Vida nova para a Crimeia

O setor de turismo sempre foi a principal fonte de renda para os moradores da península Foto: Serguêi Moskvitchev

O setor de turismo sempre foi a principal fonte de renda para os moradores da península Foto: Serguêi Moskvitchev

Três meses depois da anexação da península ao território russo, moradores locais ainda se adaptam às mudanças de moeda e legislação. Correspondente da Gazeta Russa visitou os vilarejos da região para conhecer melhor a nova rotina da população crimeana.

Começou o mês de julho e a temperatura local já chega a 25°C  na sombra. Em um posto de gasolina ao longo de uma das principais estradas crimeanas, encontro um proprietário de um Lada Priora velho, fruto da indústria automotiva russa, que tenta desviar o seu olhar do sol enquanto enche o tanque do automóvel. Logo percebo que o banco traseiro do carro está tomado por caixas cheias de morangos suculentos.

“Este ano houve uma grande safra, portanto, me vejo obrigado a baixar o preço para 1,5 dólares, contra os habituais 2,5 ou 3,5”, lamenta o vendedor Rachid, tártaro crimeano cuja família administra um negócio agrícola há 20 anos. Entre 5 e 6 da manhã, Rachid passa pelos vilarejos, deixando as caixas vazias apenas para buscá-las duas horas mais tarde cheias de frutas doces.

O negócio do pequeno empresário consiste na compra e revenda de produtos aos atacadistas de grandes cidades por um preço de 3 a 5 vezes maior.  “Todas as transações no mercado popular são efetuadas em rublos, os preços em grívnia [moeda nacional da Ucrânia] são anunciados apenas por costume. Mas mesmo assim tenho algumas economias em euros para qualquer emergência”, explica Rachid.

A adesão da Crimeia à Rússia pouco mudou a rotina do empresário, que depende mais do volume da safra do que das novidades políticas. Suas atividades, assim como de muitos outros residentes da península, donos de pequenos e médios negócios, estão somente ligadas à produção agrícola e constituem a base da economia crimeana.

Mercado turístico

Todas as pessoas jurídicas já registradas na região são obrigadas a se recadastrar nos órgãos correspondentes, estudar a nova legislação fiscal e abrir contas em bancos russos. Apesar das dificuldades no início do processo, essas tarefas já são consideradas relativamente simples, devido à abertura de 300 representações das instituições financeiras russas. 

“Anteriormente, efetuávamos todas as operações pelo escritório em Kiev em nome de uma empresa ucraniana. Para que possamos transferir os pagamentos aos spas na Crimeia, precisávamos firmar os contratos contando com a sua mediação”, explica Aleksêi Visokanov, presidente do grupo das empresas Multitur, especializada em pacotes turísticos para os destinos na Comunidade dos Estados Independentes desde 1997.

“Agora podemos trabalhar com os nossos parceiros crimeanos diretamente. A única diferença é o maior volume de papelada exigido pela legislação russa, que traz algumas dificuldades. Quando começamos a interagir com os hotéis da Crimeia sem intermediários, ninguém deles conhecia as condições padrão da colaboração com as empresas russas, o que facilitou a celebração de acordos conforme nossas próprias condições”, acrescenta Visokanov.

O setor de turismo sempre foi a principal fonte de renda para os moradores da península, mas, a partir de agora, as administradoras que apostam na oferta dos serviços de qualidade pelos preços acessíveis notam a existência de potencial para o seu futuro desenvolvimento. Isso obriga as empresas locais a sair da informalidade e ampliar a oferta mediante a crescente concorrência.

Crimeano nativo e proprietário de um pequeno hotel de 6 quartos no povoado Uglovoe, Nikolai era um desses pequenos empresários que administrava o estabelecimento de maneira ilegal e sem pagar impostos. “Não posso mais alegar que todos os seis quartos do estabelecimento são ocupados por amigos meus”, diz Nikolai, preparando-se para as visitas dos fiscais da receita federal.

Salários e preços

Os cigarros vendidos na região ainda não deixam de pagar os antigos impostos de consumo, porém custam de 15 a 20% mais barato do que na unidade federativa vizinha, em Krasnodar. No início do segundo trimestre do ano, o fenômeno atraiu uma quantidade inédita de revendedores. “Entre fevereiro e março, chegaram muitos empresários de Sevastópol, que compravam as caixas inteiras de cerveja e cigarros e partiam no mesmo dia”, conta Aleksêi Visokanov.

O conteúdo das prateleiras de supermercados locais sofreram poucas mudanças, fora o desaparecimento gradual dos bombons ucranianos. No entanto, com o receio de os produtos fabricados na Rússia não os agradar, muitos moradores começam a criar estoques caseiros das suas marcas preferidas de açúcar, massas e cereais de fabricantes ucranianos.

“À primeira vista, pode parecer que a variedade de produtos não diminuiu, porém temos menos opções de macarrão”, lamenta um cliente de um supermercado local. “Se recebemos na península uma rede de varejo que ofereça produtos de qualidade superior, a diversidade será maior, porém os preços se tornarão inacessíveis.”

As recentes mudanças já influenciaram o valor de carne: um quilo de bife não é vendido por menos de 10,4 dólares. “A alta dos preços deve-se à suspensão das atividades dos principais fornecedores de carne de Lugansk no leste ucraniano, cujas fazendas foram bombardeadas ou simplesmente fechadas”, explica o consumidor.

Antes da anexação da Crimeia, os preços de frutas e produtos da cesta básica eram de 15 a 20% inferiores. Embora nem todos os salários tenham na mesma proporção, muitos locais se beneficiaram das novidades. Por exemplo, em fevereiro passado, o policial ucraniano Mikhail ganhava o equivalente a US$ 356 e já pensava em se aposentar nos próximos três meses. No entanto, em abril, foi promovido a um cargo no órgão policial da Rússia, pelo qual receberá um salário de aproximadamente US$ 1.760.

 

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