Um caminho sem volta (e para melhor)

Ivan descobriu que viver em uma aldeia era muito fácil para ele, embora, de acordo com as estatísticas, o nível de vida seja inferior ao da cidade Foto: ITAR-TASS

Ivan descobriu que viver em uma aldeia era muito fácil para ele, embora, de acordo com as estatísticas, o nível de vida seja inferior ao da cidade Foto: ITAR-TASS

Um dos traços característicos da sociedade russa é a tendência de tentar se mudar para a capital. No entanto, também existem casos em que ocorre o oposto e eles sempre causam surpresa. Um rapaz graduado em uma prestigiada Universidade russa escolheu precisamente esse caminho.

Ivan tem apenas 30 anos de idade em durante os últimos oito, morou em uma aldeia. A mudança aconteceu depois de obter o diploma de historiador pela Universidade Estatal de Moscou Lomonossov. Nessa época, Ivan simplesmente comprou uma passagem de trem e partiu para a “liberdade”.

“Nasci e cresci em Moscou. Depois de uma infância soviética feliz, vieram os difíceis anos de transição da perestroika. Foi nessa época que a ideia de mudar para uma aldeia surgiu pela primeira vez. Acho que desde a sétima série do ensino básico eu tinha certeza de que não ficaria na cidade”, conta. Ivan deixou a capital e mudou-se para o povoado de Kinel- Tcherkássi, na unidade federativa de Samara.

“Vim morar na casa em que meu pai nasceu, na aldeia onde por cerca de 250 anos viveram meus antepassados. A necessidade de colocar em ordem a casa, que havia sido bastante negligenciada, foi difícil, mas isso é normal na vida rural”, descreve Ivan.

Segundo o jovem, a vida na cidade está atualmente associada com uma quantidade tão grande de pontos negativos – condições ambientais, o ritmo de vida e a falta de tempo livre – que eles não podem ser compensados pelas várias oportunidades e privilégios de se uma megalópole.  “Atividades criativas, autorrealização e uma comunicação normal, ao vivo, com as pessoas, é isso tudo que a aldeia oferece”, explica.

Também não foi difícil de encontrar um emprego, já que o recém-graduado pela MGU foi prontamente aceito na escola local, onde criou um “clube da História Militar”. “O principal objetivo do clube é desenvolver um trabalho de esclarecimento e formação. Durante as atividades, contamos às crianças sobre o passado heroico, o cotidiano e o estilo de vida dos nossos antepassados”, explica.

Mais de 250 crianças com idade a partir de 5 anos já passaram pela organização do jovem historiador. Muitas delas foram bem sucedidas na esgrima histórica, assimilação de antigos ofícios, tiro com arco, bem como na reconstrução histórica. “Essa também é uma ótima maneira de autorrealização, porque somos nós que confeccionamos todas as roupas, utensílios e armaduras.”

Ivan descobriu, assim, que viver em uma aldeia era muito fácil para ele, embora, de acordo com as estatísticas, o nível de vida seja inferior ao da cidade. Ele acredita que os números nem sempre devem ser considerados de modo literal e o nível de vida nas zonas rurais depende, em primeiro lugar, da empregabilidade da população em um local específico.

“Em primeiro lugar, uma aldeia é diferente da outra e eu tive sorte de ir para uma região tradicionalmente rica, onde vivem pessoas trabalhadoras e que conta com uma boa infraestrutura”, diz o historiador. “Fora isso, vida boa não está apenas relacionada com o nível de renda. Aqui nós consumimos alimentos frescos de boa qualidade, respiramos ar puro e somos ativos fisicamente”, avalia,

Vida entre cossacos

De acordo com uma das versões históricas, a aldeia de Kinel-Tcherkássi foi fundada pelos cossacos ucranianos, os chamados tcherkassi. Nesse caso, todos os habitantes da aldeia seriam descendentes deles. Ao conhecer os cossacos locais, Ivan logo se uniu a eles.

“Eu compreendo muito bem os cossacos e me sinto muito próximo a eles. Os cossacos modernos ajudam as autoridades policiais na manutenção da ordem pública, estão engajados na educação patriótica das crianças, no renascimento das tradições antigas, na proteção ambiental. Encontramos muitas coisas em comum”, comenta.

Hoje em dia, Ivan tem o título de centurião (“sotnik” em russo, que corresponde a patente de tenente sênior) da Sociedade Militar Cossaca do Volga e é responsável pela educação patriótica dos jovens. Além disso, mantém seu próprio blog com materiais de conteúdo histórico e social.

“Não quero simplesmente contar sobre os eventos, fatos e datas. Eu quero ensinar as pessoas a compreender corretamente a história do nosso país, a trabalhar de forma honesta e com consciência”, diz o jovem. “O verdadeiro patriotismo não está nas palavras, e sim nas ações.” 

 

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