Os russos que decidem deixar Moscou

Altos preços e stress da capital do país têm feito muitos moscovitas tentarem a vida fora Foto: Roman Kisseliov/Gazeta Russa

Altos preços e stress da capital do país têm feito muitos moscovitas tentarem a vida fora Foto: Roman Kisseliov/Gazeta Russa

Recentemente se tornou popular entre os russos alugar seus apartamentos e sair para viver em outros países. Para onde e por que as pessoas vão? Confira o relato de algumas delas.

Dária Stavítskaia 

Tradutora

Eu amo Moscou, não ia sair daqui, mas as circunstâncias levaram a isso. Tive problemas de saúde sérios. Vários diagnósticos incorretos, inclusive o de  câncer, pioraram a situação. Eu decidi largar meu emprego e ir para um país com medicina alternativa, alojamento e comida barata. Aluguei meu apartamento em Moscou por 50 mil rublos por mês (cerca de US$ 1.300) e fui para o Nepal. Lá há montanhas e o apartamento fica por US$ 200 por mês.

Em um mês eu gasto cerca de US$ 600. Kathmandu é suja e barulhenta e nem é sempre segura no aspecto gastronômico, mas eu amo o povo local, e o sentimento é recíproco. Em um mês, eu recebi tratamento médico de Ayurveda, comecei a ensinar inglês aos órfãos e a construir uma escola pelas manhãs, literalmente colocando tijolos.

Eu não vou ficar no Nepal para sempre e  quando expirar o visto e terminar a construção da escola, vou me mudar para Istambul, pois Kathmandu me deu uma amiga maravilhosa que trabalha em uma universidade de lá e me chamou para trabalhar no departamento internacional. 

Nina Livánova 

Psicóloga, professora do desenvolvimento da voz 

Reiki-healer

Tudo começou em 2008, quando eu cheguei a Goa junto de meu marido (agora ex) por duas semanas. Surgiu um incrível e forte sentimento de mudança na percepção da vida. Lá eu vi pessoas que alugam seus apartamentos e passam o inverno olhando o mar todos os dias. Antes, isso era incompreensível para mim, depois vimos que eram pessoas simples, artistas. Algo fez um clique na minha cabeça: eu pensei que seria muito bom viver assim, toda a família junta, com minha filha.

Meu marido naquela época trabalhava como designer, eu tinha que trabalhar com projetos, tudo era convergente. Decidimos ir para a Tailândia. Em um dia, compramos as passagens. Pais e amigos ficaram chocados, mas não mudamos de planos. Alugamos nosso apartamento a um amigo por 20 mil rublos (cerca de US$ 520). Ele valia mais, mas por período curto de cinco meses e as coisas pessoais também influenciaram na decisão de alugar a um preço mais baixo. Na Tailândia, alugamos uma casa com dois dormitórios que naquela época custava 12 mil rublos por mês (cerca de US$ 320). 

Nós passamos lá cinco meses que nos mudaram completamente, tanto por dentro quanto por fora. Depois de voltar à Rússia, entendemos que não podíamos viver como antes. Toda a vida começou a girar no ritmo do inverno. Isso mudou a nossa forma de pensar, esclareceu a nossa relação, a vida e os relacionamentos. No segundo inverno, nos divorciamos e encontramos novos relacionamentos. A experiência de viver na Ásia revelou aquilo que já existia por dentro, mas ficou coberto pelo ritmo da cidade e não se expressava tão claramente.

Outro país, sem os problemas e as maneiras habituais de lidar com o estresse, menos amigos, menos oportunidades de fugir, de se distrair, de descansar um do outro, pode ser difícil. Sem o trabalho,  há tempo para analisar seus sentimentos. Muitas pessoas começam a beber nessa situação, pois não conseguem ficar consigo mesmas: elas novamente criam o barulho de auto-destruição, só para não olhar na profundidade da realidade.

Eu sou psicóloga de profissão e atualmente estou preparando um seminário sobre como enfrentar esses problemas na hora de se mudar para a Ásia. 

Elena Lebedeva 

Confeiteira 

Antes de me mudar para a Índia, eu tinha vindo aqui duas vezes: uma vez como turista e a outra com amigos, por um mês. Com eles, alugamos casas e motocicletas e já não era turismo, mas uma vida normal, como em uma casa de campo. Em princípio, desde a primeira vez eu percebi que gostaria de viver na Índia. Era 2007, e naquela época a mudança parecia um sonho, eu tinha muito trabalho em Moscou. Mais tarde aconteceu a crise, mudanças na vida pessoal, então percebi que tinha chegado o momento em que eu podia largar tudo.

 Snowden

Procurei força e fiz exatamente assim, era 2009. Como eu não consigo ficar sem fazer nada, fui para Goa com uma ideia concreta: resolvi transformar um hobby em uma profissão e comecei a fazer bolos. No começo, trabalhava com restaurantes russos e em 2010 abri minha confeitaria, a Pies&Love. De fato, hoje em dia é minha ocupação. O lugar é famoso. No entanto, eu ainda sou chef de cozinha,  trabalho na cozinha na alta temporada. 

Parece que não foi difícil adaptar-me ao novo ritmo. Digo que todos precisam ter pelo menos uma semana para parar, esquecer o ritmo louco de Moscou, onde já não lembramos para onde e para quê, mas temos que correr sempre e conseguir fazer tudo na hora. Depois de viver em um apartamento em Moscou de 20 metros quadrados, eu realmente queria ter uma casa grande com jardim. Aqui é fácil, eu tenho uma casa de dois andares com um enorme jardim, onde moro com a minha filha e dois basset hound. Temos uma motocicleta e um carro, que eu comprei aqui. Ainda estou buscando comprar  um cavalo, esse sempre foi o meu sonho. Parece ridículo, mas aqui eu realmente posso ter tudo isso. 

 

Publicado originalmente pelo The Village

 

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