“Puting” tudo junto

Ilustração: Niiaz Karim

Ilustração: Niiaz Karim

Em dezembro de 2011, Moscou virou palco de imensos protestos que deram origem ao movimento de oposição. Com ele, não só surgiram novos grupos dispostos a mudar o sistema, mas o cenário político também foi enriquecido com uma gama de neologismos.

O primeiro grande protesto, em 2011, foi realizado na Praça Bolotnáia, localizada no centro da capital. Depois disso, a palavra “bolotnáia” (“pântano”, em russo) adquiriu um novo significado e o “movimento do pântano” se tornou uma expressão fixa. Como os principais participantes desse movimento eram intelectuais, a expressão “classe criativa” passou a ser usada para designá-los.

A fita branca que os participantes dos protestos de 2011 penduraram na roupa se tornaram símbolo do movimento de oposição, e logo a palavra “belolentochniki” (“fitinhas brancas”, em português) foi incorporada às conversas do dia a dia na Rússia.

Na sequência, os termos usados para se referir à oposição ganharam uma espécie de antônimo com o movimento pró-governo organizado na “Colina Poklonnaia”, ou “Colina dos Arcos”, também em Moscou. Surgiu, assim, uma espécie de oposição semântica de dois cenários: “Bolotnáia-Poklónnaia”.

No ano seguinte, os opositores realizaram novas ações simbólicas, como a operação “Anel Branco”, na qual pessoas com fitas brancas se alinharam ao longo de toda a extensão de 15 quilômetros do anel rodoviário central de Moscou, conhecido como Anel do Jardim. A cor branca foi então associada não só à neve e ao inverno, mas sobretudo à pureza e honestidade pela oposição.

Por sua vez, os opositores dos “fitinhas brancas” começaram a chamá-los de “hamsters”, dando ênfase ao fato de desempenharam o papel de figurantes em meio a uma multidão controlada. Como resposta, os participantes da “Colina dos Arcos” receberam o apelido de “anchovas”, em referência aos funcionários de empresas públicas forçados a participar nos protestos e que chegavam aos locais de manifestação em ônibus lotados, como anchovas em uma lata.

Tendência “ing”

Para as manifestações em apoio a Vladímir Pútin, nasceu o trocadilho “Puting”, uma combinação do nome do presidente com o vocábulo russo “miting” (“manifestação”, em português). A partir de então, começaram a aparecer outras palavras formadas conforme o mesmo modelo. Isto é, o sufixo “ing” foi sendo associado ao sobrenome de diversos políticos e deputados, como é o caso de Elena Mizulina, autora da polêmica “lei antigay”. Desse modo, todas as ações ligadas a esta iniciativa começaram a ser chamadas de “mizuling”.

Mas fato é que a combinação de duas palavras já era tendência desde 2008, quando Dmítri Medvedev assumiu o cargo de presidente e Pútin, o de primeiro-ministro. Na época, ficou claro que os dois políticos trabalhavam em conjunto, dando origem à palavra “tandemocracy” (conjunto + democracia).

País fatiado

Na Rússia moderna, a corrupção é um problema significativo, especialmente entre os altos funcionários. Recursos orçamentários destinados para a implementação de grandes projetos do governo são muitas vezes utilizados de forma ineficiente e acabam nas empresas privadas.

Tais esquemas são chamados de “fatiamento” na Rússia, como se o orçamento de um projeto fosse fatiado entre diversos interesses. O líder do movimento Bolotnáia e blogueiro da oposição, Aleksêi Naválni, ganhou popularidade com a denúncia de político corruptos, e seu site foi batizado de “Fatiamento da Rússia”, considerada a “expressão do ano” em 2011.

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