Apesar da crise, cresce o número de casamentos na Rússia

Conexões horizontais, como amizade e família, podem ajudar pessoas a sobreviver a crises Foto: Reuters

Conexões horizontais, como amizade e família, podem ajudar pessoas a sobreviver a crises Foto: Reuters

Mesmo com instabilidade econômica e riscos políticos, mais de 100 mil casais de Moscou oficializaram sua união em 2014, 4.000 a mais do que no ano anterior. Tendência observada em Moscou, que registrou o recorde absoluto dos últimos 30 anos, foi confirmada também em outras regiões do país.

De acordo com o Serviço Federal de Estatística (Rosstat), pouco mais de 1,2 milhão de pessoas se casaram na Rússia em 2013, contra 979.500 em 2004. Embora os dados nacionais de 2014 ainda não tenham sido divulgados, o número recorde registrado em Moscou e outros locais do país confirmam a tendência ascendente dos anos anteriores.

Entre as razões para o atual fenômeno, especialistas apontam o “baby boom” da década de 1980 – os nascidos naquela época correspondem à geração que hoje está formando famílias. Entre os pesquisadores há também quem acredite que a razão é a própria crise.

Segundo a diretora de Mestrado em “Terapia Familiar Sistêmica” da Escola Superior de Economia, Anna Varga, a situação geral no mundo mostra que, quanto mais difíceis forem as condições em que vivem as pessoas, mais elas tendem a se unir, casar e ter filhos.

“Isso é bem ilustrado pelos países mais pobres, com baixo nível de escolaridade. Eles têm muito poucas perspectivas na vida, por isso as pessoas se envolvem na criação da próxima geração”, disse Varga à Gazeta Russa. “Com a crise cai o nível de vida, a sobrevivência passa a ocupar o primeiro lugar e diminuem as perspectivas de vida.”

Ficar junto é mais barato

A eficiência econômica do casamento foi demonstrada por Gary Becker, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1992 – a vida conjunta não só reduz os custos domésticos, mas funciona como uma espécie de seguro contra o desemprego, que geralmente aumenta durante a crise. A lógica é simples: se um dos dois perder o trabalho, o segundo o mantém.

“No início, eu pensava que para casar era preciso ter estabilidade financeira”, contou um funcionário do Banco Murat à Gazeta Russa. “Mas, por ironia, eu perdi meu emprego logo após o casamento.” Durante o período em que ficou desempregado, recebeu apoio integral da esposa, que era única pessoa que então trabalhava na família.

Alguns especialistas garantem que todos os tipos de conexões horizontais – amizade e família – ajudam as pessoas a sobreviver a crises.

“A família se torna como uma zona especial de conforto psicológico, destinada a aliviar o estresse e dar alegria”, diz a psicóloga Natalia Trofimova.

Segundo a especialista, em tempos de instabilidade é importante para as pessoas encontrar apoio em algo, e a oficialização do relacionamento ajuda as pessoas a lidar com a incerteza. “As pessoas precisam de algum tempo para se adaptar às condições de crise. Apesar de tudo o que acontece na economia e política, a vida continua.”

Casamento sem crise

Há também casais que já haviam decidido casar – e se planejado para isso – muito antes da crise. “Nós não pensávamos sobre a crise quando planejamos o nosso casamento”, conta o estudante Artiom.

“A crise afetou tudo: tivemos um casamento modesto; a mudança e a reforma foram feitas com o dinheiro que nos deram de presente. Além disso, os pais de ambos os lados ajudaram”, continua o estudante.

Mas nem mesmo as dificuldades iniciais impediram Artiom de enxergar aspectos rentáveis na união: “Agora não preciso ir todos os dias para o outro lado da cidade para vê-la.”

 

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