Deputados sugerem multas a russos que usarem palavras estrangeiras

Alvo principal da medida são os anglicismos na mídia Foto: Getty Images

Alvo principal da medida são os anglicismos na mídia Foto: Getty Images

Representantes do Partido Democrático Liberal da Rússia (PDLR) propuseram a introdução de multas pela utilização excessiva de estrangeirismos no discurso cotidiano. Iniciativa foi reprovada tanto por outros partidos, como pelo público em geral.

Preocupados com a pureza do idioma, os deputados do PDLR  (LDPR na sigla em russo) apresentaram para análise da Duma de Estado (câmara dos deputados na Rússia) um projeto de lei que estipula multas por uso excessivo de palavras estrangeiras na língua russa.

De acordo com os autores da norma, as palavras estrangeiras que possuem análogas na língua nacional não só não devem ser evitadas, como seu uso sujeito à aplicação de multas. O alvo principal da medida são os anglicismos, que se integraram rapidamente ao idioma russo com a disseminação da internet, tecnologias e tendências de moda.

Caso seja o projeto seja aprovado e inserido no Código de Violações Administrativas da Federação Russa, os cidadãos comuns estarão sujeitos a multas que variam de 2 mil  a 2,5 mil rublos (US$ 50-70), as autoridades que ocupam cargos públicos terão que pagar multas de até 5 mil rublos (US$ 150) e as pessoas jurídicas, entre 40 e 50 mil rublos (US$ 1.160-1.460).

O projeto de lei, que aparecerá na agenda do dia da Duma do Estado apenas em julho, já causou controvérsia. Mesmo assim, o diretor de cinema Vladímir Bortko, vice-presidente do Comitê para a Cultura da Duma do Estado, garante que a iniciativa não é pioneira. “Os primeiros foram os franceses, porque estavam preocupados com o anglicismo e o desaparecimento da língua francesa”, diz. “Só é preciso tomar cuidado para não exagerar, pois há palavras que já se enraizaram.”

Fato é que não está claro o uso de quais palavras o PDLR propõe considerar "injustificado", pois até mesmo os termos que compõem o título do Partido Democrático Liberal, são emprestados de outra língua. Da mesma forma, anglicismos como “Kompiuter” (computer), “futebol” (football), “printer” e “vídeo”, entre outras palavras, dificilmente poderiam ser substituídos.

Prova de ideologia

O que mais preocupa a maioria dos representantes do partido é a utilização dos termos usados por representantes da mídia, educadores e escritores. Em maio deste ano, foi assinada uma lei que também proíbe o uso de palavrões na imprensa, redes de cinemas e durante a apresentação pública de obras de arte.

Mas, apesar da luta do PDLR pela conservação da língua, o governo não apoiou a nova medida do partido. O Departamento Jurídico do governo federal considerou que as regras para o uso da língua russa já são regulamentadas na lei “Sobre a língua oficial da Federação Russa” e não necessitam de alterações adicionais.

“A luta do Estado pela pureza da língua é uma manifestação de idealismo ideológico, uma tentativa de impor uma língua perfeita aos veículos de comunicação que reflete os princípios do Estado”, considera Evguênia Basovskaia, diretora da Faculdade de Jornalismo da Universidade Estatal de Ciências Humanas da Rússia e autora do livro “A imprensa soviética na luta pela pureza da língua”.

História em palavras

Na história da Rússia são conhecidos dois lados beligerantes: os eslavófilos e os ocidentalistas. Os primeiros defendiam o desenvolvimento autônomo da Rússia, sem dependência do Ocidente e de suas tendências; os outros sustentavam que os russos não deveriam reinventar a roda, e sim seguir as tendências internacionais. As suas disputas abordavam inclusive o uso de “palavras emprestadas”.

Na Rússia soviética da década de 1930, o principal combatente pela pureza da língua foi Maksim Górki, que publicou o artigo “Sobre a linguagem”, no qual derramou críticas sobre o vulgarismo e o provincianismo. “A próxima fase da purificação da língua ocorreu no final do período stalinista, quando o Estado soviético estava lutando pela pureza nacional, quando estavam sendo devolvidos muitos dos valores e símbolos do Império Russo”, explica Basovskaia.

Naquela época, a batalha foi travada precisamente para purificar a língua de influências e palavras estrangeiras. A última fase desse movimento ocorreu nos anos 1960, quando, segundo a escritora, “o partidário não tanto da purificação como do cuidado com a linguagem foi Kornei Tchukovski [poeta soviético, escritor, jornalista, crítico literário e publicitário], que cunhou o termo “kantseliarit” (para se referir ao estilo burocrático russo) e tentou trazer à razão os seus contemporâneos”.

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