Seitas criam ponte entre religião e crime

Ideia de reclusão encontra invariavelmente os seus admiradores pelo país Foto: Ígor Kóstin/RIA Nóvosti

Ideia de reclusão encontra invariavelmente os seus admiradores pelo país Foto: Ígor Kóstin/RIA Nóvosti

Organizações pseudorreligiosas imitam crenças mundiais e prometem cura para todas as doenças.

As seitas russas contêm particularidades da mentalidade da população: elas se baseiam em crenças pagãs e prometem a cura completa do corpo, poder e vida eterna. No topo da hierarquia de cada seita há um líder forte, que, com seu carisma e ideias, atrai seguidores.

“Toda seita começa com um líder que cria em torno de si uma organização à sua imagem e semelhança. Há características comuns aos líderes de todas as seitas: sede de poder e narcisismo”, explica o especialista em seitas e diretor do Centro de Estudos da Religião em Nome de Santo Irineu de Lyon, Aleksandr Dvorkin.

A polícia se dá conta desses grupos normalmente quando os seus membros começam a vender coisas para pagar o dízimo ou no caso de mortes trágicas de pessoas relacionadas com essas seitas. No início de abril passado, os oficiais de justiça da República do Tatarstão expulsaram 15 pessoas de uma casa na cidade de Kazan, os últimos membros de uma seita religiosa cujos adeptos se denominavam “faizrakhmanisas”.

A denominação vem do nome do seu líder, Faizrakhman Sattarov, que, há 40 anos, era vice-mufti da Administração Espiritual dos Muçulmanos do Tatarstão. Certo dia, Sattarov viu uma faísca depois de o trólei passar e decidiu que aquilo era a luz de Alá. Então se autoproclamou profeta, reuniu centenas de seguidores, declarou a sua “datcha” (casa de campo) um Estado independente e bloqueou qualquer comunicação com o mundo exterior.

Quando, duas décadas mais tarde, as autoridades conseguiram encontrar uma razão legal para entrar na sua propriedade, eles se depararam com uma verdadeira cidade subterrânea com oito andares, escavada debaixo da casa. Naquelas minúsculas celas úmidas viviam 70 pessoas que nunca consultavam o médico nem tomavam medicamentos. As crianças nunca tinham ido à escola e já havia adolescentes grávidas.

“Nessas redes de seitas caem pessoas mais vulneráveis”, diz Dvorkin, ao admitir que um indivíduo sob estresse tem mais dificuldade de assumir controle sobre si. “Mas ninguém é convidado para aderir a uma seita. As pessoas são antes convidadas para fazerem um curso gratuito de inglês ou um diagnóstico com um médico que vê todas as doenças, entre outras coisas. E por detrás disto pode se esconder uma seita.”

A ideia de reclusão, de afastamento do mundo, encontra invariavelmente os seus admiradores. No outono de 2007, 35 seguidores dos ensinamentos do deão Piótr Kuznetsov se fecharam em um canal subterrâneo na região de Penza. Os seguidores esperavam o fim do mundo e ameaçavam explodir a si próprios se fossem libertados à força.

Seis meses depois, duas mulheres morreram e os eremitas saíram voluntariamente do refúgio. Mas o próprio Kuznetsov nunca desceu para o canal subterrâneo. Os seus ensinamentos se baseavam igualmente na rejeição dos bens da civilização. Ele criou a seita depois de se divorciar da sua mulher, que não gostava do fato de o marido dormir dentro de um caixão e pregar valores questionáveis. Kuznetsov acabou sendo detido pela polícia e enviado para tratamento psiquiátrico.

“No entanto, as seitas cuja existência se mantém na segunda geração são uma minoria. Conheço apenas duas que sobrevivem há várias gerações: mórmons e Testemunhas de Jeová", acrescenta Dvorkin.

Profetas de araque

A presença de seitas como um fenômeno notável teve início com a chegada do cristianismo. O rígido poder dos tempos soviéticos só incentivou ainda mais o desenvolvimento de seitas totalitárias. O progresso científico e o desenvolvimento da psicologia também influenciaram nesse caminho.

O Centro de Estudos da Religião, onde Dvokin trabalha, as seitas são divididas em vários tipos. A maioria delas imita as religiões mundialmente reconhecidas, como o budismo, o hinduísmo, o protestantismo e o cristianismo.

Por exemplo, a seita do deus Kuziá se reúne perto das igrejas ortodoxas, ajuda os deões a organizarem exposições itinerantes e propõe aos paroquianos que encomendem orações pagas para resolver os seus problemas de moradia, obter ajuda nos tribunais ou para “se livrarem do vício dos computadores”. Os adeptos dessa seita foram reunidos pelo sacerdote Andrei Popov, 37 anos, que se apresenta como deus Kuziá. Ele chama os seus inimigos de demônios, “vegetais” ou “pepinos”, enquanto os seguidores são submetidos a pressão física e psicológica.

Os adeptos defendem ferozmente os dogmas, entre os quais alguns bastante curiosos, como o tratamento de doenças com vegetais. Os membros do centro fazem propaganda do amor e relacionamentos livres, levando moças jovens a manterem relações com homens casados. Igualmente, a seita Ashram Shambala, que teve origem na Sibéria, promovia verdadeiras orgias. O seu líder, Konstantin Rudnev, foi condenado, em 2013, a 11 anos por tráfico de drogas e desvio de verbas.

Os curandeiros também são muito populares na Rússia. Na década de 1990, os dois hipnotizadores mais famosos do país, Alan Tchumak e Anatóli Kachpirovski, se apresentavam oficialmente na TV, dizendo “carregar com energia curativa” qualquer água que fosse colocada em frente à tela do televisor.

No século 21, esse trabalho foi continuado por Gregóri Grabovoi, que prometia às mulheres da cidade de Beslan, na Ossétia, ressuscitar os seus filhos, mortos durante a captura dos terroristas que atacaram a escola. Em 2008, Grabovoi foi condenado a 11 anos de prisão por fraude.

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