Centro de reabilitação de tigres selvagens gera polêmica

Cientistas do centro de reabilitação preveem a volta de tigre "fujão" no início de 2015 Foto: Vassíli Sólkin/WWF Russia

Cientistas do centro de reabilitação preveem a volta de tigre "fujão" no início de 2015 Foto: Vassíli Sólkin/WWF Russia

Casos de felinos à beira de estradas e fugas para China preocupam ONGs ambientais russas. Especialistas criticam projeto apoiado pelo governo e falam sobre a necessidade de procedimento correto para devolução de animais à natureza.

Antes de atravessar o rio Amur e pisar em território chinês, o tigre Ustin fez uma visita inesperada à praia central de Khabarovsk. O felino nadou entre a ilha Bolchoi Ussuriski, na fronteira entre a Rússia e China, até o centro da cidade russa, fez um curto passeio a pé e voltou ao local de origem. Na sequência, deixou o território do seu país natal.

Ustin é um dos cinco tigres participantes do programa de devolução de animais à natureza, elaborado e patrocinado pelo presidente russo Vladímir Pútin. O animal, libertado no início deste ano, repetiu o destino do seu irmão, Kúzia, que foi pessoalmente solto por Pútin e hoje encontra-se na região norte da China – sem qualquer intenção de voltar à Rússia.

“Os animais estão apenas conhecendo o novo território e não podem ser tratados como fugitivos, pois não reconhecem as fronteiras entre os países”, diz Viatcheslav Rojnov, administrador do centro de reabilitação de filhotes de tigre e responsável pelas libertações.

No entanto, enquanto os cientistas do centro no Extremo Oriente russo justificam as ocorrências pelo instinto natural dos tigres de explorar novos terrenos e preveem a volta de Ustin já no início do ano que vem, os especialistas das organizações sem fins lucrativos WWF e Amurski Tigr temem as consequências do contato prolongado entre os animais e seus cuidadores e criticam a forma de organização do programa de reabilitação dos grandes felinos.

Sorte pelas beiradas

Há dois anos, foram salvos cinco filhotes de tigre, órfãos de uma fêmea vítima de caça ilegal. Os felinos receberam então os primeiros cuidados de organizações comunitárias, mas, por falta de opção, acabaram sendo transferidos para o Centro de Reabilitação e Reprodução de Tigres e Outros Animais em Extinção, localizado no povoado Alekseevka.

“O centro de reabilitação é um sítio com gaiolas amplas, com acesso vetado a humanos”, conta Rojnov. A principal missão do estabelecimento é ajudar os tigres a desenvolver o instinto de caçador e atitudes adequadas em relação a seres humanos e outros representantes da espécie. “O objetivo do nosso trabalho é criar e educar os felinos para que eles possam voltar à natureza.”

Entretanto, Pável Fomenko, responsável pelo programa de preservação da diversidade biológica conduzido pela filial de Amurski da WWF na Rússia, acredita que as atividades do centro não passam de testes em animais” e caça ilegal no âmbito científico. 

“Os tigres são mantidos dentro de pequenas gaiolas e alimentados com veados vivos trazidos pelos funcionários do estabelecimento a fim de ensiná-los a viver de caça. Mas as futuras presas chegam aos predadores dentro de caminhões em um horário determinado; assim, os felinos passam a associar o som de carro com a chegada de alimento”, explica Fomenko.

Segundo ele, isso explica a permanência dos tigres à beira de estradas logo após a sua devolução à natureza. “Os funcionários responsáveis tentam alimentar os antigos hóspedes para afastá-los das vias, pois um deles já havia atacado um carro”, conta o representante da WWF.

O diretor da Amurski Tigr, Serguêi Aramilev, também considera um equívoco priorizar as habilidades de caça em tigres submetidos ao processo de reabilitação. “Em cerca de dois anos após o nascimento, um tigre vira um animal adulto e independente, o que faz com que o verdadeiro objetivo de reabilitação seja ensinar os felinos a ter medo de seres humanos e suas atividades”, disse Aramilev em entrevista à Gazeta Russa.

Zoológico X Centro de reabilitação

Embora Viatcheslav Rojnov, administrador do centro, acredite que os filhotes retirados da natureza devem ser reabilitados em centros especiais e devolvidos a seu habitat original, os demais especialistas do Extremo Oriente russo sugerem a necessidade de uma abordagem personalizada baseada na idade de cada um deles.

Quanto mais tempo um tigre permanecer na natureza selvagem, menor será a probabilidade de criação dos laços com os seres humanos, segundo Aramilev. Em sua opinião, também compartilhada por Fomenko, da WWF, os filhotes de até seis meses de idade “são mais compatíveis com a vida nos zoológicos e reprodução em cativeiro do que com a reabilitação em centros especiais que custam milhões de rublos e não garantem resultados positivos”.

Para Fomenko, um tigre só será capaz de sobreviver no ambiente selvagem após reabilitação se passar a conviver com seres humanos a partir de dois anos de idade. “Portanto, os filhotes que participam do programa atual, infelizmente, não terão uma vida longa na natureza”, conclui.

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