Medo de sanções leva operadoras de turismo russas à falência

O número de turistas russos em resorts europeus e asiáticos diminuiu em várias vezes Foto: PhotoXPress

O número de turistas russos em resorts europeus e asiáticos diminuiu em várias vezes Foto: PhotoXPress

Quebra simultânea de algumas agências deixam 6.000 russos sem conseguir voltar para casa após viagens.

A indústria de turismo russa foi atingida por uma crise relâmpago. Em três semanas, oito operadoras foram à falência, prejudicando cerca de 100 mil turistas russos, sendo que uma parte deles não conseguiu retornar até agora à sua terra natal. Especialistas apontam como principais causas para a crise fatores econômicos e políticos e o impacto das sanções dos EUA e da União Europeia.

De acordo com dados da Agência Federal de Turismo, Rosturism, atualmente cerca de 6.000 russos afetados pela suspensão das atividades das agências de viagens permanecem no exterior, mas esse número chegou a 25 mil no início da crise. Em sua magnitude, o colapso do mercado de turismo pode ser comparado ao ano de 2009, que sucedeu a crise econômica de 2008 e foi um dos mais desastrosos da história da indústria de viagens russa.

Efeito psicológico das sanções

A onda de falências deste ano começou a partir de meados de julho, quando a empresa Neva, uma das maiores e mais antigas operadoras de turismo da Rússia, anunciou falência. De acordo com dados divulgados em seu site oficial, a agência de viagens enviava anualmente mais de 720 mil turistas em voos fretados para um grande número de destinos. No momento do anuncio da falência, 7.000 pessoas estavam passando férias no exterior, utilizando os pacotes de viagens da Neva. A crise foi coroada com a falência da empresa Labirinto, que afetou 60 mil turistas.

Irina Tiurina, assessora de imprensa da União Russa da Indústria de Viagens (RST, na sigla em russo) acredita que a principal causa da onda de falências no mercado turístico é o cenário político instável. A situação foi agravada pelo drástico crescimento das taxas de câmbio e pelo receio das sanções, que muitos russos pensaram ser dirigidas contra eles e, por isso, julgaram antecipadamente que a Europa iria restringir a emissão de vistos, embora isso não tenha acontecido.

O número de turistas russos em resorts europeus e asiáticos diminuiu em várias vezes. Na avaliação de Irina Schegolkova, representante da Rosturism, a demanda para os resorts no exterior caiu de 20 a 25%.  Além disso, os russos estão com medo de ficar sem dinheiro no exterior, seja por causa do risco de falência da operadora turística, seja porque seu banco pode ser submetido às sanções e bloquear seu cartão de crédito. "Esse é um sinal muito preocupante e que indica a presença de problemas na indústria de turismo”, diz Schegolkova.

Princípio da pirâmide

Entretanto, o principal problema é econômico. A indústria do turismo na Rússia possui uma margem de lucro baixa, de 3,5% em média. "É um negócio que depende de fluxo, e como qualquer atividade semelhante, envolve planejamento de longo prazo e gestão de risco”, diz o diretor geral da companhia de viagens Multitur, Aleksêi Visokanov.

Na realidade, muitas empresas compram blocos de lugares em voos fretados por outras empresas e reservam lugares em hotéis, superestimando fortemente o volume do fluxo de turistas. É justamente por isso que no mercado há uma enorme quantidade de ofertas de última hora (pacotes que estão sobrando e por isso são vendidos com desconto), que não geram lucros para a empresa. Se a quantidade de tais ofertas se mantém dentro de 15 a 20% do volume de negócios da agência de viagens, ela ainda pode permanecer operando, mas de acordo com os especialistas, atualmente as ofertas de última hora já representam cerca de 50% dos pacotes de viagens, o que é muito crítico para os negócios dessas empresas.

Ainda segundo observações de especialistas, foi justamente neste ano que os turistas russos começaram a abandonar com maior frequência a prática de reservas antecipadas, preferindo comprar os tours poucos dias antes da data marcada para o voo. Alguns citam ainda mais uma causa para as falências: os turistas aprenderam a reservar hotéis, obter vistos e comprar as passagens de forma independente, sem precisar da ajuda de operadoras.

No entanto, existe mais uma versão, não oficial, do que aconteceu: supostamente, essas falências foram intencionais e uma série de “falidos” na verdade simplesmente resolveu sair de um ramo de negócios que deixou de ser rentável.

Formato rígido

Após a sequência de falências surgiu a questão da necessidade de reformas nesse setor. Um grupo de trabalho do governo já foi criado com esse objetivo. A Agência Federal de Turismo da Federação Russa propõe reduzir o número de companhias no mercado.  Já se sabe que serão analisadas propostas de aumento do limite para a entrada de novas empresas e, em particular, de aumento do capital social por ocasião do registro das companhias, bem como propostas de aumento das contribuições para a associação Turpomoch (associação de operadoras turísticas, que presta assistência emergencial aos turistas que vão para o exterior, N. do E.) e de introdução da obrigatoriedade de alguns tipos de licenças para as empresas. Atualmente, para atuar na área do turismo só é necessária uma licença.

 

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