"Hoje o terrorismo virou um negócio", diz veterano de divisão antiterrorista russa

"O maior problema de hoje é que o terrorismo se tornou um negócio" Foto: ITAR-TASS

"O maior problema de hoje é que o terrorismo se tornou um negócio" Foto: ITAR-TASS

Para Serguêi Gontcharov, controle da internet é essencial no combate a esse tipo de ataque.

Na véspera do 10 º aniversário do ataque terrorista em Beslan, que causou a morte de mais de 300 pessoas, a Gazeta Russa entrevistou o presidente da Associação de Veteranos da Subdivisão Alpha, Serguêi Gontcharov. A Alpha é uma subdivisão do Serviço de Segurança Federal russo, cuja missão é impedir atos de terrorismo, fazer o resgate de reféns e participar de outras operações de grande complexidade. Junto com a subdivisão Vímpel, a Alpha é considerada um dos departamentos de missões especiais mais experientes e eficientes do mundo.

Houve progressos significativos nos serviços de segurança russos na luta contra o terrorismo após a captura dos reféns em Beslan?

Não posso dizer que após Beslan  todos os procedimentos de combate ao terrorismo na Rússia melhoraram. Ainda há atos terroristas, e no Cáucaso do Norte permanece a mesma luta de forças especiais contra grupos criminosos. Porque ela não está em destaque? Porque agora todas as manchetes são dedicadas aos acontecimentos na Ucrânia.

Há aspectos positivos. Lembre-se que, quando ganhamos as Olimpíadas de Sôtchi, o problema principal apresentado por nossos adversários e inimigos políticos era a proximidade de Sôtchi ao Cáucaso, eles duvidavam que a Rússia fosse capaz de realizar os Jogos Olímpicos com segurança. Nossas subdivisões antiterroristas envolvidas na segurança dos Jogos Olímpicos apresentaram a maior eficiência e provaram que podemos realizar esse tipo de evento. Esse fato me convenceu de que hoje em dia temos forças e meios suficientes para poder combater o terrorismo no território da Rússia.

Quais unidades agora estão envolvidas nesse trabalho?

Na Rússia há um Centro de Operações Especiais que inclui três subdivisões.  A primeira é a Alpha, a segunda é a Vímpel e o departamento de operações especiais é o terceiro. Esse centro é a principal estrutura que opera na área de combate contra o terrorismo. Além disso, a Rússia tem forças especiais com missões específicas, por exemplo, as subdivisões de combate  ao terrorismo no Ártico e nas montanhas.

Quais medidas ajudaram a melhorar a luta contra o terrorismo na Rússia ao longo dos últimos dez anos?

O aumento do trabalho do serviço de inteligência ajudou muito. O terrorismo não pode ser combatido apenas com a força ou com ações militares. A eficácia na luta contra os terroristas se explica principalmente pelos trabalhos de alto nível de inteligência. Francamente, eu não acho que tenhamos chegado a um nível de alto profissionalismo ou que temos bom resultado no trabalho dos serviços de inteligência no Cáucaso do Norte. Todos sabem das particularidades da região e trabalhar lá é muito difícil.

Ajudou também o fortalecimento das subdivisões que eu já mencionei. O Centro de Operações Especiais foi reforçado não só por profissionais competentes, como também tecnicamente, e o mais importante é que em quase todas as regiões do país foram criadas agências do centro.

Como você avalia os acontecimentos atuais na Ucrânia? 

Se o presidente [deposto Víktor Ianukovitch] tivesse tomado medidas mais firmes com relação ao grupo Maidan, não haveria revolução e ele poderia permanecer no poder. Mas como ele queria comer peixe e não engasgar com a espinha, ele quis obter garantias para sua segurança sem ser um ditador. Como resultado, ele recebeu aquilo que aconteceu. Nesse sentido, creio que durante a repressão de manifestantes na praça Bolotnaya, em Moscou, a nossa polícia agiu dentro de certos limites. As medidas foram adequadas e atuais.

De que forma os acontecimentos na Ucrânia afetarão as forças especiais russas?

Em todo o mundo estão ocorrendo guerras locais que envolvem forças especiais, portanto atualmente todos os países, inclusive a Rússia, têm por objetivo principal seu desenvolvimento. Assim fazem os americanos, os russos, os ingleses e os franceses. Portanto, as forças especiais, enfraquecidas por Serdyukov [Anatóli Serdiukov, ministro da Defesa], serão renovadas. E no futuro teremos forças especiais de nível igual às dos americanos. Essas forças também estarão envolvidas na luta contra o terrorismo.

Como o senhor avalia a luta contra o extremismo na Rússia?

Quando se trata do trabalho operacional do Ministério do Interior e do FSB (Serviço Federal de Segurança), ela funciona muito bem, com especial sucesso na prevenção. Se um cidadão preocupa os serviços de inteligência com seus apelos a uma mudança de governo e à queda da ordem constitucional, ele enfrenta conversas preventivas, ou, no mínimo recebe advertências. Não podemos fechar o enorme nicho da internet ou bloquear todos equipamentos técnicos que temos no mundo. Não só nós, mas ninguém conseguiu fazê-lo. Precisamos fazer de forma diferente, como na China: proibir tudo e então aí teremos algum resultado. Mas não estamos preparados para isso.

É preciso controlar a Internet?

Na internet você pode encontrar tudo: como fazer uma bomba, como se preparar para ser um atirador de elite. Tudo isso está na internet. Portanto, todos esses sites devem ser proibidos.

Por que isso não foi feito antes?

Parece-me que antes não estávamos tecnicamente preparados para isso. E é um passo na direção certa.

Por que o terrorismo ainda não foi derrotado?

O maior problema de hoje é que o terrorismo se tornou um negócio. Não é apenas um crime, é um negócio que movimenta bilhões de dólares. As pessoas começaram a fabricar terroristas. Se antes eles eram movidos por ideias, agora eles são movidos por dinheiro. Tome o caso da Síria, por exemplo. De um lado, cerca de 500 militantes do norte do Cáucaso estão lutando lá para ganhar dinheiro. Outros combatentes estão lutando de outro lado, também por dinheiro e não por ideias. Existe apenas um alinhamento financeiro claro.

 

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