O caminho sem volta da nova droga ‘spice’

Efeitos psicológicos do uso de substânticas sintéticas são agravados por problemas respiratórios, cardiovasculares e transtornos de coordenação motora Foto: ITAR-TASS

Efeitos psicológicos do uso de substânticas sintéticas são agravados por problemas respiratórios, cardiovasculares e transtornos de coordenação motora Foto: ITAR-TASS

Há menos de um mês, o uso de uma mistura narcótica conhecida como “Spice” tirou a vida de 25 pessoas e afetou mais de 700. Números aumentam a esperança de órgãos de combate a drogas de receber mais mecanismos legais, tais como a simplificação do processo de proibição de novas substâncias.

Também conhecida como “maconha sintética”, a droga spice ganhou as manchetes russas nas últimas semanas após o país registrar mais de 25 mortes e 700 pessoas intoxicadas em decorrência de seus efeitos em apenas um mês. 

A primeira vítima fatal foi confirmada em meados de setembro. Mas o número real de mortos pelo uso da mistura sintética, também conhecida como MDMB, pode ser ainda maior, já que muitos usuários temem buscar ajuda diante dos sintomas adversos - e têm a causa de morte indicada como “inssuficiência cardiovascular”. 

Entre as principais regiões afetadas pelos efeitos negativos do narcótico, segundo as estimativas oficiais, estão unidades federativas ricas em petróleo, como o Bachkortostão e Khanti-Manti. O chefe do serviço de controle de narcóticos da última informou, em coletiva à imprensa, que 200 pessoas foram hospitalizadas intoxicadas pela droga ali, resultando em 8 mortes. 

Autoridades em alerta

Os números alarmaram a sociedade e as autoridades do país. Às pressas, a droga se tornou pauta principal em assembleias dos mais diversos níveis políticos.

Em reunião do Comitê Estatal de Combate a Drogas realizada na capital, o diretor do Serviço Federal de Controle de Circulação de Drogas, Víktor Ivanov, ressaltou a necessidade de introduzir mudanças na legislação para proibir com maior agilidade a comercialização de substâncias nocivas à saúde. 

“Os traficantes agem muito mais rápido que as autoridades russas”, disse Ivanov, referindo-se à constante mudança na composição da droga, que tem por objetivo evitar sua proibição definitiva. 

Mas a ministra da Saúde, Verônica Skvortsova, acredita ser muito difícil impedir a ação dos fabricantes da droga, apesar da proibição iminente das substâncias usadas no spice. “Até substâncias domésticas podem ser potenciais spices se forem usadas de maneira incorreta”, disse Skvortsova à imprensa.

A declaração da ministra remete imediatamente ao crocodil, um tipo de desomorfina - derivado da morfina dez vezes mais potente que essa e fabricado com base em gasolina, fósforo vermelho, iodo e ácido clorídrico - que também ganhou atenção, principalmente a partir de 2010, com fotos de seus usuários com os membros em carne viva circulando livremente pela internet.

Coincidência ou não, a venda em farmácias de medicamentos contendo codeína, que é base para o crocodil, praticamente triplicou de 2007 a 2010, de acordo com dados do Serviço Federal de Controle de Circulação de Drogas.

Barata e de fácil acesso

Em entrevista à Gazeta Russa, o presidente da União Nacional de Combate a Drogas, Nikita Luchnikov, declarou ser urgente a adoção de medidas para conter a comercialização do spice.

“Os efeitos apenas psicológicos observados no início do uso dessas substâncias são agravados por problemas respiratórios, cardiovasculares e transtornos de coordenação motora. Além disso, os ingredientes dessas misturas podem gerar dependência logo após o primeiro uso e levar à intoxicação”, explica.

Mas a venda da droga na Rússia segue um mecanismo complexo que é difícil de ser combatido. Os distribuidores não entram em contato direto com os compradores, recebendo seu dinheiro por meio de sistemas de pagamento eletrônicos e indicando aos clientes apenas os locais onde o produto é depositado: canteiros de flores, pontos de ônibus ou quaisquer outros locais públicos.

Entregadores contratados recebem menos de 10 reais por cada pacote que escondem pelas cidades. Mas, apesar da baixa remuneração, a simplicidade da tarefa mantém o constante fluxo de interessados em executar a função.

Danos tardios

Diretor técnico de um estúdio de gravação, Konstantin, que não quis ter o sobrenome revelado, tem 30 anos e há três está livre das substâncias narcóticas que consumia desde os 19 anos. 

“O spice chegou a Sôtchi, minha cidade natal, no final da década de 2000, como um produto totalmente legal. Era vendido nas lojas de conveniência, passando uma falsa impressão de segurança”, lembra Konstantin. Segundo ele, os efeitos das substâncias em questão são imprevisíveis. 

“Às vezes dão tristeza, às vezes, uma alegria que acaba deixando uma leve depressão. Os maiores atrativos da droga foram sua acessibilidade e o fato de ser legal. Mas, mesmo após a aplicação de medidas por parte das autoridades, ela não perdeu sua primeira característica. Hoje, o spice é usado até por estudantes colegiais, e não é considerado algo pesado como a heroína”, diz. Para ele, as drogas sintéticas são mais perigosas para o sistema nervoso que os narcóticos naturais. 

“Até hoje sinto as consequências do uso que fiz delas. Às vezes começo a tremer, um sinal de enfraquecimento das ligações neurais. No centro de reabilitação, conheci gente que foi dependente de heroína por muitos anos e que recuperava as atividades cerebrais após três meses de tratamento. Ao contrário deles, os fãs dessas drogas sintéticas para fumar precisavam de muito mais tempo, mesmo depois de poucos anos de dependência.”

 

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