O último voo

Parentes e amigos dos passageiros que estavam na tragédia prestam homenagem no aeroporto de São Petersburgo, onde o avião deveria ter aterrissado.

Parentes e amigos dos passageiros que estavam na tragédia prestam homenagem no aeroporto de São Petersburgo, onde o avião deveria ter aterrissado.

Anatôli Medved, Rossiyskaia Gazeta
O voo 9268, que caiu no Egito, levava 224 pessoas, entre elas 25 crianças. Eram casais celebrando o aniversário de namoro, tripulantes... Mas também houve quem fugisse à sina e deixasse de viajar na aeronave.

Na manhã daquele sábado, em São Petersburgo, o aeroporto Pulkovo começava a receber parentes e amigos dos passageiros. Na área de chegada, nem todos sabiam do ocorrido.

A tela de decolagens e aterrissagens cinza do hall mostrava apenas que o voo 9268 estava atrasado. Os entes das vítimas já informados se afastavam para chorar junto ao balcão de informações, inconsoláveis.

Meia hora após o horário em que o avião deveria aterrissar, o voo sumiu da tela. Os familiares continuaram a discar freneticamente para os celulares dos acidentados. A esperança de que alguém atendesse não havia se dissipado.

25 crianças

O Airbus A321 que caiu no final de semana no Egito levava 224 pessoas, entre eles 25 crianças. O voo fretado retornava de um resort egípcio em Sharm el-Sheikh, com destino a São Petersburgo, e era operado pela companhia Kogalimavia (conhecida como MetroJet).

Entre os 217 passageiros, havia cidadãos russos, ucranianos e bielorrussos que, pouco antes da tragédia, postavam nas redes sociais fotos de suas férias maravilhosas no paraíso egípcio.

"Urra! Vamos voar para onde é calor", "O voo está atrasado, mas meu pensamento já está lá", "Nunca pensei que o #Egito fosse provocar em mim tantas emoções positivas" foram algumas das mensagens que acompanhavam essas imagens.

'A passageira mais importante'

Antes de partir para o Egito, os pais da pequena Darina Grômova, de dez meses, fotografaram a menina mirando a pista de decolagem através da janela do aeroporto.

Darina Grômova, de dez meses, olha pela janela do aeroporto antes de viajar ao Egito. Foto: Arquivo pessoal

A mãe, Tatiana, publicou a imagem nas redes sociais com os dizeres: "A passageira mais importante".

Após o acidente, a foto tornou-se na Rússia um dos principais símbolos do acidente, compartilhada por quase um milhão de internautas.

Tatiana e Aleksêi se casaram em agosto de 2014. Em seu vídeo de casamento, os dois dançam uma valsa, enquanto a sogra de Tatiana enxuga as lágrimas de alegria.

No dia do acidente, Tatiana ainda postou uma mensagem de agradecimento a Aleksêi: "Obrigada a meu marido por este ano, pela nossa filha, pelo cuidado e amor".

De volta para casa

A numerosa família Chein também estava a bordo do voo 9268. Eles tiraram a última foto alguns minutos antes da decolagem para São Petersburgo, já dentro da aeronave: o casal Olga e Iúri e os filhos Guennádi, de 11 anos, Valéria, 10, e a pequena Anastassia, 3.

Anastassia Cheina no colo do pai, Iúri Chein, embarcando no voo que os levaria para casa. Foto: Arquivo pessoal

"Olá São Petersburgo, adeus Egito! Estamos indo para casa", escreveu Olga em uma rede social.

A viagem foi a primeira do casal ao exterior, em celebração ao aniversário de namoro e de casamento, ambos em outubro.

Previsão 

Embalada pelo hobby de quiromante nas horas vagas, a irmã de Olga Krilova leu sua mão, há seis meses, e viu que a linha da vida ocupava menos da metade da palma.

A irmã de Olga Krilova leu sua mão há seis meses e disse que a linha da vida era curta demais. Foto: Arquivo pessoal

No auge dos 30, Olga tinha uma vida muito ativa, cheia de viagens. Sequer tinha decolado para o Egito e já planejava a viagem seguinte, à China.

Olga riu e não acreditou na previsão da irmã. Estava acompanhada do marido, Mikhail, e da filha de 10 anos a bordo do voo da MetroJet.

A também balzaquiana Ekaterina Murachova, 32, ex-miss Pskov, deixou a filha Ksênia, 8, na Rússia. Viajou ao resort árabe acompanhada da mãe, para descansar, antes de celebrar o próprio aniversário.

Ekaterina Murachova, ex-miss Pskov, tinha viajado ao Egito com a mãe para descansar. Foto: Arquivo pessoal

"Ela me disse que voltaria no dia 1. Agora irei ao enterro dela", conta Ksênia. 

Mau pressentimento

Com a voz trêmula, Anna, mulher do comissário de bordo Stanislav Sviridov, fala em frente às câmeras. "Ele tentou se encontrar na terra, mas disse que não conseguia viver sem aviões, que amava o céu", conta.

Quando Anna lhe pediu para escrever uma mensagem quando chegasse, o comissário ainda brincou: "Você também é aeromoça, para que isso? Se acontecer algo ruim você verá na TV".

Segundo a mulher, Stanislav, que deixou dois filhos, andava agitado nas semanas anteriores ao acidente, como se o estivesse prevendo.

Outro comissário de bordo, porém, se deixou levar totalmente pelo mau pressentimento. Oleg Ermakov deveria compor a tripulação do voo 9268, mas o pai, que teve um pesadelo uma semana antes, advertiu: "Oleg, peça as contas".  

Dias antes da tragédia, Oleg colocou a carta de demissão na mesa do chefe. Queria falar aos amigos, mas não tinha nada mais que um sonho paterno para justificar o perigo iminente.

O silêncio incomum ainda toma o Pulkovo. A porta de entrada continua repleta de flores e doces - uma tradição russa para homenagear as crianças mortas.

 
 

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