Refugiados ucranianos encontram abrigo na região dos Urais Médios

Os moradores locais trazem roupas quentes, alimentos, equipamentos eletroeletrônicos e utensílios domésticos necessários para os refugiados Foto: Reuters

Os moradores locais trazem roupas quentes, alimentos, equipamentos eletroeletrônicos e utensílios domésticos necessários para os refugiados Foto: Reuters

Imigrantes estão gratos pela acolhida, mas queixam-se da demora na regularização dos documentos e da dificuldade de conseguir colocar as crianças em uma creche.

Para os Urais Médios, região da Rússia localizada entre a Europa e Ásia, distante da Ucrânia, o afluxo de refugiados proveniente desse país foi um acontecimento inesperado. Os serviços sociais das cidades mais próximas da fronteira ucraniana não estão dando conta de atender todos os refugiados, por isso eles são obrigados a seguir para locais mais distantes, inclusive para a região dos Urais.

Diante de Iúri Saveliev há uma lista de mais de 140 empregadores que estão dispostos a contratar os imigrantes. O próprio Saveliev, presidente do Conselho Administrativo da Autonomia Nacional-Cultural Russa (associação pública que reúne cidadãos que se identificam com determinada comunidade étnica, se organizam voluntariamente e atuam com foco na preservação da identidade, linguagem, educação e cultura nacional), presta ajuda voluntária aos refugiados da Ucrânia, ajudando-os a obter emprego e encontrar uma moradia temporária.

Na região existe uma demanda por construtores, cabeleireiros, confeiteiros, chefs de cozinha, motoristas, engenheiros, programadores e por muitos outros especialistas. Em outra lista sobre a mesa de Saveliev há dezenas de contatos de moradores comuns, dispostos a abrigar os refugiados. E, por fim, há uma terceira lista que contém dados de deputados, ativistas sociais e advogados que prometem ajudar os ucranianos com a formalização de documentos, educação das crianças e atendimento médico.

60 dias de adaptação

"Os moradores locais trazem roupas quentes, alimentos, equipamentos eletroeletrônicos e utensílios domésticos necessários para os refugiados", conta Saveliev, que doou uma máquina de lavar roupa aos ucranianos. De acordo com ele, nenhum refugiado é deixado na rua: as pessoas são alojadas em residências privadas e em albergues institucionais. Habitantes da unidade federativa Sverdlovskaia, localizada a 1.500 quilômetros da fronteira russo-ucraniana, já depositaram mais de 3 milhões de rublos (R$ 180 mil) em uma conta beneficente em prol da ajuda aos refugiados.

Também não há problemas para arrumar emprego. “O Departamento de Trabalho e Emprego tomou os imigrantes sob sua tutela e até organizou para eles uma seção separada no site do órgão. Na unidade federativa há cerca de 56 mil vagas”, explica Saveliev. O período mais difícil para os refugiados são os primeiros 60 dias de estadia na Rússia. Esse é justamente o prazo necessário para obter uma autorização de residência temporária, sem a qual é impossível ser contratado formalmente.

Dificuldades burocráticas

Aleksandr Zanótchkin, um treinador de sambo (luta que mistura elementos de várias artes marciais, originalmente desenvolvida na URSS no início do século 20 e que foi reconhecida como esporte) da mais alta categoria, famoso nos Urais, disponibilizou para uma família de refugiados da região de Lugansk a sua casa de veraneio na cidade de Artemovski (a 94 km de Iekaterimburgo), com 2.000 metros quadrados de área verde, e seus parentes emprestaram um automóvel Gazel (tipo de van russa). O próprio treinador reside e trabalha em Iekaterinburgo. "Eu lhes disse: fiquem o tempo que precisarem, vão ajeitando a vida de vocês. Entendo como é difícil para as pessoas começarem do zero e ajudei da maneira que pude”, explicou à Gazeta Russa.

A família ajudada pelo treinador veio de Tchervonopartizansk, a “cidade dos mineiros", localizada na fronteira com a Rússia. O mineiro Vladimir, de 29 anos, chegou com a esposa grávida e dois filhos de 2 e 5 anos, e com o primo de 21 anos, também um mineiro. Quando os tanques e os “batalhões de voluntários” ucranianos se aproximaram da cidade, eles pegaram as crianças, cruzaram a fronteira russa de carro e acabaram chegando a Iekaterinburgo. Ali, o chefe da Casa da Amizade Russo-Ucraniana, Piotr Scherbina, os ajudou a se instalar na cidade. Durante o primeiro mês, a família viveu em um local de residência temporária para refugiados na cidade de Kamensk-Uralski, onde realizou exames médicos e formalizou documentos.

"Aqui as pessoas tratam bem os refugiados ucranianos, os vizinhos ajudam dando coisas, indicam onde se pode ganhar um dinheirinho, trazem batatas, cebolas e cogumelos”,  conta à Gazeta Russa Vladimir. De acordo com ele, o principal problema está no fato de que a formalização da autorização de residência temporária na Rússia leva muito tempo. Enquanto aguardam a autorização para ter um emprego formal, os rapazes conseguem recursos para viver através da realização de trabalhos ocasionais: ajudam as pessoas a reformar alguma coisa, a transportar alguma carga.

As crianças e o estudo 

Há muitas crianças entre os refugiados, e com o início do ano letivo (na Rússia e na Ucrânia, ele começa no dia 1º de setembro), a questão da possível continuação do ensino dos jovens ucranianos em outro país se impôs de maneira pungente. De acordo com o gabinete do Provedor de Justiça para os Direitos da Criança da unidade federativa Sverdlovskaia, as escolas estão aceitando os jovens ucranianos sem qualquer problema. Uma série de Instituições de ensino superior dessa região disponibilizou bolsas de estudo para os imigrantes, particularmente a Universidade Federal do Ural e a Universidade de Engenharia Florestal do Ural.

Há três meses Svetlana Maksimkina fugiu de Donetsk com sua mãe e sua filha. Enquanto  esperavam pela autorização para residência temporária, a sorte sorriu para elas. Com a colaboração de Iúri Saveliev, Ana, a filha de Svetlana, de 20 anos de idade, conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade Estatal de Economia do Ural. Agora mãe e filha estão planejando obter a cidadania russa.

Mas, a situação torna-se muito mais complexa quando se trata de colocar as crianças nas creches: praticamente não há vagas, os próprios moradores locais ficam aguardando por anos em filas de milhares de pessoas. Enquanto colocar uma criança de 5 anos no jardim de infância é praticável, arrumar uma vaga para um bebê de 2 anos em uma creche é quase impossível. Por enquanto, as autoridades sugerem que os refugiados enfrentem esse problema em conjunto, ou seja, se organizem para que uns possam tomar conta dos filhos dos outros de maneira coordenada.

Porém, esse esquema não funciona. Justamente porque não foi possível deixar o seu filho com alguém que Anna, de 38 anos, também de Tchervonopartizansk, recusou uma proposta de emprego na fábrica de Kamensk-Uralsk. Outro motivo foi o salário demasiado baixo (10 mil rublos ou R$ 616).

Mesmo assim a fábrica acomodou a família em um abrigo institucional, onde a mãe e a criança são regularmente alimentadas e recebem tratamento de saúde e os medicamentos de que necessitam. O Comitê Sindical da fábrica também disponibiliza para a refugiada mil rublos (cerca de R$ 60) por semana para pequenas despesas.

Em meados de outubro, Anna irá receber uma autorização para asilo temporário na Rússia, pelo prazo de um ano. De acordo com Anna, ela e o filho saíram de casa com apenas duas sacolas de roupas leves de verão. "Ao deixar a Ucrânia não pensei que poderia ir parar tão longe de minha pátria. Mas não tenho intenção de voltar, quero obter a cidadania russa e ficar aqui", diz.

 

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