Modelo russa fala dos dez anos de sua fundação de caridade

"O ser humano é igual a uma semente. Se for colocado em solo bom, ele crescerá como uma bela árvore" Foto: Vera Kostamo/RIA Nóvosti

"O ser humano é igual a uma semente. Se for colocado em solo bom, ele crescerá como uma bela árvore" Foto: Vera Kostamo/RIA Nóvosti

À revista “Ogoniók”, Natália Vodiánova falou sobre as mudanças na Rússia e por que o trabalho realizado nesses anos valeu a pena.

Neste ano, o fundo de caridade da modelo russa Natália Vodianova, o Coração Desnudo, completará dez anos. Vodianova falou à revista russa “Ogonek” sobre as mudanças na Rússia e por que o trabalho realizado nesses anos valeu a pena.

Ogoniók – Sua irmã mais velha, Oksana, sofre de autismo. Foi esse o motivo  para o estabelecimento da Fundação Coração desnudo?

Natália Vodiánova – A nossa fundação não trabalha só com autismo,  mas também com problemas de desenvolvimento de crianças. Tenho experiência pessoal desde que o caso de Oksana foi  diagnosticado como paralisia cerebral (só recentemente descobriram o autismo). Quando eu inaugurei a fundação estava interessada em crianças que crescem em situações difíceis pois eu mesmo fui uma dessas crianças.

Em nossa família, Oksana era a pessoa mais feliz. Ela era uma criança alegre, nós demos a ela todo o amor e carinho. Mas era muito difícil, é um trauma de infância que só agora foi sublimado em algo muito positivo. Eu cresci em uma situação emocional bem difícil e fui humilhada por colegas, tive fracassos na escola e desprezo a mim mesma. Não era só a situação de Oksana ou a criação de uma criança com deficiência. Nós estávamos vivendo em condições difíceis. Na escola eu não conseguia estudar direito.

Eu não tinha a possibilidade de estudar em casa. Como eu não fazia o dever de casa, as notas eram ruins. Eu não tive amigos, pois comecei trabalhar a partir de 11 anos. Os interesses de colegas me pareciam longe da realidade, eu vivia em isolamento. Eu me lembro de um dia quente em que todos estavam de bom humor e brincavam juntos, mas em subsolos, em canteiros de obras, pois o único escorregador que tínhamos  estava ocupado por adolescentes que fumavam e bebiam e nos mandavam embora.

Talvez seja por isso que na vida adulta eu tive a ideia de criar grandes e belos parques infantis. O parquinho é uma necessidade para qualquer criança, mas para uma criança que está crescendo em condições difíceis é também uma possibilidade de reabilitação. Ela pode escapar da realidade e ver a vida de maneira mais alegre, pode simplesmente começar a respirar e a viver. Era um projeto específico. E as autoridades locais o trataram bem. Hoje temos 107 parque infantis em toda a Rússia e 79 em assentamentos.

Na conferência sobre autismo que sua fundação recentemente organizou em Moscou havia especialistas de diferentes países. Uma das participantes disse que a Rússia não consegue copiar a experiência ocidental porque nós temos uma mentalidade especial. Você sente esse tipo da mentalidade?

O ser humano é igual a uma semente. Se for colocado em solo bom, ele crescerá como uma bela árvore e se for colocado em solo ruim, crescerá como uma erva daninha. Sim, temos muitas desvantagens, o tempo e o nosso passado estão contra nós. Quando suas próprias necessidades não são levadas em conta e quando você tem que educar seus filhos, você pensa: “Por que eu deveria pensar em outras crianças?” Mas assim que a situação se torna mais fácil, as pessoas começam a pensar de modo diferente. Geograficamente, nosso pais é muito complicado. Em algumas partes da Rússia tudo é mais difícil simplesmente por causa do frio. É difícil viver assim. Somos lentos, mas estamos indo para frente, nos desenvolvendo. Há algumas pessoas que estão prontas para as mudanças, simplesmente porque elas estão mais próximas à classe alta do que à baixa.

Eu sei que você organizou um leilão em que foi vendido um o lote de “Estudos com Lagerfeld” por uma grande soma. Como você consegue convencer as pessoas a participar de suas promoções?

Eu conheço todas essas pessoas, mas nosso relacionamento se formou ao longo dos anos. Precisamos de muitos anos para conseguir alguma confiança. Este é um processo complexo. Nós não apenas recolhemos qualquer coisa para vender, nossos leilões têm um tema determinado, o que exige mais esforço. Mas estou feliz sabendo que as pessoas ao meu redor pensam positivo. Ajuda também o fato de os itens estarem saindo bem, isso significa que as pessoas estão dispostas a continuar a cooperação. Tudo isso precisa ser organizado, tem que trazer as pessoas e as convencer a comprar lotes sem o medo de que alguém mais tarde diga: “Você tem muito dinheiro, pode nos dar também.” Entende? Na Rússia, isso pode acontecer, por isso as pessoas às vezes têm medo de fazer publicamente grandes contribuições.

Há apenas um ano começamos a atrair empresas privadas para participar dos projetos. Isso coloca a nossa empresa em nível internacional. É prática mundial a empresa ganhar dinheiro e com o lucro participar de atividades de caridade. Em países ocidentais, onde o mercado é competitivo, empresas entendem que é possível atrair as pessoas com a participação em eventos de caridade.

Você agora mora em Paris. O que mais lhe impressionou quando chegou lá?

Para mim sempre foi difícil pensar como estamos atrasados. Ver uma criança com autismo ou paralisia cerebral no parque infantil em Paris ou em Novo York  é totalmente normal. Lá ninguém vê essa criança como uma ameaça. Todas brincam juntas.

 

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