Muamba através dos séculos

Foto: Iuri Abramotchkin/ RIA Nóvosti

Foto: Iuri Abramotchkin/ RIA Nóvosti

Se você acha que só brasileiro gosta de muamba, os arquivos e funcionários do serviço alfandegário da Rússia provam que o contrabando é parte da cultura local desde o império. Conheça algumas das tentativas mais incomuns.

Na época do Império Russo, os contrabandistas conseguiam atravessar a fronteira com perfume francês, seda, rendas, porcelana, especiarias e chá. Já durante o período da URSS, eles supriram o país, de forma ilegal, com meias-calças femininas, revistas estrangeiras, preservativos, canetas coloridas e discos de vinil.

Para fazer entrar as mercadorias proibidas eram –e são – empregados os mais variados métodos. “O contrabando é um ofício e possui seus próprios profissionais”, descreve Andrêi Fiódorov, vice-chefe do Departamento de Cooperação Aduaneira da Administração Alfandegária Noroeste, ao contar à Gazeta Russa sobre os casos mais inusitados.

Paris sobre rodas

Em 1831, um contrabando proveniente de Paris, no valor de quase 50 mil rublos – na época, um bom cavalo custava 200 rublos –, foi apreendido na fronteira noroeste da Rússia. Os boatos sobre a apreensão do lote de mercadorias chegaram até o Imperador Nikolai I.

Por causa do valor astronômico, o tsar resolveu inspecionar a carga pessoalmente: um rolo de tecido dourado estava sob o assento do cocheiro, e as rodas continham muitas joias. O fato impressionou tanto o  imperador que, desde então, ele começou a se interessar pela importação de bens e pela proteção das fronteiras.

“Manuais especiais, chamados ‘Coletâneas de artifícios e subterfúgios utilizados por contrabandistas’, eram distribuídos entre os funcionários aduaneiros. Esse material vinha com ilustrações, como, por exemplo, o desenho de pantalonas com bolsos para acobertar garrafas de álcool”, contou à Gazeta Russa a vice-diretora do Museu Central do Serviço Alfandegário da Rússia, Anna Nikolaeva.

Vira-lata, mas de pele de cordeiro

Na década de 1840, Vorontsov, governador-geral da Novorossia (costa norte dos mares Negro e de Azov, que na época fazia parte do Império Russo), apostou com um comerciante chamado Toporov que ele não conseguiria tirar de Odessa um contrabando no valor de 10 mil rublos. Só para se ter noção, um operário ganhava uns 60 rublos ao mês.

Se Toporov conseguisse, o governador havia prometido pagar a ele dez vezes mais – isto é, 100 mil rublos. De manhã, o comerciante chegou ao posto de controle de fronteira. Ele foi revistado, a estrutura de sua carruagem foi aberta a machadadas e até o interior das orelhas dos cavalos foi inspecionado.

Os funcionários aduaneiros não conseguiram encontrar nada, e Toporov partiu. Mas antes chamou um poodle preto, que durante todo o tempo ficara se metendo debaixo dos pés das pessoas.

Soube-se depois que o poodle era um vira-lata cujo pelo tinha sido totalmente raspado. O animal estava envolvido com pedaços de tecido entre os quais havia diamantes. Por cima de tudo isso, o cãozinho vestia uma pele de cordeiro.

Novo regime, novas muambas

Após a guerra civil e a formação da URSS passaram a faltar os simples objetos de uso cotidiano. Botões, agulhas de costura, tecidos, fios, esponjas e pentes entravam no país por meio de contrabando.

Os esconderijos eram manjados: notas de dinheiro eram coladas sob as alças das malas, sacolas eram trançadas com elas. O álcool era transportado dentro de abóboras. Diamantes eram escondidos nos saltos dos sapatos e botões ou moedas de ouro costuradas dentro de peixes congelados.

Sogra na mala

Em dezembro de 1935, o diplomata japonês Koona Katsumi tentou tirar do país duas espiãs escondidas em malas. O trajeto passava pela estação fronteiriça Negoreloie, na antiga República Socialista Soviética da Bielorrússia.

Outra versão diz que as mulheres eram sua amante e a mãe dela.

Os guardas da fronteira foram informados com antecedência, mas era categoricamente proibido inspecionar a bagagem diplomática. Foi então adotada uma estratégia. As malas do adido caíram “acidentalmente” e, de forma imperceptível, foram espetadas por um espécie de agulha.

As próprias mulheres não aguentaram e acabaram se revelando.

Cigarro via drone

Em maio de 2014, perto do povoado Bolchoie Selo, a pouco mais de mil quilômetros de Moscou, os guardas da fronteira detiveram aeromodelistas que faziam contrabando. Um russo de 51 anos e um lituano de 31 criaram um avião com sucata.

O galão plástico de cinco litros com querosene de aviação funciona como tanque de combustível, a rodinha de um carrinho de bebê foi transformada em chassi. A estrutura era formada por madeira compensada e asas de fibra de vidro revestidas de isopor.

Os contrabandistas controlavam o drone a partir do solo por um transmissor de rádio. No momento da detenção eles estavam fixando a bordo 50 pacotes de cigarros baratos com a finalidade de transportá-los para a Lituânia.

 

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