“Problemas com migração somem à medida que surgem novas questões”

Kommersant
O centro de informação ‘Sova’ é uma das principais organizações sem fins lucrativos na Rússia que se ocupa da análise de relações interétnicas e nacionalismo. Em entrevista à Gazeta Russa, o diretor do centro, Aleksandr Verkhovski, fala sobre a atitude dos russos em relação a migrantes e por que o país vem presenciando queda no nível de xenofobia.

Um dos indicadores mais emblemáticos da atitude que se tem face aos imigrantes é o nível de xenofobia. Como a Rússia vem lidando com esse fenômeno?

A primeira onda de xenofobia surgiu no início dos anos 1990 e, é claro, foi desencadeada pelo choque resultante do colapso da União Soviética e suas consequências dramáticas. Depois, as coisas acalmaram, mas, com a escalada da segunda guerra da Tchetchênia, uma nova onda de xenofobia voltou a aparecer na virada do século. Na época, pelos motivos que conhecemos, os tchetchenos estavam particularmente no alvo da discriminação, mas a hostilidade acabou se espalhando a outros “não eslavos”. Entre os anos 2000 e 2012, o nível de xenofobia no país se manteve elevado: mais de metade dos cidadãos acreditava que a maioria étnica deveria ter privilégios. Aquela ideia de “Rússia para os russos”.

Um levantamento recente feita pelo instituto independente Centro Levada mostrou que o nível atual de xenofobia na sociedade russa é reduzido. Quais seriam as razões para isso?

Esse índice diminuiu ainda em 2014. Em alguns parâmetros, desceu a níveis inferiores aos de 2012. Uma das razões foram os acontecimentos relacionados com a Ucrânia. O tema da migração como ameaça foi substituído pela crise com os EUA e a União Europeia, e pela proteção à população russófona da Ucrânia. Ficou evidente que os problemas reais relacionados com a migração não estão tão enraizados na sociedade, uma vez que conseguem sair rapidamente da consciência coletiva à medida que vão surgindo outras questões.

Dois anos atrás, no bairro moscovita de Biriuliovo, ocorreram tumultos violentos de caráter étnico, e os confrontos quase se alastraram por toda a cidade. É possível que o mesmo cenário volte a acontecer hoje?

Bem, mesmo naquela época, não houve perigo de os tumultos se alastrarem. Para começar, esses acontecimentos só são possíveis em pequenos focos habitacionais, como é o caso da região de Biriuliovo – uma área pequena bastante isolada, como uma cidadezinha à parte. O ano de 2013 marcou o auge desses tumultos no país, mas, a partir do início de 2014, não houve mais ocorrência de nenhum caso. Volto a falar: isso se deve ao redirecionamento da agressão e da sensação de perigo vindo de outra direção.

Entre religião, cor da pele e herança cultural, o que mais desperta conflito étnico na Rússia?

Normalmente, não são questões de caráter econômico nem de segurança que predominam nessas situações, mas o chamado crime étnico, aquilo que classificamos como percepção negativa da distância cultural. Os “outros” fazem tudo “de forma diferente”. E o marcador da distância cultural é precisamente a aparência física. Todo o resto, incluindo a religião, são marcadores com menos força. A atitude negativa não necessariamente se traduz em agressão, ela pode ser latente ou se manifestar de maneira civilizada.

Existe a ideia de que na União Soviética a xenofobia era praticamente inexistente, e que uzbeques, tadjiques e azeris que agora vêm à Rússia como imigrantes viviam lado a lado com os russos, sem quaisquer conflitos, quando eram cidadãos soviéticos. Isso é verdade?

Certamente não foram feitas pesquisas sociológicas sobre esses temas na URSS. Mas eu nasci em 1962 e me lembro bem que havia xenofobia. Por exemplo, a palavra “georgiano” (“gruzin”) era usada praticamente como adjetivo, e as pessoas da Ásia Central eram xingadas do mesmo jeito que são agora. Nas zonas periféricas da União Soviética também aconteciam distúrbios. A diferença é que não podia existir nenhum movimento nacionalista organizado como o de hoje. O único consolo que temos agora é que as organizações nacionalistas, pelo menos as russas, não gozam do apoio das massas.

 

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