Voluntários se reúnem para resgatar igreja submersa

Igreja ortodoxa foi único elemento que restou de cidade inundada

Igreja ortodoxa foi único elemento que restou de cidade inundada

Arquivo pessoal
Rodeado de água há mais de 50 anos, templo do século 18 é um dos tantos abandonados durante a URSS.

Reza a lenda que a cidade russa de Kitej, na Rússia central, ficou debaixo das águas do lago Svetloiár. No século 20, havia centenas de cidades como essa, pois, após a Grande Guerra Patriótica, começou o processo de ampliação e aprofundamento artificial dos rios para a construção de usinas hidroelétricas.

Aldeias e povoados inteiros ficaram submersos, e milhares de  habitantes foram obrigados a abandonar suas casas.

Foi o que aconteceu também com Krokhino, na margem do rio Cheksná, na porção europeia do país. Durante séculos havia ali feiras, florescia tanto o comércio de peixe e cereais, como a construção de embarcações, e os sinos da Igreja Ortodoxa do Nascimento de Cristo atraíam diariamente a população local para cerimônias religiosas.


Templo foi transformado em oficina e até em galpão para secar cereais Foto: Arquivo pessoal

Com a instalação do poder soviético, a igreja não foi destruída, porém transformada em um clube rural, oficina e até mesmo em galpão para secar cereais.

Em 1964, durante a construção do Canal Volga-Báltico, o nível de água no rio Cheksná foi elevado, deixando o povoado submerso. Dali restou apenas a igreja em pedra branca, que se transformou em uma pequena ilha no meio das águas. Na época, o campanário foi aproveitado para servir de farol para barcos que passavam.

Pouco a pouco, a construção foi afundando no solo inundado, e as ondas desencadeadas por navios começaram a destruir as paredes do templo.

Lenda reanimada

Há seis anos, a moscovita Anor Tukáeva se aventurou até as margens da represa de Cheksná. Especialista em administração pública, Tukáeva decidiu ver com seus próprios olhos a lendária igreja, após assistir a um documentário sobre a construção do Canal Volga-Báltico.

“Quando cheguei a Krokhino, percebi que poderíamos facilmente perder de vez aquela obra arquitetônica indefesa”, recorda a moscovita.

Foi então que escreveu diversas cartas para entidades estatais, mas, sem obter sucesso, desenvolveu o projeto sem fins lucrativos “Krokhino”, em 2011, com a ajuda de um grupo de voluntários.

Primeiros passos

Atualmente, os turnos de voluntariado são organizados oito vezes por temporada, e reúnem entusiastas de 16 a 72 anos de idade.


Pessoas de idades variadas participam do projeto "Krokhino" Foto: Arquivo pessoal 

Os voluntários se levantam ao raiar do dia e, logo após o café da manhã, seguem para a ilha, onde não param de trabalhar até o pôr do sol.

“Recolhemos tijolos partidos para fortificar o dique. Os inteiros são separados e usados na recuperação da estrutura”, conta a voluntária e professora de alemão Iana Safrónova.

Por enquanto, os trabalhos, que contam com mão-de-obra voluntária e ajuda financeira mínima, apenas evitam que a estrutura do templo continue em processo de erosão pela água e pelo vento.


Voluntários colocaram faixas no local para chamar atenção à causa Foto: Arquivo pessoal

“Está chegando a hora de recorrermos a escritórios profissionais de engenharia”, diz Tukáeva, que vem apostando em ferramentas de financiamento coletivo na internet.

Na conta do projeto no Facebook foram lançados vários vídeos, com participação de conhecidos atores e apresentadores de televisão russos, em apoio da recuperação da igreja em Krokhino.

 

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