Número de soropositivos na Rússia dobrou em 10 anos

Situação no país é “epidêmica”, define diretora de agência responsável

Situação no país é “epidêmica”, define diretora de agência responsável

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Nesta terça-feira (1º), data em que é celebrado o Dia Mundial da Luta contra a Aids, médicos e entidades competentes fazem um balanço da situação no país. Saiba como vivem os quase 1 milhão de portadores de HIV no país.

O número de soropositivos na Rússia duplicou ao longo dos últimos dez anos e atingiu quase 987 mil pessoas, de acordo com os dados do Rospotrebnadzor (Serviço Federal de Supervisão da Proteção dos Direitos do Consumidor e Bem Estar Humano) referentes a 1º de novembro. O avanço do vírus foi qualificado como “epidêmico” pela agência.

“Temos de admitir que os altos índices de infecção por HIV no país pode ser descrito como epidemia. Cerca de 1% dos russos são soropositivos. A epidemia rompeu os limites tradicionais e está se espalhando pela população em geral”, disse Irina Tchkhindjeria, chefe de epidemiologia do Rospotrebnadzor em São Petersburgo, citada pela Interfax.

“As estatísticas mostram que 50 pessoas a cada 100 mil da população é soropositivo, e a situação é ainda mais grave nas regiões”, acrescentou Tchkhindjeria. Do total de portadores de HIV/Aids, 600 mil (60%) têm acompanhamento médico regular, e quase 220 mil recebem terapia antirretroviral.

De acordo com o Rospotrebnadzor, cerca de 50% dos russos soropositivos contraiu a doença pelo uso de drogas injetáveis, e 42%, por meio de relações heterossexuais. Quase 1% das mulheres grávidas no país estão infectadas com o HIV, o que tende a resultar em mais de 600 crianças com infecção congênita a cada ano, segundo relatório da Rospotrebnadzor.

Paralelamente, as despesas orçamentais para o combate ao HIV aumentaram mais de cinco vezes desde 2001, quando eram investidos US$ 47 milhões em prevenção e tratamento de soropositivos. Este ano, o montante disponibilizado pelo Ministério da Saúde russos para tais fins foi de US$ 258 milhões.

Prevenção e tratamento

A Rússia não conta, porém, com um programa nacional amplo e coeso para a prevenção e o combate do vírus HIV. Na maioria das vezes, os programas existentes são procurados por pessoas que já estão em clínicas de tratamento de toxicodependência.

Embora as organizações sem fins lucrativos mantenham sites sobre o HIV e sua prevenção, promovam palestras e campanhas publicitárias acerca do assunto, a não sistematização das ações diminui os impacto dos resultados obtidos.

Entre as iniciativas recentes da Duma (câmara dos deputados na Rússia), o parlamentar Magomed Selimkhanov apresentou um projeto de lei que, se aprovado, obrigaria os russos a fazer um teste de HIV antes do casamento. Na Tchetchênia, essa norma já vigora desde 2011.

Quando se fala em tratamento, o cenário é mais positivo, e são cada vez mais raros os relatos de pacientes não receberam o tratamento devido. Na Rússia, no entanto, a terapia antirretroviral só é concedida quando a contagem de linfócitos T CD4 é inferior a 350 células/mm3. No Brasil, assim como na União Europeia, o padrão é estabelecer tratamento se essa razão for inferior a 500 células/mm3.

Uma das promessas para o tratamento é a futura produção nacional de antirretrovirais pela estatal russa Rostec. Por enquanto, os medicamentos são adquiridos no exterior, sobretudo da China e da Índia, gerando um gasto de  US$ 258 milhões para o Ministério da Saúde em 2015.

Soropositivos na sociedade

Pela legislação russa, os soropositivos só não podem trabalhar em instituições hospitalares que lidem com Hiv/Aids, em laboratórios de sangue e em pesquisas relacionadas ao vírus.

Mas inúmeros casos são conhecidos de empresas que realizaram exames médicos, depois dos quais os funcionários infectados com HIV foram forçados a se demitir.

As regiões menos tolerantes no país são as também mais remotas, onde o acesso aos cuidados de saúde é reduzido, e as pessoas sofrem discriminação até mesmo em instituições médicas não especializadas.

Também continua em vigor uma norma legislativa que possibilita a deportação de estrangeiros com HIV. Para obter a residência temporária ou permanente, o cidadão estrangeiro tem que apresentar um atestado de que não é portador do vírus. A recusa da entrega desse atestado serve de fundamento para a recusa de emissão da autorização de residência temporária.

Em 2006, porém, o Tribunal Constitucional decidiu que a questão da deportação deve ser decidida caso a caso, tendo em conta o estado de saúda e as condições do indivíduo.

 

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