Carteira de Moscou vira psicóloga da vizinhança

Além de entregar cartas, funcionários dos correios na Rússia trocam confidências e ajudam idosos solitários Foto: PhotoXpress

Além de entregar cartas, funcionários dos correios na Rússia trocam confidências e ajudam idosos solitários Foto: PhotoXpress

Depois de 20 anos de serviço, mãe solteira percebeu que entregar cartas não é exatamente a função principal do seu trabalho.

Todas as manhãs, a carteira moscovita Alla Chentsova entrega cartas, jornais e dinheiro para os aposentados. Ela conhece todos os moradores do bairro, sabe como vivem e com que se preocupam. Chentsova é exemplo de que, na Rússia, um funcionário do correio tem que ser ao mesmo tempo psicólogo, médico, conselheiro, gerente de pessoal e assistente social. “Aqui todos me conhecem, eu sei até o horário de cada um”, brinca.

Para que os jornais cheguem aos assinantes na hora certa, os carteiros começam trabalhar a partir das seis da manhã. Depois de 20 anos de serviço, Chentsova está mais do que acostumada a esse horário. No entanto, a carteira não precisa ir longe: o escritório está localizado no primeiro andar do prédio onde ela mora.

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“Depois que meu marido morreu, as crianças eram pequenas e recebia uma pensão de viúva. Foi a carteira que  trazia a minha pensão que me contou sobre a oportunidade de trabalho”, conta Chentsova. Hoje em dia, ela é responsável pela distribuição de correio entre 11 prédios do bairro, onde estão localizados bancos e a zona industrial chamada “Fábrica Sergo Ordjonikidze”.

Se antes os carteiros traziam as cartas em bolsas de ombro, Chentsova e seus colegas usam agora um carrinho azul cheio de jornais – a prova de que muitos moscovitas não rejeitam os jornais de papel em prol das versões eletrônicas. “Os jornais mais lidos são ‘Moskovski Komsomolets’, ‘Komsomolskaia Pravda’ e ‘Pravda’”, diz a carteira.

Entre cartas e dilemas 

Os idosos que recebem dinheiro de pensão esperam ansiosamente a chegada de Chentsova. Muitos chegam até a ligar para o correio e perguntar quando vem a carteira, preparando-se justamente para a sua chegada. “Eles me recebem com carinho”, conta. No horário de trabalho, embora não se tenha tanto tempo para conversar, a carteira tenta dar atenção a cada um.

 “As pessoas dessa idade precisam falar com alguém. Se há algo que lhes preocupa, elas precisam falar sobre isso”, continua Chentsova. “Alguns estão interessados ​​em novas revistas, outros falam sobre suas doenças. Tem também quem conte sobre sua família. Para os idosos que vivem sozinhos, é especialmente difícil.”

Para aqueles que não conseguem caminhar direito, Chentsova ajuda ainda a pagar as contas ou comprar algo no mercado. “Assim eles se acalmam. É uma pena que nem sempre tenho como ajudar”, diz Chentsova, que se diverte ao comunicar com os vizinhos de bairro.

Em uma de suas histórias mais curiosas, Chentsova ganhou um papagaio da Amazônia de um conhecido onde entregava correspondência. “A avó da família não podia cuidar dele nem os filhos que trabalham”, conta. Ela gostou tanto desse animal que mais tarde comprou dois furões para si. “Um é meio-exótico, de pelo comprido, e outro é de pelo curto”, continua. Desde então, Chentsova se tornou uma experiente criadora de animais e tem um novo assunto para compartilhar com a vizinhança.

 

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