas mortas. Segundo os autores, a iniciativa não tem relação direta com os planos do Partido Comunista, mas, se for aprovada, a sigla terá que inventar um novo slogan para a campanha deste ano.

*Texto atualizado e corrigido em 8 de junho de 2016.

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