Colegas recordam trabalho de Andrêi Stênin, morto na Ucrânia

“Parecia que Andrêi só vivia verdadeiramente lá, debaixo de fogo" Foto: Vassíli Maksímov/RIA Nóvosti

“Parecia que Andrêi só vivia verdadeiramente lá, debaixo de fogo" Foto: Vassíli Maksímov/RIA Nóvosti

Os colegas e amigos do repórter fotográfico da agência internacional de notícias Rossia Segodnia, que foi morto na Ucrânia, recordam-no como um verdadeiro profissional que gostava do trabalho no front. Foi ele que escolheu a perigosa profissão de fotógrafo de guerra –para registrar acontecimentos históricos que tiram as vidas de pessoas comuns.

Andrêi Sténin partiu em maio deste ano para cobrir o conflito na Ucrânia, transmitindo diariamente dezenas de fotografias para a redação. Ele deixou de entrar em contato a 5 de agosto. No final do mês, entre os automóveis bombardeados e queimados na estrada entre Snéjnoe e Dmítrovka, foi descoberto um Renault Logan com os corpos de três pessoas. A perícia determinou que um deles era de Sténin.

Em Slaviansk, Sténin dividia o quarto de hotel com o amigo Dmítri Steshin, repórter do jornal “Komsomólskaia Pravda”. Ele o recolheu de um edifício bombardeado, onde Andrêi alugava um apartamento e já não havia mais ninguém além dele.

“Nós viajávamos juntos a trabalho. Depois eu regressei e nunca pensei que o veria pela última vez”, recorda Stéchin. “Voltei a Moscou e nós nos comunicávamos por escrito todos os dias. Ele contava coisas horríveis, dava pra perceber que a situação era muito ruim. Para um jornalista era muito difícil trabalhar ali. Mas ele não conseguia ficar parado.”

Sténin não conseguia realmente ficar parado: antes de Slaviansk ele esteve na Síria, na Faixa de Gaza, nas barricadas e acampamentos de barracas no Maidan, no Egito, na Líbia, no Quirguistão e na Turquia. Quando não estava viajando a trabalho, ele fotografava comícios não autorizados e processos criminais, situações de emergência e distúrbios de rua.

Esperança até ao fim

Sténin ficou quase três meses no distrito de Donetsk, onde filmou as consequências dos bombardeios de artilharia em cidades e povoados no leste da Ucrânia: incêndios e destruição de casas, hospitais, vendas, supermercados, igrejas, civis e crianças feridos e o enterro dos mortos.

Ele enviou suas últimas fotografias para a redação em 5 de agosto. Elas mostram habitantes de Shakhtersk aguardando o fim de um bombardeio de artilharia na entrada de um prédio de habitação, as consequências dos bombardeios da cidade e uma estátua de Lênin danificada por estilhaços.

Até ao último momento, os amigos e colegas de Sténin tiveram esperanças de que ele estivesse vivo.

Debaixo de fogo

“Parecia que Andrêi só vivia verdadeiramente lá, debaixo de fogo, com os estrondos dos bombardeios, na guerra. Aqui, em Moscou, ele parecia se aborrecer e na primeira oportunidade viajava para mais um ponto quente de onde trazia suas fotografias”, recorda a editora fotográfica Ekaterina Novikova. “Todos nós sabíamos que, quando necessário, Sténin largava tudo e num instante estava de partida para onde os editores quisessem enviá-lo, de dia ou de noite, isso não importava.”

Segundo outra colega, Natália Seliviórstova, pessoas como ele merecem respeito: pela inteligência sóbria e pelo sangue-frio em quaisquer circunstâncias, o que é especialmente importante para o trabalho de um fotógrafo. 

“Ele é um dos poucos repórteres fotográficos que estava disposto a arriscar sua vida em pontos quentes. Era muito fácil trabalhar com ele, era um excelente amigo e companheiro”, diz Seliviórstova.

 

Publicado originalmente pelaVoz da Rússia

 

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