‘Não há alternativa senão levar os direitos humanos em conta’

Aleksséieva: "Eu não sou política, não faço parte da oposição" Foto: Reuters

Aleksséieva: "Eu não sou política, não faço parte da oposição" Foto: Reuters

Ativista de longa data e presidente do Grupo Helsinque de Moscou, Liudmila Aleksséieva, de 87 anos, está retornando ao Conselho de Direitos Humanos (CDH), que deixou em 2012. Em entrevista à Gazeta Russa, Aleksêievna falou sobre a lei de “agentes estrangeiros”, o caso do líder oposicionista assassinado Boris Nemtsov e sua relação com os EUA, entre outros temas polêmicos.

Regresso ao CDH 

Qual será o seu papel no CDH? Sabe-se que a lei sobre agentes estrangeiros adotada em 2012 a deixa muito preocupada...

Sim, eu vou me ocupar disso. Essa lei é um equívoco total.

Por que?

Porque qualquer organização que receba dinheiro estrangeiro vira candidata a “agente”. Por mais que a gente tente esclarecer esse conceito, quem quiser pode enquadrar tudo e mais alguma coisa nele.

E o que a senhora sugere?

Se quisermos resolver esse problema será necessário trazer à tona a questão de fontes internas de financiamento. O Estado não pode garantir recursos a todas as ONGs. Isso é errado, nós não somos estatais, nós somos públicas, e somos milhares. O que falta é outra coisa: Pútin precisar recorrer ao empresariado. Há muitas pessoas ricas que ficariam felizes em financiar ONGs, mas temem que isso venha a prejudicar o seu negócio.

Assassinato de Nemtsov

A morte do oposicionista Boris Nemtsov já vem sendo investigada há três meses. A senhora duvidou desde o início que o mandante seria encontrado. A sua opinião mudou?

Bem, se até agora ainda não foram capazes de interrogar Ruslan Gueremêiev, que, ao que parece, foi o mediador entre os que executaram e os mandantes...

Alguns meios de comunicação garantem que Gueremêiev foi interrogado, mas na qualidade de testemunha, e só depois teria deixado a Rússia.

É evidente que se trata de um caso com muita coisa a esclarecer. A troca de investigador-chefe durante o processo é um sinal claro de que a investigação se limitará aos mandatários e não chegará ao mandante. O investigador anterior [Igor Krasnov] mostrou que conhecia seu trabalho e não prestava atenção a considerações políticas. Então, no lugar dele colocaram outro [Nikolai Tutevitch] que é mais obediente aos superiores. Eu considero isso um mau sinal.

O que a faz pensar que ele seja mais obediente?

O caso que ele investigou em 2008 não deu em nada. Já o anterior, sabe-se que é muito eficiente.

Tártaros na Crimeia

A senhora acompanha a situação dos tártaros da Crimeia desde o final dos anos 1960. Como analisa esse cenário hoje?

Por um lado, vejo que o presidente está cumprindo as promessas que fez ao [presidente do Majlis até o outono de 2013] Mustafá Djemilev, durante sua visita a Moscou. Pútin prometeu que a língua tártara da Crimeia teria amplo uso, que haveria escolas específicas para os tártaros da Crimeia etc. Isso está sendo cumprido.

Por outro lado, esse mesmo Djemilev não está conseguindo permissão para entrar na Crimeia vindo de Kiev. Também não consegue entrar na Crimeia o atual presidente do Mejlis [Refat Chubarov], que saiu por alguns dias. Em 18 de maio, data que marca a deportação dos tártaros da Crimeia [em 1944], eles costumavam se reunir na praça principal de Simferopol, era um evento enorme. Agora não têm permissão para fazer isso. Isso mostra que não existe liberdade de reunião para os tártaros da Crimeia.

Oposição

Em 2016 haverá eleições para a Duma (câmara dos deputados na Rússia) e a oposição informal já anunciou a sua participação. Essa oposição, por sinal, até já formou uma coalizão para isso. A senhora conhece muitas dessas pessoas. Como avalia a força delas?

Essa tentativa de união é um avanço enorme. Nunca tinha acontecido antes. Sempre se dizia que “a única coisa que eles sabem é promover uma luta de vaidades”. Não é bem assim. A questão não está na luta de vaidades, a questão está no fato de que não existe cultura política na nossa sociedade. Por razões óbvias, depois de tanto tempo sem poder lutar pelo país.

O que quer dizer por cultura política?

Um dos elementos importantes da cultura política é a capacidade de negociar e encontrar compromissos com pessoas que têm opiniões semelhantes. Mas com a gente costuma ser tudo ou nada.

Essa falta de cultura política é o principal problema da oposição?

Não, o principal problema é que a oposição se depara com uma realidade na qual simplesmente não tem condições de agir. Os seus líderes não têm horário disponível na TV. E a vida moderna está construída de tal forma que se uma pessoa não aparece na TV é como se ela não existisse. Ou, por exemplo, andam agora falando em antecipar a data das eleições da Duma para setembro [inicialmente marcadas para dezembro de 2016]. Claro que dá para entender porque querem mudar para setembro: porque aí toda a campanha pré-eleitoral vai ser feita no verão, quando as pessoas não estão aqui e a adesão será baixa.

A oposição é frequentemente acusada de não ter um líder nato. Aleksêi Naválni tem duas penas suspensas. Serguêi Udaltsov foi recentemente preso [por organizar protestos em massa em 2012]. Boris Nemtsov está morto. Quem mais poderia se tornar esse líder?

Eu não sou política, não faço parte da oposição. Tenho dificuldade em julgar isso. Mas aposso citar alguns nomes, como Vladímir Rijov, que trabalhou muito tempo na Duma e seria um excelente porta-voz. Ou [o copresidente do partido RPR-Parnas] Mikhail Kassianov, que foi o melhor dos ministros do tempo do Iéltsin e até mesmo de Pútin. Aleksêi Kúdrin...

E Mikhail Khodorkóvski?

É uma pessoa muito competente! Com certeza seria muito útil.

Mas o que ele está ele fazendo no exterior? Tem pessoas que o acusam de ter fugido.

Não, não é uma fuga. Pelo contrário, ele está ansioso para voltar. Afinal de contas, ele não foi embora por livre e espontânea vontade. Ele foi enviado para o exterior de um modo muito engenhoso, com a mensagem subliminar de “fique por lá”. Mas tenho certeza de que ele viria se fosse chamado para ajudar de alguma forma. Eu o conheço como pessoa.

Direitos Humanos e EUA

As organizações dos direitos humanos na Rússia são geralmente vistas como incapazes de afetar o processo de tomada de decisões, por exemplo, na Duma. A senhora concorda?

Infelizmente, o governo leva muito pouco em contra a opinião dos defensores dos direitos humanos. Mas as associações de direitos humanos surgiram no país em meados dos anos 1960 e existiram 25 anos ainda sob o domínio soviético. Nós temos experiência e muitos profissionais trabalhando conosco. Por isso eu não diria que nós não temos influência nenhuma. Eles não têm alternativa senão nos levar em conta. 

Há pouco tempo esteve com [a vice-secretária de Estado dos EUA] Victoria Nuland. Tem pessoas que interpretam essas reuniões de modo meio ambíguo e a veem como delatora da atividade dos nossos governantes. O que tem a dizer sobre isso?

Seja ao nosso repórter, ao repórter estrangeiro, ao governo ou à Sra. Nuland, eu digo a todos a mesma coisa: aquilo que penso. A defesa dos direitos humanos não tem fronteiras. Recebi um telefonema da embaixada [americana em Moscou] e me disseram que ela [Nuland] gostaria de se encontrar comigo. Para ser sincera, não sei por que ela veio. Eu respondi a algumas perguntas, mas não para que ela saia por aí nos defendendo. Nós sabemos lidar com os nossos problemas.

A senhora viveu por 16 anos nos EUA e tem cidadania norte-americana. Por que voltou para a Rússia?

Quando a Rússia ameaçou prender não só a mim, mas também o meu filho e marido, apesar de eles não serem de todo ativistas, tive que ir embora. Fui então para os Estados Unidos. Voltei no início dos anos 1990, quando muitos já tinham sido autorizados a regressar, mas eu ainda não – eu estava na lista negra da KGB. Não escondo que tenho cidadania norte-americana. Eu já não vou mais para os Estados Unidos, mas, naquela época, o país me tratou bem. Lá tive uma vida normal durante anos que teria passado na prisão aqui. Mas voltei porque a Rússia é o meu país, e é nele que eu quero viver.

Raio-X: Liudmila Aleksséieva

Liudmila Aleksséieva nasceu em Ialta, na URSS, em 1927. Começou a atuar na área dos direitos humanos em 1966, durante protestos contra os processos de presos políticos. Acabou sendo demitida do seu emprego e expulsa do Partido Comunista, mas continuou a guardar e distribuir “samizdat” (cópias distribuídas clandestinamente) sobre os direitos humanos. Em 1976, Aleksséieva ajudou a fundar o Grupo Helsinque de Moscou, mas teve que emigrar no ano seguinte. Até 1993 permaneceu nos EUA. Aleksséieva é autora de mais de uma centena de panfletos e artigos sobre os direitos humanos, e recebeu inúmeros prêmios, como a Legião de Honra francesa (2007), a Cruz de Comendador da Ordem de Mérito da República Federal da Alemanha (2009) e o Prêmio Andrêi Sákharov (2009).

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