Um terço dos russos não sabe o que é democracia, segundo pesquisa

Pútin e Bréjnev foram considerados os políticos mais democráticos da história russa Foto: TASS

Pútin e Bréjnev foram considerados os políticos mais democráticos da história russa Foto: TASS

Fundação de Opinião Pública (FOM, sigla em russo) publicou os resultados de um estudo segundo o qual um terço dos russos não conseguem explicar o que é democracia. Sistema educacional está na raiz do desconhecimento de conceitos políticos básicos, garantem especialistas.

Dados da fundação mostraram a maioria dos inquiridos (43%) entende por democracia “glasnost, liberdade de expressão e de opinião”, “eleições livres” e ainda “respeito pelos direitos humanos”. Apenas 12% vêem na democracia a “participação do povo na governança do país”.

Apesar da ausência de clareza sobre o conceito, um terço dos inquiridos pela FOM estão convencidos de que, hoje em dia, “há democracia” na Rússia. A doutora em ciências sociais Olga Kristanóvskaia acredita que, na consciência coletiva, se enraizou o mito de que democracia é um mero sinônimo de liberdade, não só por causa do sistema educacional, mas também por uma propaganda mal orientada. “Pensam que muita liberdade significa democracia em ação.”

A analista da Fundação de Opinião Pública, Irina Óssipova, concorda que a maioria dos russos entende a democracia como valores democráticos, esquecendo-se de sua principal definição– poder do povo e participação da sociedade civil nas decisões do Estado. “Para as pessoas, as manifestações democráticas são mais importantes do que a definição escolar”, explica.

Em 2010, os entrevistados por uma pesquisa do Centro de Estudo de Opinião Pública da Rússia (VTsIOM) definiram democracia como rigoroso respeito pela lei (21%) e eletividade dos cargos políticos (18%). Nesse mesmo ano, 11% dos russos encaravam a  democracia como um “bate-papo” inútil.

Cabe lembrar que um dos períodos mais dramáticos da história moderna da Rússia – o governo de Boris Iéltsin – é tido por um dos mais democráticos. “Na época, a liberdade se transformava em caos, o que virou muita gente contra a democracia. As pessoas se viram confrontadas com um Estado debilitado e concluíram que não precisavam de desordem”, disse à Gazeta Russa Kristanóvskaia.

Problema escolar

Os russos não conseguiram explicar aos sociólogos da FOM o que é democracia, embora estejam convencidos de que ela existe e é suficiente. “Na realidade, a definição de democracia é bastante simples. Aprovada pela UNESCO, é composta por 8 pontos, entre os quais eleições honestas, liberdade de expressão e controle da atividade governamental pelos cidadãos”, explicou Kristanóvskaia.

Segundo a especialista, o problema constatado pelo estudo tem origem nos programas escolares. “É indispensável que todos estudantes, antes de completarem o curso secundário, tenham uma noção precisa sobre democracia. Assim, será possível saber se ela é efetiva ou não em nosso país”, ressaltou a socióloga.

Óssipova lembrou, contudo, que as disciplinas de Teoria Social e Sociologia foram introduzidas nas escolas há pouco tempo.

Líderes do povo

Trinta e sete por centos dos inquiridos pela Fundação de Opinião Pública também não souberam responder em quais períodos históricos a democracia funcionou melhor. “As pessoas estão avaliando a democracia como algo bom, como um objetivo que é preciso alcançar”, analisou a socióloga. “Também costumam pensar que a democracia chegou do Ocidente.”

Ainda segundo o recente levantamento, mais de um terço dos russos acha que a democracia se manifestou no país com mais evidência sob o comando de Vladímir Pútin – 12% consideram mais democráticos os dois primeiros mandatos presidenciais (entre 2000 e 2008), enquanto 27% citaram o presente e terceiro mandato.

No ranking dos políticos mais democráticos, o segundo lugar foi ocupado pelo líder soviético Leonid Bréjnev. “É evidente que os adversários de Pútin não concordam que o Estado se tenha tornado mais democrático. No entanto, se abstrairmos as preferências pessoais, constatamos que tanto os regularadores de mercado, como os valores democráticos, progrediram bastante, e as eleições se tornaram mais transparentes.”

Segundo Kristanóvskaia, surgiu ainda o controle de parte da sociedade sobre o poder e os atos eleitorais; paralelamente, aumentou o número de organizações que defendem os direitos humanos. “Os cidadãos querem saber como o Estado está funcionando, querem colocá-lo sob controle permanente”, finalizou a socióloga.   

 

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