A geração dos anos 90 na Rússia

As pessoas nascidas a partir dos anos 70 até 1983 fazem parte da geração X – ativa, de imaginação forte que busca criar o seu próprio futuro Foto: RIA Nóvosti

As pessoas nascidas a partir dos anos 70 até 1983 fazem parte da geração X – ativa, de imaginação forte que busca criar o seu próprio futuro Foto: RIA Nóvosti

A penosa década de 90 na Rússia deu origem a uma geração ativa de jovens, que focam no seu futuro e querem torná-lo melhor, participando de manifestações, enfrentando a burocracia estatal e se educando como cidadãos.

Os cientistas sociais da Academia de Ciências da Rússia compuseram um retrato da nova geração de russos: eles têm pouco mais de 30 anos, moram nas grandes cidades e não vivem sem internet. Os dados fazem parte de um profundo estudo intitulado “Ativismo cívico: os novos sujeitos da atividade político-social”, publicado no final de junho e composto principalmente por extensas pesquisas de opinião realizadas durante o mês de março deste ano.

Os cientistas sociais procuraram definir na monografia as características desta geração crescida nos anos 90.

“Devido às transformações da sociedade russa, é possível definir simbolicamente a geração da década de 90, composta por indivíduos que viveram sua juventude na última década do século passado, tornando-se suscetíveis ao aumento do ativismo político-social (até 1987 não se observava tais fatos). As alterações geopolíticas que a Rússia enfrentou, bem como as profundas reformas econômicas e socias, influenciaram no cotiano das pessoas, lançando base para uma nova configuração da socialidade e acentuando as diferenças entre as gerações”, expõe em um trecho do estudo Vladímir Sibirev, PhD em economia, docente da Universidade Estatal de São Petesburgo, em coautoria com Nikolai Golovim, PhD em filosofia.

Teoria das pequenas empresas

O período que mais “educou” essa geração foi o da Perestroika. Foi o momento em que a União Soviética, bem protegida do restante do mundo atrás da Cortina de Ferro e guiando-se pelas exigências da Guerra Fria, teve de abrir suas fronteiras após a chegada ao poder de Mikhail Gorbachev, em 1985. Muitas pessoas começaram a ter uma postura desconfiada em relação à propaganda oficial comunista e voltaram sua atenção ao Ocidente. Os mais impressionáveis neste tempo foram os adolescentes.

“Eu tinha 5 ou 6 anos quando ganhei do meu pai uma pequena garrafa de Coca-Cola, que foi dividida milimetricamente entre eu e meu irmão. Aquilo foi a coisa mais gostosa que eu havia provado até então”, relembra Andrêi Kiselev, administrador de sistemas de um grande banco russo. Andrêi tem 30 anos, é casado e tem uma filha.

Com a queda da Cortina de Ferro, as prateleiras dos mercados estavam vazias e os únicos carros importados nas ruas eram de propriedade de grandes funcionários estatais ou de mafiosos.

“Para nós, não havia diferença entre eles. Apesar dos funcionários andarem de carrões importados, as cidades estavam totalmente devastadas: condomínios sujos e sem reformas, ruas esburacadas e sem iluminação. Não adiantava apelar às autoridades”, relata Andrêi.

Durante seus estudos na faculdade, Andrêi e seus amigos organizaram um fórum online para os moradores de sua cidade natal –Odintsovo. Lá eram debatidos todos os problemas comuns à comunidade –desde lâmpadas queimadas em postes até negócios ilegais. Através do fórum era possível obter atenção para seus problemas e tomar conhecimento das dificuldades enfrentadas pelas outras pessoas, bem como organizar abaixo-assinados. De acordo com Andrei, raramente algum representante estatal participava das discussões, mas a partir do ano 2000 o fórum se tornou um grande portal eletrônico e o governo já não pôde mais ignorá-lo.

“Eu e meus amigos não recebemos nada por este trabalho. A receita gerada por propaganda servia para pagar a hospedagem do site. Entretanto, é bom saber que conseguimos mudar as coisas para melhor”, diz Andrêi.    

Já Tatiana Lapina diz não perder uma única manifestação da oposição em Moscou desde dezembro de 2011. Quando manifestantes ocuparam o centro da capital com tendas e barracas naquele ano, Tatiana dormia lá depois do trabalho.

“Eu não sou contra o Estado, bem como não apoio atos violentos, mas acho que estas manifestações devem sempre ocorrer. Naquela ocasião eu ia de tenda em tenda, convencendo as pessoas a ficarem e não desistirem. Para tanto, cheguei a comprar guarda-sóis e cadeiras de praia para os organizadores”, relembra a moscovita de 30 anos de idade.

Sua amiga de 31 anos Anna Voronkova acredita ser capaz de mudar a sociedade russa. Ela dirige um projeto para promover a tolerância entre crianças e adolescentes por meio de histórias em quadrinhos. Anteriormente, ensinava língua russa a estrangeiros na Universidade Russa Amizade dos Povos.

“Uma vez fiquei sabendo que alguns de meus alunos negros foram espancados na rua e eles achavam que aquilo era normal na Rússia. Outra vez um amigo próximo apanhou somente por estar usando dreadlocks na cabeça”, relata Anna.

Desde então, ela decidiu ensinar tolerância aos cidadãos. Passados quatro anos, promove o respeito mútuo através dos quadrinhos e de visitas a escolas, onde convence professores a conduzirem “aulas de tolerância”. 

“Nessas aulas, o método de ensino consiste em fazer com que os alunos criem uma história de quadrinhos onde eles são os personagens principais de uma história envolvendo imigração. Ou seja, devem imaginar uma situação onde são estrangeiros. O objetivo é aguçar o sentido crítico das crianças, principalmente em relação aos imigrantes de outros países e outras partes da Rússia que povoam atualmente Moscou”, explica Anna.

A autora já conduziu suas aulas de tolerância em várias cidades da Rússia e já visitou três centros de detenção juvenil. O programa despertou interesse da União Europeia, que forneceu fundos a ela e a dois amigos para abertura de dois escritórios de representação do projeto em São Petesburgo e no Norte do Cáucaso.

Os resultados da pesquisa realizada pelos cientistas russos são comparáveis ao dos pesquisadores norte-americanos Neil Howe e Willian Strauss, que criaram a “teoria das gerações”. As pessoas nascidas a partir dos anos 70 até 1983 fazem parte da geração X – ativa, de imaginação forte que busca criar o seu próprio futuro.

“São jovens que cresceram em novas condições socioeconômicas. Seus interesses e valores entram em conflito com aqueles de seus pais. Não estão sobrecarregados com o peso do passado e diferenciam-se de acordo com a relevância de determinados valores pessoais. São pessoas que compõe uma geração de sucesso. A próxima geração, a chamada Y, é aquela onde os jovens consideram que o futuro já chegou e preferem viver o presente”, afirma o doutorando em sociologia da Universidade de Moscou, Borís Grigorenko.

 

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