Líder tchetcheno publica relatório da oposição contra si próprio

Líder tchetchno estaria usando relatório contra si para aumentar número de citações na imprensa, segundo especialistas.

Líder tchetchno estaria usando relatório contra si para aumentar número de citações na imprensa, segundo especialistas.

Michael Klimentyev/RIA Novosti
Documento divulgado por Kadirov o acusa de não seguir leis russas e ser ameaça à segurança nacional. Para analistas, ação indica que tchetcheno iniciou campanha eleitoral.

O chefe da república russa da Tchetchênia, Ramzan Kadirov,  publicou, na última terça-feira (23), em sua página da rede social VKontakte, um relatório da oposição intitulado "Ameaça à segurança nacional".

A ameaça é ele mesmo, Kadirov. Pelo menos é o que afirma o autor do relatório, o opositor e vice-presidente do "Partido da Liberdade do Povo" (Parnas), Iliá Iáshin.

O documento afirma que Kadirov teria criado um Estado semi-islâmico dentro da Rússia, ignorando as leis do país com suas estruturas de forças e política externa independente do Kremlin.

"Os autores [do relatório] pretendem apresentar aos jornalistas em Moscou esse material de maneira sensacionalista. E nós o publicamos para que todos os que quiserem possam conhecê-lo sem esperar por essa coletiva", escreveu Kadirov, acrescentando que ali não há "nada além de boatos".

Para Iáshkin, não há sensacionalismo no documento, apenas "uma análise do regime". Ele finalizou a coletiva exigindo a deposição do líder tchetcheno. "Caso contrário haverá uma terceira guerra da Tchetchênia", disse.

Há apenas um mês, Kadirov publicou um artigo em um jornal federal no qual clamou que "não se poupe" a oposição e os inimigos de Pútin, chamando-os de "cães" e "inimigos do povo".

Em seguida, ele colocou um vídeo nas redes sociais que retratava o líder do partido Parnas, Mikhail Kassianov, sob uma mira ótica de arma.

Hora da campanha

O mandato de Kadirov termina em abril deste ano, e ele mesmo coloca em dúvida sua posição. "Os tempos são outros, do ponto de vista social e econômico. Temos pessoas mais profissionais na equipe", disse o político.

Mas, segundo o presidente do Insituto de Estratégias Nacionais, Mikhail Rémizov, o comportamento do político vai na contramão de sua fala.

Após declarações cortantes contra a oposição, Kadirov organizou protestos reunindo milhares de pessoas contra os "inimigos da Rússia". Já seu flashmob "Kadirov, patriota da Rússia", para combater uma suposta campanha midiática contra o líder tchetcheno, contou com a presença de cantores famosos e deputados do partido governante, o "Rússia Unida".

"Ele se posiciona como um dos pilares do regime, e o centro federal dirige esse apoio direta ou indiretamente a ele. Isso reduz o espaço de manobra entre os verdadeiros opositores de Ramzan Kadirov e a elite federal", diz Rémizov.

O relatório

Opposition party leader Ilya Yashin makes a report Chechen governor Ramzan Kadyrov photo information . Foto: EPALíder oposicionista Iliá Iáshin dá coletiva à imprensa para apresentar relatório contra Kadirov. Foto: EPA

O documento divulgado pelo Parnas trata de como, em seus nove anos no poder, Ramzan Kadirov teria instituído um regime de poder pessoal na república da Tchetchênia.

Ali, o Parlamento, os tribunais e a imprensa estão sob seu controle total e a lei muçulmana da sharia está acima das leis russas.

Kadirov também comanda um exército pessoal de 30 mil homens. Essas estruturas deviam estar sujeitas ao centro federal, mas são leais apenas ao líder da república, e seus núcleos são formados por ex-combatentes  administrados por Kadirov, segundo Iáshin.

De acordo com o autor, Kadirov também tem participação em uma série de assassinatos encomendados.

"Ele transformou a Tchetchênia em uma ilha que segue suas próprias regras, onde esconde gente acusada judicialmente que lhe é leal", escreve no relatório o ex-coronel do FSB e deputado da Duma de Estado Guennádi Gudkov.

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