Sibéria é palco do Chamado dos Xamãs

O xamã disse que as próprias pessoas, quando realmente precisam de ajuda, conseguem encontrá-lo Foto: Aleksandr Kriajev / RIA Nóvosti

O xamã disse que as próprias pessoas, quando realmente precisam de ajuda, conseguem encontrá-lo Foto: Aleksandr Kriajev / RIA Nóvosti

Entre os presentes ao festival “O Chamado dos Xamãs”, estiveram feiticeiros do México, Groelândia, Mongólia e Coreia do Sul.

Estamos sentados no que eu gostaria de chamar de seu escritório - essa, porém, não seria a palavra apropriada para designar o local. O cômodo está decorado com pinturas e objetos usados em rituais: na parede, em frente à escrivaninha, estão pendurados ícones ortodoxos; no canto, há um traje de xamã feito de pele de lobo, e o principal atributo de um feiticeiro: um tambor. 

O esotérico Mark Gusliakov, uma das figuras-chaves do festival internacional de feitiçaria “O Chamado dos 13 Xamãs”, recebeu a Gazeta Russa de camiseta e bermudas para falar sobre o evento. Realizado no mês passado na Sibéria, o festival teve entre seus convidados líderes tribais do México, Groenlândia, Mongólia e Coreia do Sul.

“Os moradores locais faziam filas para pediam ajuda aos esotéricos ali reunidos”, conta Gusliakov. Segundo ele, metade dos que lhes buscavam tinham problemas espirituais que provocaram mortes na família.

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“As pessoas não tinham nada para dar em troca do tratamento, mas era impossível recusar ajuda. Por gratidão, elas deixavam o que tinham: comida, notas de 50 rublos [cerca de três reais], objetos pessoais. No dia seguinte, elas telefonavam para agradecer, porque sentiam que sua vida estava mudando”, conta a companheira de Gusliakov, Iúlia.

Os treze eleitos

O festival de xamãs foi um marco para as pessoas envolvidas em práticas espirituais. Gusliakov foi um dos 13 eleitos do evento organizado pelo xamã da república russa de Tuva, Nikolai Oorjak. “Não sabíamos que nosso encontro iria ocorrer em um período em que vários conflitos armados ocorriam simultaneamente no mundo”, diz. 

“A missão do evento foi perguntar ao grande espírito o que irá acontecer com a humanidade e com o planeta, além de reunir os xamãs de todo o mundo. Atualmente muitas pessoas estão envolvidas em práticas espirituais, mas existe uma rivalidade, uns não aceitam as tradições dos outros”, afirma.

Oorjak conta que, durante o festival, aconteceram verdadeiros milagres. “Os participantes do evento estavam nas montanhas, a uma temperatura entre os 40 e 50 graus - calor excessivo até mesmo para os locais. Em meio a essas circunstâncias, os xamãs subiram para um retiro de três dias. Muitos não levavam água. Então um xamã da Mongólia trouxe vasilhas vazias, começou a tocar o tambor e acantar canções rituais e, depois de três minutos, caiu uma chuva muito forte. Foi uma manifestação de xamanismo muito antiga.”

Ermitão podólatra?

Iúlia diz que as coisas são difíceis para os xamãs na Rússia, e eles precisam de ajuda. “Ninguém apoia essas pessoas. Em outros países muitos xamãs são protegidos pelo Estado e até mesmo pela Unesco, como patrimônio cultural da humanidade”, diz. 

Ela acrescenta que os xamãs precisam de recursos para viajar a lugares onde suas energias possam ser recarregadas. Segundo seu companheiro Gusliakov, existe em Moscou vive um número considerável de pessoas que realmente podem tratar doentes por meio de sua energia. 

Para ele, a maioria dos xamãs que dão entrevistas, publicam textos em jornais e mantêm blogs são na verdade charlatões.

Gusliakov não gosta de se encontrar com jornalistas e não tem um site próprio na internet. Ele nasceu no Cazaquistão, país ao sul da Rússia, e recebeu sua primeira iniciação como xamã aos cinco anos de idade. 

“As pessoas sempre são atraídas por algo: desenhar, compor música... Eu, pela cor da pele, formato e aspecto dos dedos dos pés, posso descobrir que tipo de doenças crônicas as pessoas têm, onde viveram seus antepassados etc. E não precisei aprender a fazer isso. Todos meus antepassados eram curandeiros e faziam rituais. Meu próprio sobrenome, Gusliak, significa feiticeiro”, diz. 

O xamã diz que, quando realmente precisam de ajuda, as pessoas conseguem encontrá-lo sozinhas. 

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“Tenho recebido mendigos, ricos, pobres, desafortunados, alcoólatras. Minha tarefa é ajudar as pessoas, e estou fazendo tudo o que posso”, diz.

“Uma vez por dia meu corpo se contrai em convulsões por 15 a 20 minutos, sempre no mesmo horário. Nesse estado, a realidade se transforma, e são necessárias forças extraordinárias para retornar.”

Internet contra intuição

Gusliakov está convencido de que o xamanismo é algo genético. “Existem certas coisas que você pode sentir aqui mesmo, sem trajes e sem fogo ritual, sem canto e rezas: está dentro do corpo”. 

Antigamente, os xamãs eram identificados por características físicas determinadas, como cor dos olhos e padrão das veias, mas essas tradições se perderam. 

“O Xamanismo não consiste em escrever livros, e sim em desenvolver os sentidos. Todas as pessoas têm sete sentidos, pois além dos cinco habituais há ainda a clarividência e a intuição. O curioso é que agora o ser humano está reprimindo esses dois últimos sentidos. Os nossos antepassados faziam uso deles, em vez da internet e do telefone. Eles sentiam e entendiam uns aos outros à distância”, concluiu ele.

 

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