"Todo mundo usa o soft power, mas a diferença aqui está nos métodos grosseiros"

"No mundo atual, usam-se esquemas complexos de influência que são reunidos no conceito de "soft power", diz Zassúrski Foto: Grigóri Sissóiev/RIA Nóvosti

"No mundo atual, usam-se esquemas complexos de influência que são reunidos no conceito de "soft power", diz Zassúrski Foto: Grigóri Sissóiev/RIA Nóvosti

Um dos maiores especialistas em mídia da Rússia, Ivan Zassúrski acredita que métodos de propaganda e controle do país são pouco efetivos, além de inaceitáveis do ponto de vista da ética jornalística. Ele fala à Gazeta Russa sobre peculiaridades da mídia russa e a nova lei que restringirá participação estrangeira na mídia do país.

Aos 40 anos, Ivan Zassúrski é uma das maiores autoridades da Rússia em jornalismo e comunicação. Chefe do departamento de Novas Mídias da MGU (Universidade Estatal de Moscou) e criador do jornal on-line "Tchástni korrespondent" (do russo, "Correspondente particular"), Ivan começou a carreira como repórter da "Nezavíssimaia Gazeta" nos anos 1990, quando tinha apenas 17 anos.

Ivan segue os passos do avô, Iássen, o principal teórico do jornalismo russo e decano da faculdade de jornalismo da MGU desde 1965. Ele falou à Gazeta Russa sobre propaganda, peculiaridades da mídia russa e a nova lei assinada pelo presidente russo para restringir a participação estrangeira em empresas de comunicação do país:

Gazeta Russa: Hoje, o presidente da Rússia, Vladímir Pútin assinou a lei que estabelece que estrangeiros só podem ter uma fatia de, no máximo, 20% em veículos de imprensa. Quais, na sua opinião, serão os principais resultados dessa lei? Ela poderá prejudicar a sociedade russa?

Ivan Zassúrski: Esse projeto de lei irá levar ao surgimento de uma fronteira clara entre veículos russos e estrangeiros. Os primeiros irão, provavelmente, ficar sob controle de companhias locais e holdings, enquanto os últimos poderão funcionar completamente como representações e não serão negócios independentes em nosso país.

Para falar mais claramente, isso significa que será necessário vender imediatamente ou mudar o modo como está estruturada a propriedade da Sanoma Independent Media, que publica os veículos de cunho sócio-político "The Moscow Times" e "Vedomosti", e a "Forbes", além de algumas outras empresas de comunicação que têm papéis menos importantes no cenário político.

Pelo que eu saiba, os acordos sobre a venda da Sanoma Independent Media estão em estágio de fechamento. Isso deverá levar a uma queda na diversidade de pontos de vista na imprensa russa, apesar de não levar a seu desaparecimento, já que restarão outros veículos de oposição russos, como a "Nôvaia Gazeta" e a [revista] "The New Times" - pelo menos por enquanto. 

GR: Alguns especialistas afirmam que essa lei irá levar a esquemas ilegais para manter a direção estrangeira de veículos russos e à corrupção. Isso é verdade? Existem muitos veículos desse tipo na Rússia?

IZ: Parece-me que, nesse caso, as emendas na legislação coincidem com as quedas sucessivas no mercado de publicidade. Ou seja, para a maior parte dos investidores, provavelmente, não há muito sentido em aferrar-se ao mercado russo atual, apesar de que eles também dificilmente iriam se propor a sair dele voluntariamente.

GR: Há alguma nova tendência na evolução da imprensa escrita? Há 10 anos, especialistas previam o fechamento da maior parte dos veículos impressos devido ao crescimento da internet. Existem dados que mostrem quão mal vão os veículos impressos russos? Esse processo coincide com o que ocorre no Ocidente?

Posso falar por mim: comecei a ler mais a imprensa no papel porque ela se tornou gratuita para mim. Pego [os jornais econômicos] "Vedomosti", "RBC-Daily" e [o diário em língua inglesa] "The Moscow Times" em um café aqui por perto, o "Metro" chega sozinho até mim, assim como o [diário] "Vetchêrnaia Moskvá", e o [jornal econômico] Kommersant posso pegar em outro café aqui por perto. A "Nezavíssimaia Gazeta" e o "Nôvie Izvêstia" estão disponíveis na Faculdade de Jornalismo da MGU.

Mas isso também significa que o jornal tenta, desesperadamente e com todas suas forças, reduzir a tiragem. O pesquisador e articulista russo Andrêi Miroshnitchenko publicou um livro sobre a morte do último jornal. Segundo ele, a última geração "jornaleira" foi a das pessoas que nasceram até 1980, e entre as gazetas que resistirão por mais tempo, estão veículos com viés econômico: o Kommersant e o Vedomosti. Mas, levando em conta as peculiaridades da regulação, pode-se dizer queda previsão foi otimista.

GR: Quais veículos russos podem ser considerados independentes? Existe na Rússia um veículo que seja independente não apenas do Estado, mas também de proprietários?

IZ: Provavelmente, quase não restaram veículos assim, se não contarmos com blogs e redes sociais - apesar de que, se os levarmos em conta, então pode-se dizer que o jornalismo se tornou autoral. A indústria comercial dos mass media está sob ataque, por isso o status de veículo independente, até do ponto de vista da viabilidade do negócio, é muito curto.

Quanto à independência do proprietário, apesar de essa ser a principal norma da lei de imprensa, isso praticamente não existe na Rússia, e mesmo entre os profissionais do setor hoje poucos são os que sugerem que isso seja normal.

Apesar de sempre haver uma exceção, como, por exemplo, a Nôvaia Gazeta e a The New Times: elas são independentes de toda forma, mas não totalmente. Isso deve ser herança dos anos 1990, quando a mídia na Rússia sobreviveu ao colapso total e, assim, não conseguiu renascer das cinzas nas dimensões anteriores.

Do ponto de vista do acesso à informação, a internet é mais importante que os veículos impressos. Por outro lado, a Ekho Moskvi dá o exemplo como uma rádio que faz parte de uma enorme holding [do grupo Gazprom], mas mantém uma política de redação independente. Muita coisa depende do editor e dos jornalistas.

GR: Qual sua opinião sobre a influência do Estado nos meios de comunicação russos nos últimos anos?

IZ: A concentração da mídia era negócio dos oligarcas, de holdings, e só depois o Estado tomou esses ativos para si. Assim, os "impérios da influência" criados por magnatas da mídia como Boris Berezóvski e Vladímir Gussínski, tornaram-se hoje estatais ou de ativos parcialmente sob o controle do governo. Apesar disso, pode-se dizer que do ponto de vista da repressão da imprensa, isso acontecia já nos anos 1990. Agora, o assunto é mais sobre exercer pressão de diferentes formas nos enclaves que, até então, se preservavam.

Apesar disso, ainda resta espaço para a diversidade, mas já não é nos grandes negócios midiáticos e nas TVs. Mas o rádio em Moscou, por exemplo, ainda pode se gabar de algumas estações independentes, como a Serebriâni Dojd e a Ekho Moskvi.

GR: Na sua opinião, as relações entre Estado e mídia na Rússia são muito diferentes das do resto do mundo?

IZ: Sim e não. Via de regra, nos sistemas midiáticos se traçam as relações entre grandes holdings e o governo ou grandes forças políticas, apesar de o grau de tal simbiose político-midiática e os mecanismos concretos de interação serem sempre diferentes - dos pontos de referência tradicionais das redações e das grandes corporações nos Estados Unidos até as complicadas artimanhas na França e o império midiático de Murdock, que é global, e de Berlusconi, na Itália, o mundo está cheio de exemplos de uso da mídia com propósitos políticos. Infelizmente, a Rússia não é exceção.

Outra coisa é que, em muitos países e sistemas midiáticos, em algumas questões se observa um consenso entre publicações de diferentes tendências em diferentes questões. É o caso, por exemplo, da política internacional, apesar de que, olhando de fora, é muito difícil entender como isso é possível, principalmente se a questões forem demasiadamente controversas. 

Tais temas e problemas são muitos, assim como os sinais da realização de grandes projetos por meio da compra de jornalistas e publicações em diversos países do mundo, entre eles, os EUA e a Europa. Outra coisa que influi na ordem dos fatos está relacionada, via de regra, a outras épocas - como, por exemplo, a [campanha secreta da CIA para influenciar a mídia a partir dos anos 1950 intitulada] operação Mockingbird.

No mundo atual, usam-se esquemas complexos de influência que são reunidos no conceito de "soft power". A peculiaridade da situação russa está no fato de que o governo usa os tradicionais métodos grosseiros de propaganda e controle direto, que é difícil considerar efetivos do ponto de vista profissional ou aceitáveis do ponto de vista da ética jornalística, dos  direitos do consumidor de informação e até da legislação da Federação Russa. 

Raio-X

Ivan Zassúrski
Idade: 40 anos
Cargo: Chefe do departamento de Novas Mídias da MGU

Chefe do departamento de Novas Mídias da MGU (Universidade Estatal de Moscou) e criador do jornal on-line "Tchástni korrespondent" (do russo, "Correspondente particular"), Ivan começou a carreira como repórter da "Nezavíssimaia Gazeta" nos anos 1990 aos 17 anos. Em 1997, deixou o jornalismo para se dedicar ao cargo de conselheiro do então vice-premiê Boris Nemtsov. Apesar da pouca idade, Ivan já tinha experiência: em 1995, foi chefe de campanha do governador de Níjni Nôvgorod. Partiu para a carreira acadêmica em 1998, com a tese de doutorado "Veículos de comunicação de massa da Rússia nas condições dos processos globais de transformação: formação do novo sistema de informação e seu papel na vida política do país entre 1990 e 1998". Foi diretor do Centro Russo-Americano da Universidade de Nova York e diretor do Laboratótio de Cultura Midiática e Comunicação da faculdade de jornalismo da MGU antes de se assumir o cargo de chefe do departamento de Novas Mídias da universidade.  

 

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