Vida abaixo de zero também reserva suas delícias

Clima proporciona de pesca no gelo a situações inusitadas

Clima proporciona de pesca no gelo a situações inusitadas

Reuters
Jornalista da redação indiana da Gazeta Russa faz relato nostálgico dos anos em que viveu em uma das regiões mais inóspitas do mundo.

Apesar de soar como um seriado de ação, fugir de avalanches ou ficar preso em casa durante três dias seguidos são situações corriqueiras para os moradores do Extremo Oriente russo.

Quando se vive em um lugar cujo inverno dura seis meses - para os níveis de medição dos habitantes de áreas mais amenas da Terra, quem sabe, até nove -, os primeiros flocos de neve em pleno outono despertam uma melancolia irremediável.

Foto: Lori / Legion MediaTempestades de neve e vento são grandes dificuldades para motoristas Foto: Lori / Legion Media

É mais fácil sobreviver ao longo período de frio atroz e calçadas escorregadias quando a neve passa a fazer parte da paisagem. Um manto branco cobre os bosques e as paisagens do Extremo Oriente russo, uma das regiões menos povoadas do mundo.

A beleza inspiradora da neve nas árvores - tanto as de folha perene, quanto as de folha caduca com seus galhos pelados - intensifica-se com os primeiros raios da aurora.

A white blanket engulfs the forests and the landscapes. Source: Lori images    Manto branco cobre bosques e paisagens do Extremo Oriente russo Foto: Lori images

Mas, por mais belo que o inverno seja, a dureza da natureza sobre o homem se revela justamente nessa estação. Violentas tempestades de neve e vento capazes de empurrar as crianças em direção oposta à pretendida são muito comuns aqui. Aliás, assisti uma vez a um vendaval que deslocava um micro-ônibus estacionado na rua e o arrastou até que se chocasse contra o muro de uma garagem. Por sorte, eu estava dentro de casa naquele momento.

Mas uma câmera digital com características especiais para invernos rigorosos que comprei sobreviveu por apenas duas horas na cidade de Khabárovsk, onde a temperatura chegou a -29ºC.

Homem x natureza

É realmente assombroso que a vida siga normalmente na região, apesar de as nevascas serem um fenômeno comum. Enquanto lá estive, a calefação central nunca parou de funcionar, o fornecimento de água (quente e fria) era contínuo, 24 horas por dia, assim como o de eletricidade. Os habitantes locais também se preparavam para chegar pontualmente ao trabalho, inclusive nas condições mais adversas.

Foto: ReutersApesar das adversidades no cotidiano, frio não altera rotina de moradores locais Foto: Reuters

Mas, naquele período, a natureza também conseguiu interromper as atividades desses persistentes humanos. O aeroporto de Iujno-Sakhalinsk, por exemplo, foi fechado uma vez porque havia tanta neve caindo que era impossível limpá-la.

Acostumado a casos de expiração de vistos entre os estrangeiros presos na região pelo mau tempo, o departamento de imigração tinha até autoridade para estendê-lo por motivos de “tempestade de gelo”.

As nevascas também afetam o tráfico das balsas que conectam a Rússia continental com a ilha de Sakhalina.

Yuzhno-Sakhalinsk in winter. Source: RIA NovostiInverno em Iujno-Sakhalinsk é tão rigoroso que até aeroporto já permaneceu fechado Foto: RIA Nôvosti

A temporada de pesca no gelo, muito comum ali, é aberta quando os blocos de gelo flutuante chegam ao sul e endurecem nas camadas superiores do mar de Okhotsk. E quando o gelo marinho se solta do litoral e fica à deriva, são de praxe as notícias sobre pescadores encalhados no mar.

Lembro-me de uma vez em que o Ministério para Situações de Emergência teve de resgatar mais de 600 pescadores que se deslocavam de forma rápida e desesperadora para o Japão sobre um gigantesco bloco de gelo solto.

Sem folga até março

De certa feita, em uma tarde de domingo, fui jantar na casa de um amigo. Mas não imaginava, então, que deveria ter levado minha escova de dentes: tive que passar os três dias seguintes enclausurado ali com ele e mais seis pessoas.

Yakutsk endures winter temperatures that average -40°C. Source: Lori/Legion MediaPovo de Iakutsk enfrenta temperaturas médias de -40°C no dia a dia Foto: Lori/Legion Media

A nevasca foi muito intensa e tanta neve se amontoou na porta de entrada que a bloqueou. Tivemos que esperar a polícia local vir nos resgatar e retirar a neve da entrada do edifício. Então, dizia-se que parte da população se deslocava através de túneis escavados na neve.

Ano Novo. E mais neve

Para alguns, a melhor parte do inverno é a celebração do Ano Novo. E os dez dias de férias que se seguem à data no país. É quando tudo fica fechado, de faculdades a bancos, escritórios privados e repartições públicas. Só continuam funcionando hospitais e serviços de emergência.

O Extremo Oriente russo permanece imerso em estado de semitorpor até março, quando a palavra “primavera” começa a ser proferida com esperança - ainda que não haja indícios perceptíveis da estação que, teoricamente, inicia-se.

O que alguns chamam de primavera ali poderia facilmente ser um inverno rigoroso em muitas partes do mundo. Vivi quatro invernos por lá, quando retornei à minha quente Índia. Mas, após sete anos, trocaria com prazer uma bela praia por uma escapada para o reino do gelo.

5 cidades campeãs de frio

Iakutsk. A cidade diamantífera tem cerca de 300 mil habitantes. Algumas de suas atrações são as casas sobre palafitas (devido ao solo congelado) e os mamutes dispostos em museus.

Norilsk é uma cidade fechada desde 2001 - só é possível adentrá-la com permissão do governo. É um dos povoados mais frios e desfavorecidos da Sibéria, em termos ambientais. Apesar disso, nascida da mineração metalúrgica nos anos 1920, tem hoje 175 mil habitantes.

Dikson é um dos assentamentos mais setentrionais do mundo e conta com ínfimos 670 habitantes. Foi batizada em homenagem ao pioneiro sueco do Ártico, Oscar Dickson.

Verkhoiansk tem população de cerca de 1.000 pessoas. Recebeu oficialmente o título de polo do frio no país - apesar da disputa acirrada com Oimiakon.

Dudinka, com 22 mil moradores, abriga o porto mais setentrional da Rússia, no rio Ienissei, de extrema importância para o escoamento da produção mineradora do país.

 

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