Mercado de trabalho russo sofre com desigualdades

Entre as principais queixas em relação às pessoas com mais de 45 anos estão a pouca habilidade para trabalhar com o computador e o baixo nível de energia Foto: Getty Images/Fotobank

Entre as principais queixas em relação às pessoas com mais de 45 anos estão a pouca habilidade para trabalhar com o computador e o baixo nível de energia Foto: Getty Images/Fotobank

De acordo com os dados do Centro de Direitos Sociais e Trabalhistas (TsSTP, na sigla em russo), um em cada quatro russos se depara com discriminação no trabalho. Além das populares exigências referentes ao sexo, idade e local de residência, o empregador muitas vezes seleciona os candidatos pela aparência e maneira de se vestir.

A constituição da Federação Russa garante que "homens e mulheres possuem iguais direitos e liberdades e igualdade de oportunidades para a sua implementação”. Mas o salário médio das mulheres russas em 2011 era de 19,2 mil rublos (US$ 500) enquanto o dos homens era de 30 mil (US$ 750).

"Em nossa empresa, temos ordens superiores de não contratar moças”, conta Zinaída Masterkova, chefe do departamento de RH de uma grande varejista russa. As principais razões alegadas são: "acabou de casar ou já está casada há muito tempo vai engravidar e ter um bebê" e "já tem filhos, então vai ficar pedindo licença para se ausentar”.

“Em caso de currículos equivalentes, sempre damos preferência aos jovens do sexo masculino”, diz Zinaída.  

Alguns mais iguais do que os outros

Para muitos, a discriminação começa ainda antes da entrevista. Em 2007, de acordo com dados do TsSTP, 59% dos anúncios de emprego em Moscou continham exigências referentes ao sexo, 35% referentes à idade e 21% e 20% à cidadania e ao lugar de residência, respectivamente. Um artigo que permite multar empregadores, bem como agências de empregos e sites por anúncios que contenham indícios de discriminação, entrou em vigor no verão passado. A quantidade desse tipo de vagas realmente diminuiu, mas na prática a situação não se alterou.

"Frequentemente somos procurados por moças que durante a entrevista de emprego tiveram que responder se tinham intenção de se casar e de ter filhos ou se elas já tinham filhos”, diz Serguêi Saúrin, chefe do departamento jurídico do TsSTP. “No entanto, mesmo se o empregador expor verbalmente que não irá contratar por esse motivo, jamais ele confirmará isso por escrito.” 

Esse é um dos principais motivos pelo qual os processos judiciais bem sucedidos referentes à discriminação são extremamente raros na Rússia –o tribunal não aceita como prova uma gravação de áudio da entrevista. "No ano passado nós ganhamos um caso de discriminação étnica apenas porque tínhamos evidências escritas", continua Saúrin.

"Fomos procurados por um moscovita de aparência asiática. Ele estava se candidatando para uma vaga através do Centro de Emprego, que exige que o empregador explique, por escrito, a razão da recusa do emprego. O empregador escreveu: ‘não possui uma aparência eslava’”.

O Tribunal reconheceu que de fato houve discriminação e impôs uma indenização de 30.000 rublos (US$ 750) por danos morais, mas o jovem não obteve o emprego.

É melhor ser divorciado

São as mulheres grávidas que recorrem com mais frequência aos advogados –por lei, elas não podem ser demitidas, mas é possível fazer tudo para que elas mesmas peçam demissão. “Uma mulher informa sobre a gravidez e logo se iniciam os ataques, ela é privada do local de trabalho, interferem nas suas atividades e assim por diante”, diz Saurin.

Para o empregador, não é rentável manter no quadro de funcionários colaboradoras nessa situação. As grávidas e as mulheres com filhos pequenos gozam de diferentes garantias na Rússia: não podem ser demitidas durante os três primeiros anos de vida da criança, por exemplo. Mas as jovens mães não são as únicas mulheres que são discriminadas.

"Há 10 anos nem se cogitava na nossa empresa que mulheres pudessem assumir posições de chefia”, conta Zinaída Masterkova. “Mesmo agora, é impossível uma mulher chegar a ocupar um cargo elevado."

Em relação aos homens, os empregadores têm exigências opostas. "Em nossa empresa, o chefe obrigatoriamente deve ser casado e de preferência ter filhos”, continua Masterkova. “Por isso, é melhor ser divorciado do que solteiro.” 

Experiência menos valorizada

"Minha mãe tem 52 anos, ainda faltam três anos para a aposentadoria, mas desde já estão lhe oferecendo vagas para serviços de portaria ou de empregada doméstica”,  queixa-se Irina Leonova. “Se ela não indica o ano de nascimento no currículo, ligam de boa vontade para ela, mas ao tomarem conhecimento de sua idade o interesse desaparece.”

Entre as principais queixas em relação às pessoas com mais de 45 anos estão a pouca habilidade para trabalhar com o computador e o baixo nível de energia.

"A experiência está sendo menos valorizada do que a capacidade de correr rapidamente pelos corredores”, diz Anna Korabliova, de 61 anos de idade. “Já sou aposentada, mas sou uma consultora experiente. E sinto que os colegas mais jovens já ‘estão nos meus calcanhares’”.

Lutar por direitos

Os artigos sobre discriminação estão presentes nos Códigos Administrativo e Penal da Rússia. Por enquanto, o artigo administrativo não foi aplicado nem uma vez. No âmbito do artigo do Código Penal foram instaurados alguns processos, mas ninguém foi responsabilizado. Na prática, a maior penalidade é uma compensação por dano moral, que é determinada pelo tribunal. No entanto, “os juízes não consideram a discriminação uma violação grave", afirma Evguêni Kulikov, secretário-geral da União dos Sindicatos da Rússia.

De acordo com os dados do  TsSTP, há apenas alguns anos, somente 1% de todos os trabalhadores  tentaram defender os seus direitos no tribunal. O mesmo tanto tentou resolver os seus problemas através da Comissão para Conflitos Trabalhistas. E 90% nunca haviam participado de ações pela defesa dos direitos dos trabalhadores.

 “O povo russo não está acostumado a lutar por seus direitos”, continua Kulikov. “As pessoas estão prontas a fazer barulho na sala para fumantes ou ficar batendo com o punho na mesa em casa, mas quando chega a hora de agir elas tem medo de perder seus empregos. As pessoas simplesmente não acreditam que é possível defender os seus direitos." 

 

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