Lei antitabagista retoma velha polêmica em torno do fumo

Tabaco tornou-se popular entre as mulheres russas no século 19 Foto: ITAR-TASS

Tabaco tornou-se popular entre as mulheres russas no século 19 Foto: ITAR-TASS

Desde 1º de junho, é proibido fumar em trens, hotéis, cafés e parques infantis na Rússia. Mas, para um país onde o tabaco é popular há mais de 400 anos, esta não é a primeira medida que visa a restringir o fumo. Conheça a história da chegada do tabaco à Rússia e seu consumo através do tempo.

O tabaco chegou à Rússia durante a época de Ivan, o Terrível. Em 1553, um navio mercante inglês teve que parar na costa russa por causa de uma tempestade. Entre todas as mercadorias, também havia tabaco a bordo. Resultado: experimentaram o produto e gostaram. Do tabaco, foi iniciada a produção de tudo o que era possível: fumo, para mastigação e até em bebida alcoólica – depois da qual era impossível ficar em pé. 

Depois de meio século, apareceram as primeiras proibições ao uso de tabaco. Acreditava-se que o fumo era “algo contrário a Deus”, geralmente associado a forças malignas. Pessoas foram exiladas para a Sibéria, tiveram as narinas rasgadas e os lábios cortados por causa do fumo. Mas, aparentemente, essas medidas não surtiram tanto efeito.

Tudo mudou sob o comando de Piotr I. O cachimbo não saía da boca do jovem tsar, fazendo com que a nobreza aderisse ao fumo. Na época, o imperador conseguiu até tirar proveito da situação: vendeu para os ingleses o monopólio do comércio do tabaco na Rússia (embora por apenas 7 anos) por 200 mil libras esterlinas, e usou o dinheiro para melhorar o Exército e a Marinha.

Os cidadãos comuns, ao contrário dos nobres, não fumavam o tabaco tanto quanto o mastigavam e cheiravam. Afinal, fumar em locais públicos era proibido, mas continuava permitido mastigar e cheirar o produto. Em meados do século 18, as caixas de rapé feitas de madeira entraram na vida cotidiana russa.

Vício do poder

A imperatriz Ekaterina II gostava de cheirar o tabaco. Porém, pegava-o só com a mão esquerda, pois na direita recebia beijos e assinava os decretos. Aliás, durante seu reino começou-se a plantar o tabaco americano, e os primeiros produtores nacionais receberam o direito de negociar dentro do país sem pagar impostos. O tabaco ficou mais barato e se espalhou mais ainda.

Por volta do século 19, fumava-se em todos os lugares: casas, restaurantes, clubes, lojas de tabaco etc. “Agora fumam não só os aristocratas, como também as senhoras! Ó, que horror! As mulheres fumam tabaco”, escreveu um jornalista em 1840. Se não fosse o bastante, até o médico da primeira metade do século 19 recomendavam fumar para melhorar a visão, a memória e acalmar os nervos.

Em meio a disseminação do tabaco, foram aparecendo também as pílulas para aqueles que queriam parar de fumar – anunciadas em jornais e revistas na mesma página que publicidade de cigarros e derivados do tabaco.

O tsar Nikolai I  não fumava nem gostava de fumantes. Por isso, proibiu o fumo em ruas, praças e locais públicos. Mas o seu filho, Aleksandr II, um fumante ávido, revogou as proibições do pai e permitiu a venda livre de tabaco, cigarros e charutos.

Logo, os cigarros se tornaram parte da imagem dos estudantes, oficiais, funcionários públicos e mulheres emancipadas. Relatos confirmam, por exemplo, que o escrito Fiódor Dostoiévski fumava um cigarro atrás do outro enquanto estava escrevendo. Em sua mesa, havia sempre uma caixa de tabaco.

Os três últimos monarcas russos – Aleksandr II, seu filho Aleksandr III, e seu neto Nikolai II – eram todos fumantes. Nesse período, a “capital do tabaco” na Rússia era certamente São Petersburgo, onde era produzido 80% do tabaco no país.

Cigarro antifascista

Após a Revolução de 1917 e a guerra civil, as fábricas começaram a produzir três vezes menos tabaco do que na virada do século. Os cigarros eram vendidos por deficientes físicos da Primeira Guerra Mundial e por desabrigados. O negócio era rentável – todos queriam fumar.

 “O trabalhador e o camponês esmagados pelo trabalho pedem: ‘Permita-nos fumar pelo menos um pouco’. Motoristas de trator e mineiros querem fumar. Engenheiros de diziam: ‘Faremos tudo, só nos deem cigarros’. Quando as pessoas pararem de fumar, será outra coisa, mas agora precisamos de tabaco”, declarou o ministro Anastas Mikoian, em 1931.

A partir da década de 1930, a produção de tabaco cresceu. Mas, com o início  da Segunda Guerra Mundial, a quantidade de produto caiu e a necessidade aumentou ainda mais. Começaram a aparecer cigarros de baixa qualidade, mas com tabaco muito forte, que eram chamados de “Arrancar os olhos” ou “Morte aos fascistas”.

Ministério adverte

O povo soviético também fumava em todos os  lugares – no trabalho, em casa, cafés e restaurantes. Escritores, artistas, estrelas de cinema e personagens de desenhos animados – todos fumavam. Até o chefe de Estado, Leonid Brejnev, fumava aos montes.

As primeiras medidas soviéticas para restrição do fumo foram adotadas somente em 1980. A legislação proibia a venda de cigarros para menores de 16 anos e estipulava os chamados fumódromos. Em casa um deles, havia uma placa: “O Ministério da Saúde adverte: fumar é perigoso para a sua saúde”.

Nessa década, porém, o país sofreu escassez de cigarros. Havia filas enormes no mercado e vendia-se até bitucas. Só era possível comprar Marlboro ou Kent por preços exorbitantes, e nunca em lojas – o local ideal para isso eram as estações ferroviárias ou banheiros de hotéis onde estrangeiros ficavam hospedados. Já no começo dos anos 1990, muitas fábricas russas de tabaco foram compradas por gigantes mundiais da indústria e o déficit foi eliminado. 

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