Sineiro de um dia para o outro, mas por toda a vida

Iliá toca sinos desde os 15 anos e hoje tenta passar experiência a aprendizes

Iliá toca sinos desde os 15 anos e hoje tenta passar experiência a aprendizes

Anton Churochkin
Ex-aprendiz que assumiu posto inesperadamente abre escola de antigo ofício. Profissão esquecida durante período soviético ganhou novos adeptos após adaptação de “Guerra e Paz” para as telonas.

Iliá Drozdíkhin nunca estudou música, mas teve a vida embalada por sinos. Desde os 15 anos de idade que sobe à torre para comandar verdadeiros concertos para toda a vizinhança durante as cerimonias religiosas na igreja.

“Desde criança que me interesso por sinos e, quando precisaram de um aprendiz na igreja, o padre permitiu que fosse eu. O sineiro de então me mostrou como se tocava e me disse que eu ficaria responsável por tocar o sino já no dia seguinte”, conta Iliá.

“Eu fiquei em choque, com muito medo, mas nenhum dos paroquianos notou a diferença no toque. E assim começou minha carreira como sineiro”, continua.

Apesar de tomar o posto repentinamente, Iliá levou sete anos apurando suas técnicas e conheceu monges de vários templos. Nesse período, percebeu também a necessidade de montar uma sala de aula para treinar sineiros e “não torturar os moradores de perto dos campanários”.

Habilidades atuais de Iliá como sineiro foram adquiridas ao longo de sete anos Foto: Anton Churochkin

“Esse trabalho raramente é pago. É geralmente feito por um dos ajudantes da cerimônia na igreja. Isso faz com que haja grande rotatividade e nem todos entendam de sinos”, diz.

No espaço onde são dadas as aulas existe um conjunto de sete sinos principais com os quais um sineiro tem que saber lidar. Os aprendizes, que hoje são maioria mulheres, fazem dois meses e depois vão praticar em suas próprias paróquias.

Na sala de aula de Iliá, aprendizes devem lidar com conjunto de sete sinos principais Foto: Anton Churochkin

Sineiros de Tolstói

Antigamente, na Rússia, os sinos eram fundidos de metal coletado pelas pessoas e tudo era mandado para a fornalha – até mesmo colheres e utensílios de metal.

De melhor qualidade, o metal produzido no final do século 19 resultavam em sinos melhores. Cada fábrica tinha seus próprios truques de moldes e detalhes, mas a composição era uma só: 80% de cobre e 20% de estanho.

Embora tivessem detalhes distintos, sinos produzidos na era pré-URSS tinham mesma composição Foto: Anton Churochkin

A função de sineiro, porém, quase desapareceu durante a União Soviética – as autoridades da época combatiam ativamente as religiões. Por incrível que pareça, o renascimento dos sinos nas igrejas se deu graças ao cinema, na década de 1960.

As filmagens do longa “Guerra e Paz”, baseado na obra homônima de Lev Tolstói e que ganhou o Oscar de 1969 como o melhor filme estrangeiro, exigiam a participação de um sineiro. As pessoas localizadas para o filme não só conheciam a arte, como fizeram a profissão renascer.

Para ser sineiro, é preciso...

- seguir a religião ortodoxa ou ao menos não pertence a qualquer outra religião; - ter senso de ritmo, compreender as noções rítmicas da música e conhecer as quatro chamadas canônicas: blagovest (badalada simples unissonora), perebor (toque encadeado do sino menor para o maior), perezvon (toque encadeado do sino maior para o menor) e trezvon (repique) - saber improvisar; - cuidar dos sinos. Usados de forma inadequada, podem quebrar. Quando isso ocorre, acabam sendo enviados para refundição, pois não é possível consertar um sino.

Cerimônias ortodoxas na Rússia são acompanhadas pelo toque dos sinos Foto: Anton Churochkin

 

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