Por que as crianças estão agressivas?

Especialistas aconselham ajudar a criança a formar um sistema de valores Foto: ITAR-TASS

Especialistas aconselham ajudar a criança a formar um sistema de valores Foto: ITAR-TASS

“A sociedade de consumo já não se limita a coisas, as pessoas de hoje estão se consumindo”, diz pesquisador sênior do Centro de Pesquisa Estatal de Psiquiatria Social e Forense Vladímir Sérbski, Lev Perejóguin, que procura entender as causas da agressividade infantil.

Pais russos notam que seus filhos estão mais agressivos. Aumentaram os casos de suicídios infantis. O pesquisador sênior do Centro de Pesquisa Estatal de Psiquiatria Social e Forense Vladímir Sérbski, Lev Perejóguin, procura entender as causas da agressividade infantil, bem como encontrar maneiras de evitar as consequências desastrosas de sua manifestação.

A agressividade é uma ação e omissão que possui um objeto que não suporta ser alvo dela, esta é a característica mais importante. O terapeuta explica que há três tipos de agressões:  

“Em primeiro lugar, a física (inerente a animais e crianças que, por causa da idade, não se submetem às convenções sociais).  O segundo tipo, a verbal, quando a agressão é expressa por palavras. E a terceira variante é indireta, quando há o direcionamento da agressão para terceiros. Há ainda um outro cenário, a autoagressão. É um tipo de agressão direcionada a si mesmo –suicídio, automutilação e comportamento autodestrutivo (álcool e drogas).”

De acordo com o especialista, a agressão surge da concorrência entre as crianças na luta pela atenção dos adultos.

“O mundo infantil tem o mesmo delineamento dos adultos: 10% iniciam a agressão, 70% revidam e 20% evitam a agressão a qualquer custo. A via mais adequada, por onde os pais podem conduzir seus filhos, é mantê-los dentro dos 70%. Se você for ofendido, revide, mas nunca seja o primeiro a começar uma briga. Isso é normal a partir da visão biológica da agressão”, explica Perejóguin.

No entanto, há o caso de agressão patológica, que possui suas causas em transtornos mentais. Na Rússia, mais de 200 médicos se dedicam ao estudo desses problemas, mas, já que o número dos especialistas é baixo, casos de patologia grave, como esquizofrenia e autismo, não são devidamente notados por médicos pediatras e neurologistas.

“Hoje em dia cresce catastroficamente o número de crianças com transtornos no espectro de austismo e esquizofrenia precoces. Tais crianças não são agressivas porque precisam de algo, mas porque eles querem ficar sozinhas. Qualquer tentativa de fazer amizade com outras crianças eles percebem como agressão. Geralmente respondem a isso de forma inadequada, com desprezo ou cruelmente”, afirma Perejóguin.

Os pais podem influenciar o comportamento de uma criança, mas somente até uma certa idade, quando ainda não está definido o estereótipo pscicológico.

“Peguemos o garoto valentão: seus pares o temem e respeitam. Os professores não gostam do seu comportamento, e os pais o evitam, mas para ele os prós superam os contras e ele consegue se adaptar a tudo. Este é o esteriótipo de um garoto que os adultos têm condição de mudar até a puberdade, depois será tarde. A agressão infantil é corrigida com medicamentos e trabalho pscicoterapêutico”, explica o especialista. “Os nossos especialistas infelizmente não dão conta desses problemas e um tratamento objetivo sai muito caro.”

Perejogin observa que há uma clara desvalorização da vida entre os adolescentes.

“A vida já não é mais o único valor, mas apenas um recurso banal, como objetos e comida. Há hoje suicídios tristes por causa de amor não correspondido. Ou melhor, amor não está na moda, mas sexo. Se o objeto de interesse recusa o contato físico, a causa dos problemas emocionais juvenis é a tentativa de encontrar um substituto muito mais fácil. Há uma substituição de conceitos. A sociedade de consumo já não se limita a coisas, as pessoas de hoje estão se consumindo”.

O que os pais devem fazer     

Os pais não conhecem bem seus filhos, conversam com eles muito pouco e, por isso, raramente podem afirmar como vivem seus filhos. Além disso, há uma categoria de adultos que incentivam a agressão ou justificam seu comportamento dizendo que assim estão protegendo seus filhos.

“Se uma criança se queixa aos pais que foi intimidada por outras crianças na escola ou na rua de casa, há dois aspectos de um comportamento correto por parte dos pais: em primeiro lugar, deve-se dar apoio moral para a criança, bem como analisar conjuntamente a situação e ajudá-la a encontrar maneiras de resolver o conflito”, explica Lev Perejóguin.

Especialistas aconselham ajudar a criança a formar um sistema de valores.

“Por exemplo, explicar quais as coisas necessárias pelas quais vale a pena lutar; quais que não valem a pena e quais aquelas que de acordo com as circunstâncias; quais as situações que se deve evitar e se afastar. Quanto mais complexo o sistema de reações humanas, melhor, pois as crianças devem aprender também sobre elas”, afirma o pscicoterapeuta.

“Este sistema de diversos comportamentos humanos somente pode ser processado em situações práticas e não na teoria. As crianças costumam obter essas habilidades por meio de interação com colegas e adultos. E os pais devem aprovar uma agressão adequada e desautorizar a inadequada –isso é tudo. Contudo, sem a cooperação dos pais, as crianças não conseguirão nada.”

 

Publicado originalmente pelo Moskóvski Komsomolets

 

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