Qual é a cara do sexismo na Rússia?

As mulheres russas continuam recebendo, em média, remunerações menores do que as dos homens Foto: Shutterstock

As mulheres russas continuam recebendo, em média, remunerações menores do que as dos homens Foto: Shutterstock

A ideia de que homens e mulheres devem se comportar de acordo com certas convenções está difundida na sociedade russa e torna as mulheres muito mais sujeitas à discriminação. Mas, afinal, quão longo é o caminho para se alcançar igualdade de gênero na Rússia?

Na Rússia existe discriminação contra as mulheres”, dispara a colunista e editora-chefe do portalEzhikezhik.ru, Svetlana Feoktistova. “Os homens se permitem fazer comentários insultuosos e piadas inapropriadas, praticar assédio sexual, e consideram isso normal, mas, se uma mulher se sentir ofendida, então quer dizer que ela não tem senso de humor. Além disso, os homens têm prioridade em questões de trabalho”, continua.

Para Feoktistova, a situação se desenvolveu por causa da falta de respeito dos russos em relação ao espaço pessoal e ao cumprimento das regras de etiqueta social. “Provavelmente, a culpa disso pode ser atribuída a fatores históricos como regime de servidão [na Rússia tzarista] e cotidiano dos apartamentos comunais soviéticos”, sugere a colunista.

Mas, para a maioria das mulheres russas, essa situação não só é costumeira, como também bastante. As revistas femininas na Rússia estão repletas de artigos do tipo “Como despertar a sua feminilidade”, “Como fazer com que ele dê presentes a você”.

“Fica evidente o uso do sexo para alcançar objetivos pessoais. Para milhões de mulheres do nosso país o feminismo é desnecessário. E aquelas poucas que entendem a profundidade do problema e tentam fazer algo a respeito são ridicularizadas por homens e até por outras mulheres”, critica Feoktistova.

Mesmo assim, no início de março passado, o VTsIOM (Centro Russo de Pesquisas de Opinião Pública) revelou melhorias quanto à igualdade de gênero na sociedade russa.

Em primeiro lugar, os russos (90%) citam a igualdade de direitos no que diz respeito à educação. Em nove anos, aumentou em uma vez e meia a parcela daqueles que acreditam que hoje em dia as mulheres têm o mesmo direito que os homens de ocupar uma vaga de trabalho dentro da sua profissão (de 48% para 76%).

A porcentagem dos que acham que elas têm o mesmo direito de obter uma remuneração digna por seu trabalho passou de 47% para 75% e de participar na vida política do país, de 48% para 74%.

Desigualdade na prática

As estatísticas contradizem, porém, os dados coletados na pesquisa de opinião pública. De acordo com a Rosstat (Agência Federal de Estatísticas da Rússia), as mulheres russas continuam recebendo, em média, remunerações menores do que as dos homens (25 contra 33 mil rublos, de acordo com dados de outubro de 2013).

Também são aplicadas condições desiguais a mulheres que desejam contrair um empréstimo, pois considera-se que elas podem engravidar e perder o emprego. Somado a isso, muitas mulheres sequer compreendem seus direitos.

“Temos que lidar com a violência e com o assédio no trabalho. As mulheres se deparam com isso com bastante frequência”, diz Mari Davtian, advogada do Consórcio de Organizações Não Governamentais Femininas. “Há reclamações sobre propostas de salários mais baixos no mercado de trabalho. Também há casos de mulheres pressionadas para deixar o trabalho por causa da gravidez, ou que não recebem os devidos benefícios.”

Integrantes da Comissão Parlamentar dos Assuntos da Família, Mulheres e Crianças se negaram a comentar sobre a situação da desigualdade de gêneros no país com a correspondente da Gazeta Russa.

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