Agricultores da cidade grande

A necessidade de cultivar algo é tão grande em alguns moradores da cidade que eles estão dispostos a pagar uma mensalidade por essa atividade Foto: TASS

A necessidade de cultivar algo é tão grande em alguns moradores da cidade que eles estão dispostos a pagar uma mensalidade por essa atividade Foto: TASS

Existe um determinado tipo de russo que sempre conseguirá encontrar um cantinho para fazer uma horta: cultiva hortaliças em sua varanda, no peitoril das janelas de seu apartamento e em pequenos lotes de terra fora da cidade. A Gazeta Russa descobriu porque os russos tem uma queda pela agricultura.

Um típico prédio de cinco andares de Moscou. De um lado dele se estende uma avenida barulhenta que atrapalha o sono de todos os moradores, do outro lado há um pátio coberto de grama. Duas de suas entradas não apresentam nada que chame atenção, na terceira crescem lírios e na quarta abóboras Patisson. Se você permanecer junto das abóboras por mais tempo e ficar as admirando, na janela do primeiro andar irá surgir uma mulher com olhar desconfiado. Perguntada por que ela precisa delas em um local poluído, a senhora responde que uma amiga trouxe as sementes de sua “datcha” (casa de campo) e era preciso fazer alguma coisa com elas.

Os guerrilheiros das hortas

Em qualquer prédio de apartamentos é possível encontrar uma mulher disposta a organizar um jardim sob as janelas. A dona das abóboras Patisson provavelmente não sabe, mas a sua atividade é chamada de "jardinagem de guerrilha". Esse movimento, que surgiu no Ocidente na década de 1970, começou a enraizar-se na Rússia há bem pouco tempo. Os "guerrilheiros" se apoderam de vasos e canteiros vazios e dessa maneira surgem hortas “espontâneas” na cidade.

 

Qualquer um que desejar pode tornar-se um “guerrilheiro”. A sua principal tarefa é deixar a cidade mais verde. Pode-se começar pela própria varanda. Um belo dia, Mikhail decidiu que ter flores no parapeito de sua janela era pouco e começou a cultivar em sua casa batatas e amendoins. Ele compartilha ativamente a sua experiência em um blog onde posta fotos de seus espaços cultivados. 

Botânica para preguiçosos

É possível comprar um vasinho com uma muda de planta em qualquer supermercado. Para os mais preguiçosos vendem-se plataformas especiais que nem sequer necessitam ser regadas. Do "jardineiro" exige-se apenas que coloque o dispositivo sob uma fonte de luz.

"Meus amigos me deram de presente uma dessas plataformas. Eu já colhi três safras de tomates cereja –é muito bom fazer salada com eles. E um conhecido meu tem uma caixa dessas onde a hortelã cresce durante o ano todo”, conta o programador Pavel Urazov. Como resultado, há um ano ele abandonou a programação e arranjou um emprego na função de serviços gerais no Horto do Boticário (onde são cultivadas plantas medicinais), uma das subdivisões do Jardim Botânico da Universidade Estatal de Moscou. No trabalho, ele cava canteiros, pratica meditação, ajuda a fazer objetos de arte e faz colheitas.

A demanda da cidade grande

A necessidade de cultivar algo é tão grande em alguns moradores da cidade que eles estão dispostos a pagar uma mensalidade por essa atividade. Em 2010, surgiu uma Horta Pública no Armagh (“cluster” criativo criado numa antiga fábrica de Moscou). Os interessados podiam alugar um canteiro e até mesmo observá-lo no site em regime on-line.

 “O projeto foi concebido para ser desenvolvido com base em financiamento coletivo (crowdfunding) e acabou sendo pouco rentável. Eu tinha outra ideia de como fazer uma horta urbana, mas acabei me empolgando com um projeto em maior escala”, conta Anna Morozova, fundadora da fazenda no parque de arte Nikola-Lenivets, localizado na unidade federativa de Kaluga, vizinha da unidade federativa de Moscou.

 

Anna trabalhava na Embaixada da Letônia e seu marido, Serguêi, era chefe do departamento de logística de uma loja de produtos agrícolas quando eles decidiram realizar um sonho antigo e fundar a fazenda. Ela já está no quarto ano de funcionamento e atualmente é constituída por cerca de 18 hectares de terra que ainda não foi totalmente explorada, onde se desenvolvem, sem a utilização de agrotóxicos, 75 tipos de culturas, desde milho multicolorido até alcachofras.

A fazenda está aberta diariamente para visitantes e voluntários: lá você pode trabalhar ao ar livre, descansar em uma barraca, fazer um estoque de hortaliças, saborear picles e codornas no espeto e tomar um chá de ervas em meio à natureza.

A família prevê que em 2015 o seu negócio vai começar a dar retorno por conta da demanda por esses produtos que está surgindo nas grandes cidades. Anna e Serguêi acham que essa tendência é natural –as pessoas passaram a ter vontade de comer comida de verdade e estão dispostas a pagar um pouco mais por isso. 

Os proprietários de “datchas”

Outra "subcultura" que vale a pena ser lembrada é a dos veranistas, proprietários de datchas. Trata-se de um grupo muito numeroso: os proprietários de datchas detêm 1,5 milhões de lotes localizados nos subúrbios de Moscou e em regiões adjacentes. Ao todo, 5 milhões de moscovitas possuem lotes familiares. De acordo com dados do Centro Nacional de Pesquisa de Opinião Pública, 48% da população urbana da Rússia possui imóveis fora da cidade.

Os veranistas mais ativos são representados pelas pessoas da geração mais velha, como  Olga Polgova, de 75 anos. Ela mora na periferia de Moscou e gasta 8 horas andando em três trens e dois ônibus para chegar à sua datcha localizada em Riazan, unidade federativa vizinha. Na casa não existe banheiro nem aquecimento central e sob o piso se ouvem os ruídos dos ratos, mas todo maio Fedorovna tem pressa de ir para lá a fim de em setembro poder voltar trazendo consigo algumas caixas de maçãs, pacotes com bagas congeladas e cogumelos, camadas de marshmallow caseiro e latas com geleia.

"A datcha ajuda muito quando as crianças da família já cresceram, mas restou o desejo de cuidar de alguma coisa. No entanto, nem sempre as colheitas são boas”, diz ela.

 

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